As verdades sobre a Prevenção do Cancro – Parte 2

Na parte 1, vimos que os genes têm uma influência muito relativa no desenvolvimento do cancro e que é basicamente o estilo de vida que levamos que vai determinar o aparecimento deste tipo de doença. Nesta parte vamos aprofundar um pouco mais para tentar perceber os mecanismos que desencadeiam o cancro.

As células cancerosas S180 e o rato resistente ao cancro

De todas as linhagens de células cancerosas que os cientistas utilizam, as mais virulentas são as células S180 (sarcoma 180). Estas células, utilizadas em todo o mundo para estudar o cancro, segregam grandes quantidades de substâncias tóxicas (citoquinas) que destroem as membranas celulares com que entram em contacto. Inoculadas num rato, as células S180 reproduzem-se a tal velocidade que a massa tumoral duplica a cada 10 horas, invandindo os tecidos circundantes e destruindo tudo o que encontram pelo caminho.

Numa experiência realizada na Wake Forest University na Carolina do Norte, a professora Liya Qin, inoculou 200 mil células S180 num grupo de ratos (a dose habitual para este tipo de procedimento) mas houve um deles que resistiu à inoculação. Perante este resultado, a cientista repetiu a dose, duplicou a dose e, por fim, inoculou 10 vezes mais células (2 milhões de células S180). Para sua surpresa, continuava a não haver sinais de cancro. O orientador da investigação, Zheng Cui, começou a desconfiar da competência da sua asistente e decidiu ser ele próprio a administrar a injecção. Duas semanas depois, nada! Aumentou a dose para 200 milhões de células – mil vezes mais que a dose habitual – mas não se registaram alterações. Foi a primeira vez que isto aconteceu, nenhum rato tinha sobrevivido mais de dois meses após lhe terem sido inoculadas células S180. Este rato já ia no seu oitavo mês apesar das doses astronómicas de células cancerígenas que levou!

Zheng Cui começou a suspeitar de que tinham encontrado um rato naturalmente resistente ao cancro mas não conseguia perceber como é que isso era possível. A verdade é que ao longo do século passado, a literatura médica e científica relatou alguns casos extremamente raros de pacientes cujo cancro, considerado em fase terminal, tinha regredido repentinamente, acabando eventualmente por desaparecer. Nos últimos dez anos, descobriram-se alguns mecanismos para prevenir o cancro e o Super Rato da experiência realizada pelo professor Zheng Cui ajudou a esclarecer o primeiro: o poder do sistema imunitário quando totalmente mobilizado.

Ao examinar ao miscroscópico amostras de células S180 recolhidas nos descendentes deste rato que tinham herdado a sua resistência, Mark S. Miller, um colega de Zheng Cui especialista no desenvolvimento destas células, descobriu um verdadeiro campo de batalha. Em vez das típicas células cancerosas – redondas, vilosas e agressivas – deparou com células lisas, denteadas e cheias de buracos. Estavam em pleno combate, lado a lado com leucócitos do sistema imunitário, incluindo as famosas “células destruidoras naturais” ou células NK. Graças ao seu sistema imunitário, os ratos tinham montado uma poderosa linha de defesa, mesmo depois de o cancro estar instalado!

As células anticancerígenas NK

As células destruidoras naturais (NK) são agentes muito especiais do sistema imunitário. Tal como todos os leucócitos, patrulham continuamente o organismo em busca de bactérias, vírus ou novas células cancerosas. Mas enquanto outras células do sistema imunitário necessitam de uma exposição prévia aos agentes patogénicos para os reconhecer e os combater, as células NK não precisam de contacto prévio com um antigénio para actuar. Mal detectam um inimigo, aglomeram-se à volta dele e atacam!

Para os mais exigentes que querem saber como isto funciona esta é a explicação. Para aqueles que não querem saber disto podem saltar esta parte.

“Em contacto com a superficie da célula cancerosa, as vesículas libertam as armas químicas das células NK – perforinas e granzimas – que penetram através da membrana. As moléculas de perforina transformam-se em pequenos anéis. Juntam-se em forma de tubo, criando uma passagem para as granzimas através da membrana da célula cancerosa. Ao atingirem o núcleo da célula cancerosa, as granzimas activam os mecanismos de autodestruição programada. É como se dessem uma ordem à célula cancerosa para se suicidar, à qual tem obrigatoriamente que obedecer. Em resposta a essa ordem, dá-se uma fragmentação do núcleo, o que leva à detruição da célula cancerosa. Os fragmentos da célula ficam então prontos a ser digeridos pelos macrófagos, que são os colectores de lixo do sistema imunitário e que acompanham sempre as células NK. “

Tal como as células imunitárias dos ratos resistentes do Professor Zheng Cui, as células humanas NK também são capazes de destruir diferentes tipos de células cancerosas, em particular no sarcoma, cancro da mama, da próstata, do pulmão e do cólon.

Alguns Factos

Um estudo de 1993, abrangendo 77 mulheres com cancro da mama durante um período de 12 anos, desmonstrou a importância que estas células podem ter na recuperação. Primeiro, foram retiradas amostras do tumor de cada mulher na altura do diagnóstico e cultivadas com as suas próprias células NK. As células NK de algumas pacientes não reagiram, como se a sua vitalidade natural tivesse sido misteriosamente enfraquecida. Em contrapartida, as NK das outras pacientes procederam a uma limpeza total, indicando um sistema imunitátio activo. Passados 12 anos, quase metade (47%) das pacientes cujas células NK não tinham reagido no laboratório haviam falecido. Por outro lado, 95% das pacientes cujo sistema imunitário se revelara activo ao microscópico continuavam vivas. Em suma, quanto menos activas as células NK e outros leucócitos se revelavam, mais rapidamente o cancro progredia e mais se alastrava pelo organismo sob a forma de metástases, diminuindo as hipóteses de sobrevivência.

Um estudo publicado em 2007 na revista Nature debruçou-se sobre o potencial imunitário de ratos perfeitamente vulgares. Catherine Koebel e a a sua equipa na Washington University de Saint Louis, injectaram alguns destes ratos com metilcolantreno (MCA), um alcatrão ainda mais cancerígeno que o do fumo do tabaco. Como era de esperar, uma parte dos ratos rapidamente desenvolveram tumores mortais e, surpreendentemente, os ratos sobreviventes não apresentavam nenhum tumor. Os investigadores descobriram que estes ratos saudáveis, eram portadores de células cancerosas, mas que estas estavam adormecidas pelo seu sistema imunitário. Os resultados obtidos sugerem que o cancro apenas surge se as células cancerosas encontrarem terreno fértil para proliferar. Isto é, um sistema imunitário enfraquecido permite que as células cancerosas possam desenvolver-se. 

A inflamação, o assassino silencioso

O National Cancer Institute publicou um relatório realçando a importância da investigação sobre a inflamação, tão frequentemente ignorada pelos oncologistas. O relatório descreve detalhadamente os processos que o cancro utiliza para multiplicar-se. Tal como as células imunitárias se preparam para reparar lesões, as células cancerosas precisam de produzir inflamação para sustentar o seu crescimento.

A força motriz que está por detrás de um tumor é, em larga medida, o círculo vicioso que as células cancerosas conseguem criar. Ao encorajar as células imunitárias a produzir inflamação, o tumor convence o organismo a produzir o combustível de que necessita para se desenvolver e invadir os tecidos circundantes.

Desde os anos 90 que os oncologistas do Glasgow Hospital, na Escócia, têm vindo a medir os níveis de inflamação no sangue de pacientes com vários tipos de cancro. Os resultados têm demonstrado que os pacientes com menor grau de inflamação têm o dobro das probabilidades de sobreviver. A medição destes marcadores é relativamente simples e faz-se através de umas análises ao sangue, para medir os níveis de proteína C-reactiva (PCR) e albumina:

Risco mínimo = PCR < 10 mg/l e Albumina > 35 g/l

Risco médio = PCR > 10 mg/l ou Albumina < 35 g/l

Risco elevado = PCR > 10mg/l e Albumina < 35 g/l

A descoberta do papel crucial que a inflamação desempenha na progressão do cancro é relativamente recente e esta é uma das razões pelas quais não recebemos conselhos de como evitar a inflamação para a prevenção e tratamento do cancro. A inflamação varia em função do estilo de vida que levamos, daquilo que comemos, do ambiente a que estamos expostos e dos medicamentos que tomamos.

Factor NFkB, o cavaleiro negro do cancro

O crescimento e o alastramento das células cancerosas dependem em grande parte de um único factor pró-inflamatório segregado pelas células tumorais. Este factor é denominado NF-kB (Factor Nuclear kappa-B), e o bloqueio da sua produção torna a maioria das células cancerosas novamente “mortais” e impede-as de criar metástases. A importância do seu papel está tão bem identificada que o Professor Albert Baldwin, da Universidade da Carolina do Norte, conclui na revista Science que “quase todos os agentes anticancerígenos são inibidores do NF-kB”. O mesmo artigo salienta ainda, com alguma ironia, que toda a indústria farmacêutica anda à procura de medicamentos inibidores do NF-kB, enquanto as moléculas conhecidas por actuarem contra ele já estão disponíveis, no chá verde (catequinas) e no vinho tinto (resveratrol), por exemplo.

A angiogénese como fonte de disseminação do cancro

Para sobreviverem, os tumores têm de estar profundamente impregnados de vasos capilares. Como os tumores se desenvolvem muito rapidamente, é necessária a formação rápida de novos vasos sanguíneos. A este processo dá-se o nome de angiogénese (do grego: angio – vaso e génesis – criação). A angiogénese é um fenómeno normal que ocorre durante o desenvolvimento embrionário, o crescimento do organismo e na cicatrização de feridas. No entanto, pode também ser um fenómeno mortífero na disseminação de tumores malignos, facilitando o transporte de oxigénio e nutrientes para o cancro propagar-se.

O seguinte vídeo ilustra muito bem o que podemos fazer para impedir o desenvolvimento do cancro e mostra que os genes têm uma influência de apenas 5-10% na prevenção deste tipo de doença. Os restantes factores provêem do ambiente em que vivemos, sendo que a dieta é o factor mais importante a ter em conta.

Podemos constatar que existem vários alimentos antiangiogénicos (inibem a angiogénese) naturais e mais “saudáveis” que a quimioterapia e radioterapia que impedem o desenvolvimento do cancro. Portanto, a chave de tudo isto consiste em saber quais são esses alimentos para que possamos incorporar na nossa dieta com maior frequência e, desta forma, prevenir uma das doenças que mais tem crescido nos últimos anos e que todos nós tivemos ou teremos que lidar, directa ou indirectamente, através de um amigo, familiar ou companheiro(a).

Conclusão

Através de uma alimentação cuidada e  de um estilo de vida saudável (com exercício físico), temos a capacidade para estimular as nossas células imunitárias, combater a inflamação e actuar sobre a angiogénese, cortando o mal pela raíz no que diz respeito à disseminação do cancro.

Na próxima parte vamos ver os alimentos a evitar e os alimentos a consumir para manter o nosso sistema imunitário em alerta máximo e em estado anti-cancro.

Até breve!

Pedro Correia

Referências

David Servan-Schreiber (2012). Anti Cancro, uma nova maneira de viver.

One thought on “As verdades sobre a Prevenção do Cancro – Parte 2

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