Desenvolvimento Atlético a Longo Prazo – Parte 3

“Não se trata de reconhecer o talento. Nunca tentei encontrar alguém que tenha talento. Primeiro, trabalhas os fundamentos e rapidamente descobres onde vão as coisas”.

Robert Lansdorp,treinador de ténis de vários jogadores que foram número um do mundo: Pete Sampras, Tracy Austin e Lindsay Davenport.

No último artigo destacamos dois factores que podem influenciar este Modelo: a Regra das 10.000 horas, como sendo o número “mágico” a atingir para ser considerado um especialista em qualquer desporto / actividade e as Janelas de Oportunidade, identificadas como os períodos sensíveis / críticos para o treino de várias habilidades (velocidade, resistência, mobilidade, força, potência, etc.), com algumas diferenças para rapazes e raparigas. Por exemplo, se não começamos a treinar a velocidade ou qualquer movimento balístico quando os jovens têm 6/7 anos, que é quando surge a primeira janela da velocidade, já estamos limitando a capacidade dos nossos futuros atletas.

Gostaria de destacar mais 3 factores: Especialização, Idade de Desenvolvimento e Periodização.

3. Especialização.  

Os desportos podemos ser classificados em função da sua natureza. Os desportos de especialização precoce incluem os desportos artísticos e acrobáticos tais como a ginástica e a patinagem artística. Estes distinguem-se dos desportos de especialização tardia porque as habilidades a aprender são muito complexas e, por esse motivo, têm que ser ensinadas antes da puberdade. Segundo Tudor Bompa, em Total Training for Young Champions, o período para começar a especialização nestes desportos costuma ser entre os 9 e os 11 anos.

A maioria dos outros desportos são de especializção tardia, no entanto, cada desporto deve ser analisado individualmente, utilizando os dados normativos nacionais e internacionais. Num programa desportivo bem estruturado, no qual se fomenta o desenvolvimento dos FUNDAMENTOS, os atletas com 12-15 anos não só têm a opção de escolher qualquer desporto de especialização tardia, como também têm o potencial para chegar ao máximo rendimento nesse desporto.

4. Idade de Desenvolvimento. 

Recordo-me de falar nisto na parte 1 desta série. A Idade Cronológica refere-se ao número de anos e dias passados desde o nascimento. Crianças da mesma idade cronológica podem diferir em vários anos, quando comparadas com o seu nível de maturação biológica. A Idade de Desenvolvimento ou Idade Biológica refere-se ao grau de maturidade física, mental, cognitivo e emocional. Para realmente medir a idade de desenvolvimento de uma criança, devemos olhar para o seguinte: desenvolvimento do esqueleto, desenvolvimento sexual, velocidade de crescimento, padrões de movimento funcionais, habilidades de movimento básicas e avaliações desportivas específicas.

Num Modelo de Desenvolvimento Atlético a Longo Prazo, requere-se a identificação da idade biológica com a finalidade de podermos estabelecer uma preparação óptima com programas adequados de treino e competição. Na actualidade, os programas de treino e competição baseiam-se na idade cronológica, no entanto, atletas entre os 10 e 16 anos, podem ter uma diferença de 4 ou 5 anos em relação à sua idade de desenvolvimento.

Já sei o que estão a pensar, “este gajo tá a repetir a mesma conversa de sempre, já sabemos que os jovens têm diferentes períodos de desenvolvimento mas o sistema que temos é este e temos que trabalhar com este”. Este tem sido um dos principais problemas na forma como está organizada a prática desportiva na maioria das modalidades.

Mas como nunca me conformei com esta situação, fui à procura de respostas.

É verdade que mudar o sistema não depende apenas de nós, mas mudar a forma de pensar e treinar sim. Existem hoje em dia ferramentas que nos permitem estimar a velocidade de crescimento dos nossos atletas, um dos principais indicadores da idade biológica.

O sistema Growmetry, desenvolvido em 2008 pelos médicos austríacos Dr. Zwick e Dr. Kocher, pode ser encontrado em www.growmetry.com e representa, sem dúvida, uma solução acessível para as escolas e clubes que pretendem implementar um Modelo de formação individualizado.

5. Periodização. 

A ideia de estruturar o treino em períodos, surge na Antiga Grécia, na época dos antigos Jogos Olímpicos, no entanto reconhecemos Matveyev (1964) como o pai da periodização, propondo a divisão do processo de treino em fases (anos, meses, semanas e dias) com o objetivo de optimizar o rendimento dos atletas.

No contexto deste Modelo a periodização liga a etapa em que se encontra o atleta com os requisitos dessa etapa. Ou seja, não podemos usar o mesmo modelo de periodização para um jovem que se está iniciando no desporto e para outro jovem que está numa fase de competição. As exigências do treino em volume, frequência e intensidade são completamente distintas. No primeiro caso, o que mais importa, mais que qualquer outra coisa, é criar uma paixão pelo desporto. No segundo caso, o mais importante é planificar as fases de preparação geral, específica, pré-competição, competição e transição.

A terminologia que se costuma utilizar para diferenciar os vários períodos de treino são: macrociclos, mesociclos e microciclos. Segundo este Modelo, os macrociclos constituem os blocos maiores (2-4 meses); os mesociclos são intermédios (3-4 semanas) e os microciclos são os blocos mais pequenos (1 semana).

Tal como vejo as coisas, os factores que enumerei ao longo desta série dedicada a esta temática são imprescindíveis quando temos a responsabilidade de estruturar programas desportivos nas escolas, clubes e qualquer escola de formação.

Até breve!

Pedro Correia

Referências

Janet L. Starkes; K. Anders Ericsson (2003). Expert Performance in Sports. Advances in Research on Sport Expertise.

Long Term Athlete Development. Canadian Sport for Life Resource Paper (2011).

Manual TPI Junior Coach level 3 (2010).

Tudor Bompa (2000). Total Training for Young Champions.

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