Treino Funcional. O que é exactamente? – Parte 2

“Se treinamos músculos, esqueceremos movimentos, mas se treinamos movimentos nunca esqueceremos músculos.”

Nick Winkelman

Na parte 1 tentamos chamar a atenção para a mais recente buzzword da indústria do fitness – treino funcional – e para a forma como esta designação tem sido mal interpretada por muita gente, inclusivamente pelos próprios personal trainers, que ainda confundem o treino funcional com o treino em cima de bosus e/ou outro tipo de superfícies instáveis.

Como tal, vamos tentar definir o conceito de função.

Um pouco de história 

Em relação ao desenvolvimento das ciências do exercício, verificamos um enorme constraste entre aquilo que foi feito no Oeste (América do Norte e Europa) e o Leste de Europa (União Soviética e Bloco de Leste), particularmente desde a Segunda Guerra Mundial. No Leste da Europa continuou-se a fazer investigações científicas para melhorar o rendimento através do treino de padrões de movimento, enquanto que o Oeste focou a sua atenção no estudo de componentes cardiovasculares.

Para considerar que uma pessoa estava em forma no Oeste, era importante ter um bom resultado no teste de VO2 máximo (uma medida da capacidade aeróbica). Com este tipo de abordagem, mediu-se o VO2 max. de muita gente e esquecemo-nos de treinar os movimentos básicos. Como consequência, os fisiologistas tornaram-se “falsos” especialistas em fitness e a sua ignorância do sistema músculo-esquelético, levou à proliferação de exercícios pouco “funcionais”. Muitas máquinas foram desenvolvidas para isolar os músculos e aumentar a hipertrofia em detrimento do rendimento.

No lado oposto, o Leste da Europa continuou a desenvolver ciência em todos os aspectos do rendimento e a sua aplicação produziu os resultados que conhecemos durante as décadas de 60, 70 e 80.

Treino de Isolamento Muscular vs. Treino Funcional 

Em muitos programas de fitness / preparação física ainda existe a cultura do body building, isto é, a perspectiva que treinar os músculos de forma isolada é a única forma de trabalhar no ginásio. A primeira pergunta que temos que fazer quando se desenha um programa de treino é: Qual é o objetivo do programa? Melhorar o rendimento? Ganhar mais músculos? Ganhar mais músculos não vai de certeza aumentar o rendimento se eu não for capaz de os utilizar de uma forma coordenada num determinado movimento. Não é o facto de ter uns quadriceps grandes, trabalhando na Leg Press, que vai fazer com que corra mais rápido ou chute com mais força. Há muitas mais coisas em jogo. O único resultado seguro que vou obter ao fazer essa máquina é desenvolver os quadriceps de forma desintegrada dos principais movimentos atléticos e não só.

A Leg Press não tem nada a ver com a forma como usamos as nossas pernas, que se destinam a nos manter em pé contra a gravidade, enquanto nós caminhamos, escalamos ou corremos. À medida que andamos, existe uma rotação do fémur sob a rótula mas ao fazermos esta máquina, verificamos uma rotação da rótula “sobre” o fémur. A mecânica da Leg Press, além de não simular aquilo que acontece quando andamos, corremos ou descemos escadas, pode colocar também demasiada pressão sobre o joelho e sobre os ligamentos.

Em suma, a máquina promove força que não é ADAPTÁVEL. Não há exigências significativas do âmbito motor (leia-se inter-relação entre o sistema nervoso e muscular) na máquina de Leg Press, basta empurrar! Na vida real, as pessoas precisam de andar, de se equilibrar numa perna e de usar as ancas e os glúteos. Por exemplo, se o objectivo é melhorar a capacidade de uma pessoa em levantar-se do sofá, o agachamento vai ter um transfer maior que a máquina supracitada. Lembrem-se: o nosso cérebro pensa em movimentos, não pensa em músculos isolados.

Por que é que as máquinas não constituem boas opções?

O grande objetivo do treino funcional é utlizar o corpo (com as suas capacidades e limitações) através da aprendizagem de movimentos. E as máquinas onde a maior parte das pessoas passam o tempo são auto-limitativas nesse aspecto porque não permitem o trabalho de movimentos naturais / fundamentais e porque não requerem uma adaptação constante. O ambiente é sempre o mesmo. É como treinar dentro duma cabine telefónica!

Mais quatro razões:

a) Cada indivíduo tem diferentes proporções no que respeita ao tamanho dos seus segmentos corporais, diferentes pontos de eficiência biomecânica, diferentes comprimentos musculares, diferentes velocidades de condução nervosa e diferente tolerância muscular.

b) As máquinas não podem recriar as muitas variações de desenvolvimento de força num músculo para estimular todas as unidades motoras. No torso, por exemplo, os oblíquos têm muitos compartimentos neuromusculares que não são estimulados ao estarmos sentados.

c) A completa estimulação e treino das unidades motoras não pode ser alcançada com máquinas que limitam o movimento e que oferecem apoio e estabilidade em vários segmentos do corpo. Um programa de treino óptimo reconhece o valor da liberdade de movimento, velocidade do movimento, tipos de contracção muscular (concêntrica, excêntrica e isométrica), isto só para citar algumas variáveis críticas.

d) A utilização de máquinas que restringem a amplitude de movimento em articulações específicas não só retardam a aprendizagem motora necessária para um rendimento máximo, como também podem criar padrões de movimento prejudiciais para a performance e para a prevenção de lesões.

Resumindo, o trabalho com máquinas limita o movimento, a acção e recrutamento natural de vários músculos, impedindo uma correlação positiva para a maioria das actividades diárias e desportivas.

Conceito de Função

Nós queremos desenvolver um tipo de força corporal que possa ser aplicado em ambientes instáveis, tal como acontece na vida real. Esta força é desenvolvida através de padrões de movimento complexos e não através de exercícios ensaiados e repetidos sistematicamente, num ambiente que nunca muda. Portanto, neste contexto, o conceito de Função deve ser entendido como a capacidade de adaptação de um indivíduo a estímulos internos e externos, com a finalidade de obter o máximo rendimento para as actividades diárias e/ou para o desporto que pratica.

Não podemos planear programas de treino eficazes se não soubermos os objetivos dos nossos clientes. Este é o princípio de tudo para que possamos desenhar um mapa que vá de encontro àquilo que eles pretendem. As pessoas querem resultados e querem comprovar esses resultados. Aliás, só faz sentido prescrever exercícios no treino que tenham uma aplicação prática e objetiva no mundo real. Ninguém vai ao ginásio com a finalidade de melhorar a sua performance no ginásio, mas sim porque querem aumentar a força, a resistência, melhorar a composição corporal, preparar-se para uma competição, etc. Normalmente, existe sempre um objetivo mais profundo, como melhorar o estilo de vida, ter mais saúde e melhorar a aparência. No caso dos desportistas o objetivo é render mais no terreno de jogo.

Por estes motivos, é fundamental compreender a finalidade dos exercícios e não olhar apenas para a superfície, isto é, julgar os mesmos por aquilo que parecem. É preciso ir ao fundo da questão e analisar os resultados produzidos.

Na parte 3, continuarei a explorar este tema e veremos como as máquinas podem também ter o seu papel num programa de treino funcional.

Até breve!

Pedro Correia

Referências

Cook, G., Movement (2010).

McGIll, S., Ultimate Back Fitness and Performance, Fourth Edition (2009).


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