As verdades sobre a Prevenção do Cancro – Parte 3

“80% dos cancros podem ser influenciados por factores externos, como o estilo de vida e ambiente”

Relatório Agência Internacional para Investigação do Cancro

Na última parte ficamos a conhecer alguns dos mecanismos que podem desencadear o cancro e o papel que o nosso estilo de vida pode ter na sua prevenção. Hoje vamos tentar compreender em primeiro lugar como é que o cancro se tornou uma epidemia e, em seguida, como podemos actuar para evitar o seu aparecimento.

A Epidemia de Cancro

Desde 1940, o número de cancros aumentou em todos os países industrializados e esta tendência é particularmente notável nos jovens. Nos Estados Unidos, entre 1975 e 1994, a taxa de cancro em mulheres com menos de 45 anos aumentou 1,6% por ano, e ainda mais nos homens (1,8%). Em alguns países europeus, como é o caso da França, a taxa de cancro aumentou 60% nos últimos 20 anos.

O cancro não pode ser apenas explicado pelo aumento da esperança de vida da população. A Organização Mundial de Saúde chamou a atenção para o facto, em 2004: os cancros em crianças e adolescentes estão entre os que mais aumentaram desde 1970.

Nos países ocidentais, a incidência de cancros da próstata subiu ainda mais rapidamente do que a do cancro da mama. Aumentou 200% em vários países europeus, entre 1978 e 2000, e 258% nos Estados Unidos, durante o mesmo período. Isto significa que o argumento relativo ao rastreio precoce não está a resolver o problema.

Por exemplo, um importante estudo publicado na revista Science demonstrou que o risco de desenvolver cancro da mama antes dos 50 anos, em mulheres portadoras de genes de alto risco (como o BRCA 1 ou BRCA 2), praticamente triplicou para as nascidas após a Segunda Guerra Mundial.

Antes de todo o processo de industrialização dos alimentos, era muito raro encontrar um jovem com cancro. Hoje em dia, infelizmente, começa a ser mais habitual.

Então, o que mudou?

Ao longo dos últimos 50 anos, três factores principais perturbaram drasticamente o ambiente em que vivemos:

1. A adição à nossa alimentação de grande quantidades de açúcar refinado.

2. Alterações nos processos agrícolas e pecuários, e consequentemente na nossa alimentação.

3. A exposição a um grande número de produtos químicos que não existiam antes de 1940.

A alimentação dos nossos antepassados caçadores-recolectores consistia em muitos vegetais, fruta e, ocasionalmente, carne ou ovos de animais selvagens, proporcionando um equilibrio entre os ácidos gordos essenciais (ómega 3 e ómega 6), muito poucos açúcares (a única fonte açúcar era o mel em períodos sazonais) e nada de farinhas.

Hoje em dia, as sondagens ocidentais sobre nutrição revelam que 56% das calorias que ingerimos provêm de três fontes que não existiam aquando do desenvolvimento dos nossos genes:

. açúcares refinados (acúcar de cana e de beterraba, xarope de milho, frutose etc.)

. farinha refinada (pão, massa, arroz)

. óleos vegetais (soja, girassol, milho e gordura trans)

Estas três fontes não contêm quaisquer minerais, proteínas, vitaminas ou ácidos gordos ómega-3 necessários ao funcionamento do nosso corpo e, por outro lado, alimentam directamente o desenvolvimento do cancro. 

O cancro alimenta-se de açúcar

Enquanto os nossos genes se desenvolveram num meio em que uma pessoa consumia, no máximo, 2kg de mel por ano, o consumo humano aumentou para 5 kg em 1830 e para uns impressionantes 70 kg nos finais do século XX.

O fisiologista e bioquímico alemão Otto Heinrich Warburg recebeu o Prémio Nobel de Fisiologia / Medicina (em 1931) pela sua descoberta de que o metabolismo dos tumores malignos estava, em grande medida, dependente do consumo de glucose. Aliás, quando se faz uma PET, exame imagiológico que se faz geralmente para detectar o cancro, se existe evidência que uma área em particular se destaca por consumir demasiado açúcar, é muito provável que a causa seja o cancro.

Quando ingerimos açúcar ou farinha refinada (alimentos com elevado índice glicémico), os níveis de glucose no sangue sobem rapidamente e o organismo liberta uma hormona chamada insulina para permitir que a glucose seja transportada e entre nas células. A secreção de insulina é acompanhada pela libertação de uma outra molécula chamada IGF (factor de crescimento insulínico) ou somatomedina C, cujo papel consiste em estimular o desenvolvimento das células. Ou seja, o açúcar alimenta os tecidos e fá-los crescer mais depressa.

Além disso, a insulina e a IGF têm outros efeitos em comum como a estimulação de factores inflamatórios (vimos isto na parte 2) que, por sua vez, funcionam como fertilizantes para os tumores. Portanto, hoje sabemos que os picos de insulina e a secreção de IGF estimulam directamente não só o desenvolvimento das células cancerosas, como também a sua capacidade de invadir os tecidos circundantes.

Em suma, o consumo actual de açúcar e farinha, não parece ser muito boa ideia!

Vários estudos foram efectuados neste âmbito e todos apontam na mesma direcção: quem quiser proteger-se do cancro deve reduzir radicalmente o consumo de açúcar e farinhas refinadas.

Para saber mais sobre os estudos:

1. Num estudo americano-canadiano, na Faculdade de Medicina de Harvard, a Dra. Susan Hankinson, demonstrou que um grupo de mulheres com menos de 50 anos, aquelas com um nível elevado de IGF tinham sete vezes mais probabilidade de desenvolver cancro da mama do que as que tinham um nível mais baixo.

2. Outra equipa, constituída por investigadores de Harvard e da Universidade da Califórnia, em São Francisco (EUA), e de McGill, no Canadá, demonstrou que o risco dos homens contrairem cancro da próstata, era nove vezes maior para aqueles com níveis mais elevados de IGF.

3. Em 2009, o estudo Women’s Health Initiative, que abrangeu cerca de 100.000 mulheres pós-menopáusicas nos EUA, concluiu que o factor de risco para o cancro da mama não era a obesidade em si, mas sim os elevados níveis de insulina que tendem a estar associados ao excesso de peso. O risco de cancro nas mulheres com níveis de insulina mais altos era duas vezes maior que naqueles com níveis de insulina mais baixos.

Há soluções?

Em primeiro lugar, a solução passa por evitar ao máximo o consumo de alimentos de elevado índice e carga glicémica, já que estes vão aumentar os nossos níveis de insulina e estimular o densenvolvimento de cancro. Exemplos: açúcar (qualquer tipo); farinhas brancas / refinadas como o pão, arroz, massa (quanto mais cozida pior); bolos e bolachas; croissants; batatas; cereais; doces e geleias (principalmente entre as refeições), refrigerantes; sumos de fruta naturais e industriais, álcool.

Em segundo lugar, fazer outro tipo de escolhas:

Se tem mesmo que comer algo com açúcar, opte pelo açúcar de côco, stevia (é caro mas parece ser o extracto de açúcar natural mais seguro do mercado) ou coma à volta de 20 gramas de chocolate preto por dia com pelo menos 70% de cacau.

Em relação às farinhas, é certamente um pouco melhor comer alimentos (pão, massas, arroz) integrais porque têm menor percentagem de hidratos de carbono e mais teor em fibra, no entanto, o mais seguro é consumir os hidratos de carbono complexos de outras fontes como a quinoa, inhame e batata doce. As farinhas provenientes das amêndoas, avelãs, nozes, côco, aveia, constituem excelentes alternativas para fazer bolos, pão ou até bases para pizza.

A fruta, coma-a no seu estado natural, sobretudo frutos silvestres (de producção biológica) – mirtilos, morangos, framboesas, amoras, já que estes frutos são ricos em anti-oxidantes e ajudam a regular os níveis de açúcar no sangue. Se consumimos a fruta em sumo, perdemos as suas propiedades mais importantes, como a fibra e vitamina e ficamos com aquilo que resta, que é o açúcar da fruta (frutose).

Em relação às bebidas, o único que devia beber era água da torneira (a água engarrafada está contaminada pelas substâncias tóxicas libertadas pelo plástico – xenoestrógenos) e chá verde (sem açúcar, claro), já que este combate directamente o cancro.

Nota Final

Existem muitos mais alimentos que podemos consumir para mantermos o nosso corpo num estado anti-cancro e nesta parte afloramos apenas alguns. Vamos continuar a explorar e a aprofundar este tema no futuro já que me parece ser do interesse comum que este tipo de informação seja conhecida por todos nós.

Se acharam este post útil, ajudem a partilhar.

Até breve!

Pedro Correia

Referências

David Servan-Schreiber (2012). Anti Cancro, uma nova maneira de viver.

Anúncios

Documentário Food Inc. – Sabemos o que comemos?

Food Inc é um documentário de 2008 que retrata o funcionamento da indústria alimentar nos EUA e todos os processos que são ocultados ao consumidor, com o consentimento das estruturas governamentais e das agências reguladoras.

Para quem não teve oportunidade de ver este documentário, recomendo vivamente que o faça. É preciso estarmos conscientes daquilo metemos à boca cada vez que comemos.

Algumas notas para pensar / reflectir:

1) Hoje em dia existem frutas e verduras disponíveis o ano todo nos supermercados. Vivam os fertilizantes e conservantes!

2) Antes, no tempo dos nossos pais/avós, a comida vinha dos campos de agricultura, hoje em dia a comida vem das fábricas.

3) Em 1950 um frango demorava cerca de 70 dias a crescer, hoje em dia demora menos de 50 dias e tem o dobro ou o triplo do tamanho. Nao há produção de galinhas, há produção em massa. Viva a hormona do crescimento! Além disso, estamos a comer galinhas doentes graças às condições deploráveis em que são criadas.

4) Todos os animais estão a comer milho. Até os peixes! Estamos a ensinar os peixes a comer milho. Por isso baixam-se os preços, o milho é a principal matéria prima dos alimentos.

5) As vacas não estão desenhadas de um ponto de visto evolutivo para comer milho. Deviam comer erva. As vacas comem milho para engordar. Os estudos indicam que uma dieta rica em milho resulta na formação de uma bactéria chamada E. Coli, que pode evoluir para uma variedade chamada E. Coli 1057:h7, podendo causar a morte em poucos dias.

6) Quando chegam aos matadouros, as peles das vacas estão cheias de estrume, portanto, se os matadouros estão a cortar 400 vacas por hora, como podemos evitar que esses excrementos não se peguem à carne?

7) Perante o perigo das bactérias que põem em causa a nossa saúde, a indústria alimentar tratou de matar as bactérias com amoníaco quando a comida é processada. É como se quisesse resolver as minhas dores nas costas com anti-inflamatórios. Trata-se o síntoma mas não se trata a causa. É mais ou menos aquilo que acontece quando vamos ao médico.

8) Os alimentos mais baratos são aqueles que são subsidiados pelo Governo.

9) Hoje em dia podemos comer hamburgeres no McDonald’s por um euro. Yummy!

10) O sal, as gorduras hidrogenadas e o açúcar são coisas raras na Natureza e hoje em dia podemos encontrá-las em todo o lado.

Gostaria de ouvir os vossos comentários.

Nota do Pedro: Para ativar as legendas, precisam da ativá-las no canto inferior direito.

Fiquem bem.

Pedro Correia

As verdades sobre a Prevenção do Cancro – Parte 2

Na parte 1, vimos que os genes têm uma influência muito relativa no desenvolvimento do cancro e que é basicamente o estilo de vida que levamos que vai determinar o aparecimento deste tipo de doença. Nesta parte vamos aprofundar um pouco mais para tentar perceber os mecanismos que desencadeiam o cancro.

As células cancerosas S180 e o rato resistente ao cancro

De todas as linhagens de células cancerosas que os cientistas utilizam, as mais virulentas são as células S180 (sarcoma 180). Estas células, utilizadas em todo o mundo para estudar o cancro, segregam grandes quantidades de substâncias tóxicas (citoquinas) que destroem as membranas celulares com que entram em contacto. Inoculadas num rato, as células S180 reproduzem-se a tal velocidade que a massa tumoral duplica a cada 10 horas, invandindo os tecidos circundantes e destruindo tudo o que encontram pelo caminho.

Numa experiência realizada na Wake Forest University na Carolina do Norte, a professora Liya Qin, inoculou 200 mil células S180 num grupo de ratos (a dose habitual para este tipo de procedimento) mas houve um deles que resistiu à inoculação. Perante este resultado, a cientista repetiu a dose, duplicou a dose e, por fim, inoculou 10 vezes mais células (2 milhões de células S180). Para sua surpresa, continuava a não haver sinais de cancro. O orientador da investigação, Zheng Cui, começou a desconfiar da competência da sua asistente e decidiu ser ele próprio a administrar a injecção. Duas semanas depois, nada! Aumentou a dose para 200 milhões de células – mil vezes mais que a dose habitual – mas não se registaram alterações. Foi a primeira vez que isto aconteceu, nenhum rato tinha sobrevivido mais de dois meses após lhe terem sido inoculadas células S180. Este rato já ia no seu oitavo mês apesar das doses astronómicas de células cancerígenas que levou!

Zheng Cui começou a suspeitar de que tinham encontrado um rato naturalmente resistente ao cancro mas não conseguia perceber como é que isso era possível. A verdade é que ao longo do século passado, a literatura médica e científica relatou alguns casos extremamente raros de pacientes cujo cancro, considerado em fase terminal, tinha regredido repentinamente, acabando eventualmente por desaparecer. Nos últimos dez anos, descobriram-se alguns mecanismos para prevenir o cancro e o Super Rato da experiência realizada pelo professor Zheng Cui ajudou a esclarecer o primeiro: o poder do sistema imunitário quando totalmente mobilizado.

Ao examinar ao miscroscópico amostras de células S180 recolhidas nos descendentes deste rato que tinham herdado a sua resistência, Mark S. Miller, um colega de Zheng Cui especialista no desenvolvimento destas células, descobriu um verdadeiro campo de batalha. Em vez das típicas células cancerosas – redondas, vilosas e agressivas – deparou com células lisas, denteadas e cheias de buracos. Estavam em pleno combate, lado a lado com leucócitos do sistema imunitário, incluindo as famosas “células destruidoras naturais” ou células NK. Graças ao seu sistema imunitário, os ratos tinham montado uma poderosa linha de defesa, mesmo depois de o cancro estar instalado!

As células anticancerígenas NK

As células destruidoras naturais (NK) são agentes muito especiais do sistema imunitário. Tal como todos os leucócitos, patrulham continuamente o organismo em busca de bactérias, vírus ou novas células cancerosas. Mas enquanto outras células do sistema imunitário necessitam de uma exposição prévia aos agentes patogénicos para os reconhecer e os combater, as células NK não precisam de contacto prévio com um antigénio para actuar. Mal detectam um inimigo, aglomeram-se à volta dele e atacam!

Para os mais exigentes que querem saber como isto funciona esta é a explicação. Para aqueles que não querem saber disto podem saltar esta parte.

“Em contacto com a superficie da célula cancerosa, as vesículas libertam as armas químicas das células NK – perforinas e granzimas – que penetram através da membrana. As moléculas de perforina transformam-se em pequenos anéis. Juntam-se em forma de tubo, criando uma passagem para as granzimas através da membrana da célula cancerosa. Ao atingirem o núcleo da célula cancerosa, as granzimas activam os mecanismos de autodestruição programada. É como se dessem uma ordem à célula cancerosa para se suicidar, à qual tem obrigatoriamente que obedecer. Em resposta a essa ordem, dá-se uma fragmentação do núcleo, o que leva à detruição da célula cancerosa. Os fragmentos da célula ficam então prontos a ser digeridos pelos macrófagos, que são os colectores de lixo do sistema imunitário e que acompanham sempre as células NK. “

Tal como as células imunitárias dos ratos resistentes do Professor Zheng Cui, as células humanas NK também são capazes de destruir diferentes tipos de células cancerosas, em particular no sarcoma, cancro da mama, da próstata, do pulmão e do cólon.

Alguns Factos

Um estudo de 1993, abrangendo 77 mulheres com cancro da mama durante um período de 12 anos, desmonstrou a importância que estas células podem ter na recuperação. Primeiro, foram retiradas amostras do tumor de cada mulher na altura do diagnóstico e cultivadas com as suas próprias células NK. As células NK de algumas pacientes não reagiram, como se a sua vitalidade natural tivesse sido misteriosamente enfraquecida. Em contrapartida, as NK das outras pacientes procederam a uma limpeza total, indicando um sistema imunitátio activo. Passados 12 anos, quase metade (47%) das pacientes cujas células NK não tinham reagido no laboratório haviam falecido. Por outro lado, 95% das pacientes cujo sistema imunitário se revelara activo ao microscópico continuavam vivas. Em suma, quanto menos activas as células NK e outros leucócitos se revelavam, mais rapidamente o cancro progredia e mais se alastrava pelo organismo sob a forma de metástases, diminuindo as hipóteses de sobrevivência.

Um estudo publicado em 2007 na revista Nature debruçou-se sobre o potencial imunitário de ratos perfeitamente vulgares. Catherine Koebel e a a sua equipa na Washington University de Saint Louis, injectaram alguns destes ratos com metilcolantreno (MCA), um alcatrão ainda mais cancerígeno que o do fumo do tabaco. Como era de esperar, uma parte dos ratos rapidamente desenvolveram tumores mortais e, surpreendentemente, os ratos sobreviventes não apresentavam nenhum tumor. Os investigadores descobriram que estes ratos saudáveis, eram portadores de células cancerosas, mas que estas estavam adormecidas pelo seu sistema imunitário. Os resultados obtidos sugerem que o cancro apenas surge se as células cancerosas encontrarem terreno fértil para proliferar. Isto é, um sistema imunitário enfraquecido permite que as células cancerosas possam desenvolver-se. 

A inflamação, o assassino silencioso

O National Cancer Institute publicou um relatório realçando a importância da investigação sobre a inflamação, tão frequentemente ignorada pelos oncologistas. O relatório descreve detalhadamente os processos que o cancro utiliza para multiplicar-se. Tal como as células imunitárias se preparam para reparar lesões, as células cancerosas precisam de produzir inflamação para sustentar o seu crescimento.

A força motriz que está por detrás de um tumor é, em larga medida, o círculo vicioso que as células cancerosas conseguem criar. Ao encorajar as células imunitárias a produzir inflamação, o tumor convence o organismo a produzir o combustível de que necessita para se desenvolver e invadir os tecidos circundantes.

Desde os anos 90 que os oncologistas do Glasgow Hospital, na Escócia, têm vindo a medir os níveis de inflamação no sangue de pacientes com vários tipos de cancro. Os resultados têm demonstrado que os pacientes com menor grau de inflamação têm o dobro das probabilidades de sobreviver. A medição destes marcadores é relativamente simples e faz-se através de umas análises ao sangue, para medir os níveis de proteína C-reactiva (PCR) e albumina:

Risco mínimo = PCR < 10 mg/l e Albumina > 35 g/l

Risco médio = PCR > 10 mg/l ou Albumina < 35 g/l

Risco elevado = PCR > 10mg/l e Albumina < 35 g/l

A descoberta do papel crucial que a inflamação desempenha na progressão do cancro é relativamente recente e esta é uma das razões pelas quais não recebemos conselhos de como evitar a inflamação para a prevenção e tratamento do cancro. A inflamação varia em função do estilo de vida que levamos, daquilo que comemos, do ambiente a que estamos expostos e dos medicamentos que tomamos.

Factor NFkB, o cavaleiro negro do cancro

O crescimento e o alastramento das células cancerosas dependem em grande parte de um único factor pró-inflamatório segregado pelas células tumorais. Este factor é denominado NF-kB (Factor Nuclear kappa-B), e o bloqueio da sua produção torna a maioria das células cancerosas novamente “mortais” e impede-as de criar metástases. A importância do seu papel está tão bem identificada que o Professor Albert Baldwin, da Universidade da Carolina do Norte, conclui na revista Science que “quase todos os agentes anticancerígenos são inibidores do NF-kB”. O mesmo artigo salienta ainda, com alguma ironia, que toda a indústria farmacêutica anda à procura de medicamentos inibidores do NF-kB, enquanto as moléculas conhecidas por actuarem contra ele já estão disponíveis, no chá verde (catequinas) e no vinho tinto (resveratrol), por exemplo.

A angiogénese como fonte de disseminação do cancro

Para sobreviverem, os tumores têm de estar profundamente impregnados de vasos capilares. Como os tumores se desenvolvem muito rapidamente, é necessária a formação rápida de novos vasos sanguíneos. A este processo dá-se o nome de angiogénese (do grego: angio – vaso e génesis – criação). A angiogénese é um fenómeno normal que ocorre durante o desenvolvimento embrionário, o crescimento do organismo e na cicatrização de feridas. No entanto, pode também ser um fenómeno mortífero na disseminação de tumores malignos, facilitando o transporte de oxigénio e nutrientes para o cancro propagar-se.

O seguinte vídeo ilustra muito bem o que podemos fazer para impedir o desenvolvimento do cancro e mostra que os genes têm uma influência de apenas 5-10% na prevenção deste tipo de doença. Os restantes factores provêem do ambiente em que vivemos, sendo que a dieta é o factor mais importante a ter em conta.

Podemos constatar que existem vários alimentos antiangiogénicos (inibem a angiogénese) naturais e mais “saudáveis” que a quimioterapia e radioterapia que impedem o desenvolvimento do cancro. Portanto, a chave de tudo isto consiste em saber quais são esses alimentos para que possamos incorporar na nossa dieta com maior frequência e, desta forma, prevenir uma das doenças que mais tem crescido nos últimos anos e que todos nós tivemos ou teremos que lidar, directa ou indirectamente, através de um amigo, familiar ou companheiro(a).

Conclusão

Através de uma alimentação cuidada e  de um estilo de vida saudável (com exercício físico), temos a capacidade para estimular as nossas células imunitárias, combater a inflamação e actuar sobre a angiogénese, cortando o mal pela raíz no que diz respeito à disseminação do cancro.

Na próxima parte vamos ver os alimentos a evitar e os alimentos a consumir para manter o nosso sistema imunitário em alerta máximo e em estado anti-cancro.

Até breve!

Pedro Correia

Referências

David Servan-Schreiber (2012). Anti Cancro, uma nova maneira de viver.

As verdades sobre a Prevenção do Cancro – Parte 1

Todos nós temos um potencial cancro dentro de nós. Chamam-se microtumores. À semelhança de todos os seres vivos, o nosso organismo produz constantemente células defeituosas que, se não forem detectadas e controladas, vão evoluir para tumores.

Felizmente, o nosso sistema imunitário – se devidamente mobilizado – pode ajudar a travar e a prevenir o desenvolvimento deste tipo de doença. Apenas com a mudança de alguns hábitos no nosso estilo de vida (melhor alimentação e melhor exercício físico – disse melhor, não necessariamente mais), é possível prevenir o cancro e grande parte das doenças. Muita gente não acredita e não é consciente da verdadeira importância do nosso estilo de vida na prevenção ou no desenvolvimento de doenças como o cancro.

Eu tive um cancro há alguns anos atrás (duas vezes!) e se soubesse aquilo que sei hoje, de certeza que me teria tratado melhor naquilo que depende de mim. Refiro-me, por exemplo, à alimentação. Todos nós podemos melhorar a nossa alimentação. Na comida podemos encontrar moléculas que “falam” com os nossos genes pelo que tudo aquilo que metemos na boca vai influenciar o nosso DNA.

Por exemplo, se comemos mais de 500 calorias por dia de junk food (entenda-se comida não nutritiva ou em linguagem prosaica: lixo), isso representa 182.500 calorias num ano, o que pode significar um aumento de mais de 20 quilos num ano.

A decisão mais poderosa que tomamos todos os dias é escolher o que metemos na boca. A alimentação deve ser vista como o nosso bem mais precioso e aquele em que mais temos que investir, quer em termos de tempo, quer em termos financeiros. Sim, vai custar mais dinheiro e é capaz de dar mais trabalho, mas se não começarmos a comer melhor ou a pensar desta forma, vamos pagar o preço mais tarde ou mais cedo com doenças, medicamentos, consultas, cirurgias, etc. É verdade que nem todos têm escolha mas acredito que a maioria daqueles que estão a ler isto, terão.

O seguinte filme Food Matters é OBRIGATÓRIO e podem encontrá-lo aqui gratuito e dividido em várias partes. Se não puderem ver agora, tomem nota e vejam assim que possível. A mensagem que aqui passa é fundamental para perceber que existem formas muito simples de melhorar a nossa qualidade de vida e a dos nossos amigos, sem recorrer às famigeradas drogas.

Alguns Estudos – Genes vs. Estilo de Vida

Muita gente está convencida de que o desenvolvimento de cancro está principalmente ligado à nossa composição genética e não ao nosso estilo de vida. Na Dinamarca, onde existe um registo genético pormenorizado das origens de cada um, os investigadores descobriram os pais biológicos de mais de mil crianças adoptadas à nascença. A conclusão a que chegaram, publicada no prestigiado New England Journal of Medicine, obriga-nos a alterar todas as nossas suposições em relação ao cancro. Descobriram que os genes de pais biológicos que morreram de cancro antes dos 50 anos não tinham qualquer influência no risco de um filho adoptado desenvolver a doença. Por outro lado, a morte por cancro antes dos 50 anos de um pai adoptivo (que transmite hábitos, não genes) aumentava cinco vezes a taxa de mortalidade por cancro nos filhos adoptivos. Este estudo mostra que o estilo de vida tem uma influência fundamental na vulnerabilidade ao cancro mas todas as investigações são unânimes: os factores genéticos contribuem, no máximo, em 15% das mortes por cancro.

Em 2005, o Dr. Dean Ornish, publicou os resultados de um estudo oncológico sem precedentes. Noventa e três homens com cancro da próstata em fase inicial, optaram, sob a supervisão do seu oncologista, por não serem operados, mas manter o tumor sob controlo. Para isto, mediu-se o nível de PSA no sangue (um antigénio específico da próstata e que é estimulado pelo tumor) a intervalos regulares. Um aumento de PSA indica que as células cancerosas estão a multiplicar-se e que o tumor está a crescer.

Ao recusarem qualquer tipo de tratamento médico convencional durante este período de observação, estes homens tornaram possível a avaliação das vantagens das abordagens naturais. Foram formados dois grupos de pacientes. O grupo de controlo manteve-se apenas com observação, com medições regulares de PSA. Para o outro grupo, criou-se um programa completo de saúde física e mental, ou seja, durante um ano estes homens seguiram uma dieta vegetariana com suplementos (vitaminas antioxidantes E e C, selénio e 1 grama de ómega-3 por dia), praticaram exercício físico (30 minutos de caminhadas, 6 dias por semana), gestão de stress (ioga, exercícios respiratórios, relaxação) e reuniram-se uma hora por semana com um grupo de apoio e com outros pacientes inseridos no mesmo programa.

Dos 49 pacientes que nada tinham alterado no seu estilo de vida e que haviam apenas confiado num controlo regular da doença, 6 assistiram ao agravamento da doença e tiveram de ser submetidos à ablação (extração) da próstata, seguida de quimioterapia e radioterapia. Em contrapartida, nenhum dos 41 pacientes que haviam seguido o programa de saúde física e mental foi obrigado a recorrer a estes tratamentos. No primeiro grupo, o nível de PSA aumentou em média 6% (sem incluir aqueles que tiveram de desistir devido ao agravamento da doença) e no segundo grupo (os tais que mudaram o estilo de vida), a PSA diminuiu em média 4% indicando uma regressão dos tumores na maioria dos pacientes.

Contudo, o mais impressionante foi aquilo que aconteceu no organismo dos homens que mudaram de estilo de vida. O seu sangue era sete vezes mais capaz de inibir o crescimento de células cancerosas do que o sangue dos homens do primeiro grupo. Ou seja, os homens que mudaram de estilo de vida tornaram o seu sangue mais activo contra as células cancerosas.

Com a finalidade de compreender os mecanismos moleculares que estão na origem destes fenómenos, o Dr. Ornish  decidiu investigar a forma como as alterações de comportamentos influenciavam a expressão dos genes das células prostáticas. Chegou à conclusão que o seu programa modificou mais de 500 genes na próstata estimulando aqueles que têm um efeito preventivo e inibindo aqueles que favorecem o desenvolvimento da doença.

Em 2009, dois grupos de investigação independentes, um no Quebeque e outro na Califórnia, abalaram por completo a nossa compreensão das causas genéticas do cancro da mama e da próstata, e a ideia de que os nossos genes condicionam o risco de vir a morrer de cancro. A equipa da Universidade de Montreal, chefiada pelo Dr. Parviz Ghadirian, estudou as mulheres portadoras dos genes BRCA-1 e BRCA-2 – genes que aterrorizam tantas mulheres, dado que o risco das portadoras virem a desenvolver cancro da mama é 80%. Nas suas investigações descobriu que quanto mais fruta e legumes as mulheres geneticamente “em risco” comiam, menor era o risco de desenvolverem cancro. Nas mulheres que consumiam 27 peças de fruta e legumes diferentes por semana (a variedade era importante), o risco tinha diminuído em 73%.

Na Universidade de São Francisco, a equipa do Professor John Witte fez uma descoberta semelhante para o cancro da próstata. Alguns genes desencadeiam uma sensibilidade extrema à inflamação e estimulam a tranformação de microtumores indolentes da próstata em cancros agressivos e metastáticos. Porém, quando os homens portadores desses genes consumiam peixe rico em ómega-3 pelo menos duas vezes por semana, os seus genes perigosos mantinham-se sob controlo. O risco do cancro vir a tornar-se agressivo era cinco vezes menor do que nos homens que não comiam peixe gordo.

Estas recentes descobertas apoiam a noção de que os “genes do cancro” talvez não sejam tão perigosos se não forem despoletados pelo nosso estilo de vida pouco saudável.

Na parte 2, vamos identificar os pontos fracos e fortes do cancro, os seus mecanismos de desenvolvimento e como podemos actuar para prevenir e até travar esta doença. Fiquem atentos.

Até breve.

Pedro Correia

Referências

David Servan-Schreiber (2012). Anti Cancro, uma nova maneira de viver.