Treino Funcional. O que é exactamente? – Parte 3

“Padrões de movimento são combinações intencionais de segmentos estáveis e móveis que trabalham em coordenada harmonia para produzir sequências de movimento eficientes e eficazes.”

Gray Cook 

Nas partes 1 e 2 desta série fizemos algumas considerações em relação ao conceito de treino funcional / função, no sentido de ajudar a entender o que é funcional e o que não é funcional, dando alguns exemplos práticos e explicando as razões pelas quais as típicas máquinas, no contexto do exercício físico, estão sobrevalorizadas.

A funcionalidade como um continuum. 

As máquinas, na sua essência, são auto-limitativas porque não promovem o trabalho através de padrões de movimento, no entanto, também é verdade que as máquinas podem ser particularmente funcionais para os culturistas ou qualquer outra pessoa que pretenda maximizar a hipertrofia (aumento da massa muscular) ou até para indíviduos descondicionados e/ou em processo de reabilitação. Tudo depende do ponto de partida de cada um e dos seus objetivos.

O que precisamos de entender é que as máquinas podem de facto ser funcionais para uma determinada população, designadamente nos casos citados acima, mas podem ser altamente disfuncionais, para a maior parte da população que frequenta os ginásios hoje em dia.

Como tal, devemos compreender o treino funcional como um continuum, no qual é preciso considerar as capacidades físicas de cada pessoa, os seus hábitos / rotinas diárias, as suas limitações estruturais e os seus objetivos para poder planear um programa de treino com exercícios que promovam uma adaptação às suas reais necesidades.

Por exemplo, muita gente considera que o agachamento é um “exercício funcional” e que o exercício na Leg Press – para continuarmos com o exemplo do último artigo -, é um exercício “nao funcional”, certo? Mas não acham que a Leg Press poderia ser um exercício funcional para um indivíduo com 75 anos, descondicionado, que precisa de desenvolver alguma tolerância muscular nos seus quadriceps e isquiotibiais (posteriores da coxa) antes de fazer exercícios com o peso do próprio corpo? Eu acho que pode! Em casos deste género ou em casos de reabilitação, esta pode ser uma boa solução já que podemos trabalhar o padrão de tripla flexão / extensão do calcanhar, joelho e anca usando uma fracção do peso corporal. E porquê que isso é importante? Para o simples acto de andar.

Não podemos separar o que é funcional e o que não é funcional olhando apenas para a superfície do exercício, cada caso tem as suas particulares implicações.

Movimento, em primeiro lugar. 

O verdadeiro problema é que não existe um método standardizado para avaliar a qualidade do movimento de cada pessoa. Estamos mais preocupados com a quantidade do movimento (número de flexões, agachamentos, elevações, tempo a percorrer uma determinada distância, tempo a aguentar uma prancha, etc.) do que com a qualidade do movimento. Assumimos, erradamente, que se os indivíduos têm força e flexibilidade adequadas, vão ter padrões de movimento normais. E o que é mais incrível é que na maioria dos ginásios (para não dizer que são todos) ninguém se preocupa com isso. Quantos ginásios fazem uma avaliação séria e profissional hoje em dia? Nos dois últimos que frequentei, no primeiro preenchei o questionário típico e fizeram-me 3 ou 4 perguntas, no segundo o importante era saber qual a minha preferência em relação ao pagamento da quota, se queria pagar mensal ou trimestralmente.

Há uns anos atrás, Gray Cook, apresentou-nos a Functional Movement Screen (Avaliação Funcional do Movimento), com a finalidade de introduzir um procedimento standardizado para medir a qualidade do movimento e reduzir o risco de lesão. Este sistema –  FUNDAMENTAL para ajudar os profissionais da indústria (personal trainers, preparadores físicos, professores de Educação Fisica, fisioterapeutas, etc.) na compreensão de uma sistemática até agora inexistente -, consiste em medir a qualidade dos movimentos fundamentais de cada indivíduo e identificar as suas principais limitações / desequílibrios no que respeita aos índices de estabilidade, mobilidade e controle motor.

Através desta ferramenta, Gray Cook, quando testou várias equipas profissionais e corporações de bombeiros nos EUA, conseguiu estabelecer uma relação directa entre aquelas pessoas / atletas com padrões de movimento deficientes / assimetrias corporais e aqueles(as) que contrairam mais lesões. Ou seja, os indivíduos com um mau resultado nesta avaliação, tiveram mais lesões do que aqueles que obtiveram bons resultados.

A figura abaixo representa a Pirâmide Óptima do Rendimento. Esta pirâmide tem uma base que se chama Functional Movement (Movimento Funcional), seguida de um rectângulo um pouco mais pequeno no meio – Performance – e de um rectângulo ainda mais pequeno, no topo – Skill (Habilidade).

O primeiro rectângulo, na base, indica que um indivíduo tem uma base de movimento funcional apropriada e tem a capacidade para explorar uma amplitude de movimento máxima, demonstrando controle corporal e percepção do movimento em várias posições. Como medir? Através da Functional Movement Screen! Se trabalham nesta área não percam mais tempo e vão já pesquisar sobre isto. É mesmo muito importante!

O segundo rectângulo diz-nos que o indíviduo tem a capacidade de gerar potência através de um movimento altamente coordenado / eficiente entre os seus segmentos do corpo e sem desperdícios de energia. Aqui ficamos a saber que, com o devido tempo e prática, o indíviduo tem o potencial para apender outros movimentos mais específicos. Como medir? Através de testes gerais para medir a velocidade, força, aceleração, potência, agilidade, resistência, etc.

Finalmente, o último rectângulo demonstra que o indíviduo tem condições óptimas para o treino e desenvolvimento de habilidades específicas. Como medir? Através de testes específicos para as diferentes modalidades e através de estatísticas.

Esta pirâmide dá-nos uma ideia generalizada da forma como deveria ser construido um programa de rendimento ideal. Todos os profissionais de educação física e das ciências do desporto sabem disto na teoria (ou pelo menos deviam saber) mas a verdade é que a sua implementação não tem sido a melhor.

Nota: É preciso ter em conta que esta pirâmide está enfocada no movimento propriamente dito. Se queremos falar de um rendimento desportivo máximo temos que acrescentar as partes relativas à nutrição, estratégia, táctica, preparação mental e regeneração.

A necessidade de construir uma base. 

Ao começar com exercícios enfocados na mobilidade, estabilidade, controle motor e em padrões de movimento completos, poderemos construir uma plataforma sólida para trabalhar as qualidades físicas básicas (força, velocidade, resistência, agilidade, potência) e as habilidades específicas de cada modalidade e/ou actividade.

A meu ver existem duas opções:

1. Podemos ter uma base de movimento medíocre e ainda assim conseguir render na competição, com algumas lesões pelo meio. Podemos ter uma base de movimento pouco eficiente e ainda assim queimar gordura. Podemos ter uma base de movimento muito desequilibrada e ainda assim ter uns abdominais bem marcados para exibir na praia.

2. Podemos ter uma base de movimento adequada para viver e envelhecer com mais saúde. Podemos ter uma base de movimento sólida para aumentar a longevidade enquanto desportista. Podemos ter uma base de movimento estável para diminuir a incidência de lesões músculo-esqueléticas causadas pelos micro traumas dos agachamentos mal feitos e dos abdominais mal feitos.

Eu não sei o que pensam, mas parece-me que a segunda opção oferece-me mais garantias e é muito mais sustentável. E sim, podemos ter o six pack na mesma!

A vida sedentária ao longo dos tempos tempo fez-nos esquecer a importância do exercício físico em todos os aspectos das nossas vidas. Quando caminhamos. Quando queremos levantar algo do chão. Quando escorregamos e precisamos de reagir rapidamente. Quando nos agachamos. Quando precisamos de colocar a mala no porão dos aviões. Quando temos que colocar coisas naquela prateleira de cima. Quando carregamos o nosso filho ao colo. Quando temos que correr para não perder o metro ou o autocarro. Quando carregamos as compras do supermercado. Etc, etc, etc.

Os seres humanos foram feitos para o movimento!

Chegamos ao cúmulo de construir máquinas para que as pessoas pudessem fazer exercício de forma mais confortável com almofadas nas costas. Dividimos o corpo em partes para trabalhar músculos de forma isolada. As pessoas passam horas e horas nas passadeiras, elípticas mas não têm noção dos benefícios relativos dessas actividades. Vemos pessoas a correr na rua que nem são capazes de se equilibrar numa perna. Vemos pessoas obesas em cima de bosus a jogar a bola para o treinador. Vemos miúdos todos tortos que jogam futebol que nem são capazes de fazer agachamentos ou skipping. Toda a gente conhece a afirmação que o todo é maior que a soma das partes, mas não se tem olhado para o todo! Temos a tendência natural para separar, compartimentalizar, desintegrar as coisas, pensando, erradamente, que o todo vai melhorar por si mesmo. A Medicina convencional tem sido, sem dúvida, o exemplo mais flagrante de desintegração do corpo humano. Pelos vistos alguns médicos já perceberam isso e já se vai falando em Medicina Funcional…

O movimento influencia a forma como sobrevivemos, comunicamos, jogamos e nos desenvolvemos. Não acham que é importante saber um bocadinho mais sobre isto?

Até breve!

Pedro Correia

Referências

Cook, G. Movement (2010).

7 thoughts on “Treino Funcional. O que é exactamente? – Parte 3

  1. Felicito pela discussão deste tema é sem duvida interessante, mas tudo tem um processo e um caminho a seguir. O erros fazem parte desse caminho. Sou totalmente de acordo com a funcionalidade do exercício e que deveria ser um ponto primordial no exercício, mas temos que pensar que na sociedade (Portugal) o exercício é quase um “admirável mundo novo” para a maioria dos praticantes.
    Concordo em pleno que os profissionais ligados ao exercício que não se restringe a quem ensine, mas também a quem recomenda o faça com maior informação e consciência sobre os benefícios e também dos malefícios do exercícios quando executados de forma menos correcta.

    Uma vez mais felicitações e continuação de um excelente trabalho

  2. Pingback: Estudo científico e o Crossfit | Crossfit Lady

  3. Pingback: Estudo científico e o Crossfit - Crossfit Lady | Crossfit Lady

  4. Pingback: CROSSFIT, MOCINHO OU VILÃO? | Kero Kit

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s