Porquê a Functional Movement Screen?

“O cérebro não reconhece músculos individuais. Os músculos são escravos do cérebro. O cérebro não reconhece músculos isolados, reconhece os padrões de movimento, que consistem em músculos individuais a trabalhar em sinergia para produzir movimento. O Sistema Nervoso Central é a estação de comando que controla e dirige todos os movimentos.”

Vern Gambetta

A Functional Movement Screen (em português Avaliação Funcional do Movimento) é uma ferramenta que nos permite medir a qualidade dos padrões fundamentais de movimento de qualquer pessoa de uma forma sistemática e contínua.

Este tipo de avaliação tem como objetivo identificar os padrões de estabilidade e mobilidade necessários para qualquer pessoa / atleta que procure melhorar o rendimento na sua vida normal e em qualquer modalidade desportiva que exija movimento de alta qualidade (futebol, basquetebol, andebol, atletismo, golfe, rugby, ténis, ginástica, etc.).

Os termos estabilidade e mobilidade por vezes criam confusão. Estabilidade é a capacidade de manter a postura e/ou controlar o movimento, esta pode ser estática (ex: prancha frontal) e/ou dinâmica (ex: prancha frontal com elevação alternada dos braços ou pernas). Mobilidade é a combinação de flexibilidade muscular (pense na extensibilidade do músculo) mais a amplitude de movimento de uma ou mais articulações (pense, por exemplo, na energia elástica necessária para produzir força quando levamos o braço atrás em qualquer tipo de lançamento ou quando levamos a perna atrás para efetuar um remate no futebol).

A maioria das pessoas / atletas quando fazem distintas atividades não sabem o ineficientes que são nos seus movimentos fundamentais. Estas pessoas criam padrões de movimento pobres, treinam em torno de um problema pré-existente e simplesmente não treinam as suas limitações físicas no seu programa de trabalho. Ao não ter uma base sólida, estas pessoas não só terão dificuldades em maximizar o seu potencial, como também aumentarão o risco de contrair lesões.

Com este sistema de trabalho, podemos identificar as limitações ou os pontos fracos nos seus padrões de movimento fundamentais para depois prescrever um programa de trabalho com exercícios de correção e de reeducação motora. A ideia é criar um plano específico de trabalho baseado nas limitações físicas de cada pessoa. Do meu ponto de vista nenhuma pessoa (e muito menos nenhum atleta) devia começar um programa de trabalho físico sem uma avaliação prévia da sua funcionalidade nos movimentos básicos.

Os movimentos fundamentais dividem-se de forma muito sucinta nos seguintes sete testes:

1. Overhead Deep Squat –  Avalia a estabilidade e mobilidade bilateral das ancas, joelhos e tornozelos; estabilidade do core e mobilidade de ombros.

2. Hurdle Step – Avalia a estabilidade e mobilidade bilateral dos tornozelos, joelhos e ancas.

3. In-Line Lunge – Avalia a estabilidade e mobilidade no torso, ombro, anca e tornozelos; flexibilidade dos quadriceps e estabilidade dos joelhos.

4. Shoulder Mobility – Avalia a estabilidade do core e a mobilidade dos ombros, combinando a rotação interna com adução e a rotação  externa com abdução.

5. Active Straight Leg Raise – Avalia a flexibilidade dos isquiotibiais e dos gémeos, mantendo a pélvis estável e uma extensão ativa da perna contrária.

6. Trunk Stability Push Up – Avalia a estabilidade do tronco no plano sagital enquanto é efetuado um movimento simétrico de empurrar pela extremidade superior.

7. Rotary Stability – Avalia a estabilidade multi-planar durante um movimento combinado da extremidade inferior e superior.

Através de um conjunto de testes, podemos avaliar estes movimentos e identificar de forma objetiva os pontos fracos e as assimetrias existentes no corpo de cada pessoa. As assimetrias no nosso corpo são os aspectos mais importantes a corrigir para prevenir lesões a longo prazo.

Há muita gente a treinar nos ginásios com má postura (inclusivamente aquelas que se sentam confortavelmente nas máquinas) porque não têm a capacidade de manter a postura quando fazem determinado tipo de exercício. Isto pode acontecer basicamente por dois motivos: 1) ninguém lhes ensinou como realizar o exercício de forma correta e 2) as pessoas têm limitações em realizar os movimentos fundamentais e por isso compensam com outras partes do corpo. O que acha que vai acontecer depois? Começa a aparecer uma ligeira dor num determinado local do corpo que na maior parte das vezes não ligamos nenhuma (até tomamos anti—inflamatórios porque somos fortes e acreditamos que isso vai resolver o problema) e depois é que surge a LESĀO a sério que nos vai impedir de treinar e fazer outras atividades durante uns tempos.

Pense no seu corpo como uma pirâmide, no primeiro rectângulo (a base sólida) estão os movimentos fundamentais; no segundo rectângulo estão as capacidades físicas necessárias para obter um bom rendimento desportivo (força, velocidade, potência, resistência e flexibilidade) e no terceiro e último rectângulo estão as habilidades específicas de cada modalidade desportiva. É impossível tornarmo-nos um Ferrari se o nosso motor é de um Peugeot 206, certo?

Esta avaliação não é apenas para desportistas, mas também para qualquer pessoa comum que queira simplesmente melhorar a sua qualidade de vida. Pode estar a pensar que nos seus movimentos diários não precisa de uma base atlética, mas acredite que precisa e…muito!. Veja os seguintes exemplos: não acha que precisa de alguma força para carregar as compras do supermercado ou para levar os seus filhos ao colo? Não acha que precisa de reagir rapidamente e manter o equilibrio quando escorrega em alguma coisa? Não acha que precisa de alguma resistência para subir escadas ou para fazer turismo durante um dia inteiro? Nunca teve que correr para não perder o autocarro ou o avião? Nunca teve que levantar coisas do chão sem que lhe doam as costas? Não acha que precisa de alguma resistência para poder brincar com os seus filhos?

Todos estes exemplos que acabei de dar requerem uma base de movimento funcional. Se leram com atenção em nenhum momento falei de músculos e a frase que cito no início do post é totalmente ilustrativa da minha metodologia de trabalho. Para mim, não faz sentido encaixar as pessoas em máquinas sem aprenderem os padrões de movimento que as mesmas vão utilizar durante as suas vidas.

Todo o nosso corpo está ligado através de músculos, tendões, ligamentos e fascia. O que acontece no dedo grande do pé afeta a posição dos joelhos, das ancas e dos ombros. O corpo humano foi desenhado para o movimento, não para estar sentado trabalhando músculos de forma isolada e desintegrada do seu contexto real.

Infelizmente em Portugal ainda são muito poucos os profissionais que trabalham com este tipo de filosofia.

Até breve.

Pedro Correia

Referências:

Gray Cook (2010). Movement.

Vern Gambetta (2011). Following the Functional Path.

8 thoughts on “Porquê a Functional Movement Screen?

      • Ola Pedro!
        Parabens pelo texto! Sou um leitor assiduo das tuas publicações e como colega de profissão, não posso deixar de te dar os parabens pela tua filosofia de trabalho, a qual também partilho e coloco em prática! Realmente ainda existem poucos profissionais que trabalham de forma correta com esta filosofia! Partilho também muito a tua ideia no que se refere à componente de alimentação!
        Parabéns

        Continua sempre no sentido da excelência, é essa a minha forma de estar na vida!
        São profissionais como tu que fazem falta nesta área!

        Melhores cumprimentos,

        Frederico Silva

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