Entrevistas – Prof. Sandro Freitas

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Hoje temos uma entrevista com o Prof. Sandro Freitas, um dos maiores investigadores portugueses no treino da flexibilidade. Actualmente dá aulas na Faculdade de Motricidade Humana (FMH) em Lisboa e dirige a Gnosies, uma das entidades formadoras de elevada qualidade em Portugal, no que diz respeito ao Exercício Físico. 

Sandro, em primeiro lugar, Feliz Ano Novo e obrigado por aceitares esta entrevista. Podes contar-nos um pouco sobre ti e sobre aquilo que fazes. 

Olá Pedro. Antes de tudo, eu é que agradeço o convite em colaborar contigo e com o teu irmão (Nuno Correia), pessoas de quem gosto muito por sentir partilhar os mesmos valores. Quanto ao apresentar-me, creio que será mais fácil deixar aqui um link para um breve resumo curricular meu (clicar em ver mais). Contudo, actualmente sou Docente na FMH, Diretor da Gnosies, e estou a terminar o meu doutoramento na FMH.

Já escreveste vários papers, vários capítulos de livros e um livro intitulado “Flexibilidade e Alongamento: Um Modelo Taxonómico” com 277 referências. Porquê o interesse pelo estudo da Flexibilidade? 

Porque é um assunto que tem “petróleo”. Ou melhor dizendo, tem energia. Pouco se sabe, pouco se investiga, mas “sabe-se” que tem um impacto muito importante quer no desempenho físico-desportivo, quer na prevenção de lesões e sentido de bem estar.

A tua tese de doutoramento versa sobre os “Efeitos da Intensidade de Alongamento nas Propriedades Mecânicas do Complexo Músculo-Tendinoso”. Podes adiantar-nos, de forma sumária, a que conclusões chegaste até agora ou aquilo que mais te surpreendeu nos estudos que realizaste? 

Bem, neste ponto em que escrevo a tese, e ainda estou a completar alguns estudos, posso sumarizar que a intensidade revela ser uma variável fundamental nas respostas e adaptações ao treino, pois esta mostra ser a principal a partir do qual fazemos variar a rigidez. Com as medidas que tenho efectuado sobre o “momento articular-ângulo” do joelho durante a extensão passiva da perna, tenho concluído que a rigidez articular (aferida através da estimação do momento articular) não se comporta. Também tenho concluído que a resposta temporal da rigidez, após a prática de alongamentos, decorre com uma certa dinâmica, na medida em que diminui imediatamente após o alongamento, e passado algum tempo (+ ou – 30 a 60 min) a rigidez volta a estabelecer os valores de baseline, e em alguns dos casos os sujeitos ficam mais rijos comparados com a condição pré-alongamento. Ou seja, o alongamento torna temporariamente o sujeito mais rijo; e este efeito é dependente da intensidade. Também verifiquei vários aspectos do ponto de vista metodológico. Como por exemplo, que os intervalos de descanso entre repetições são contra-produtivos para a obtenção de uma intensidade elevada. Neste momento estou a terminar vários estudos, entre os quais um RCT (randomized controled trial) em que os sujeitos estão a ser expostos a 3 meses de alongamento com diferentes intensidades e estou a medir aspectos vários das propriedades mecânicas dos músculos sujeitos a alongamento. Vai ser giro ver os resultados; creio eu. =)

Existe muita controvérsia e alguns mitos instalados no que diz respeito aos reais “benefícios” dos alongamentos estáticos antes e depois do treino. Eu escrevi um post sobre isso há algum tempo atrás e tu disseste-me que concordavas com 80% do que lá estava escrito. Quais são os 20% que não concordas? 

Medir é um processo trivial. Interpretar a medida efectuada, já não. Quando disse que não concordava com os 20% prendia-se com a interpretação feita, por vezes de uma forma abusiva, por alguns investigadores que quase que crucificam a prática de alongamento estático. Contudo, o seu argumento é válido: a força máxima, taxa de produção de força, e tarefas motoras praticadas em intensidades máximas de manifestação da força, são negativamente afectadas. O exemplo que vou dar encontra-se melhor justificado no livro que escrevi Flexibilidade e Alongamento: Um Modelo Taxonómico. Quando se pratica alongamento estático, a curva isocinética força-amplitude articular é alterada: 1) diminui o pico de força; 2) a amplitude de movimento em que se produz força aumenta. É com base nesta resposta (1) ao alongamento, que os autores crucificam a prática de alongamento. Contudo, a resposta (2) mostra-nos que o sujeito é capaz de produzir mais força em amplitudes articulares elevadas. Ou seja, em certos contextos físico-desportivos, por ser vantajoso, e por isso deve-se recomendar praticar antes da actividade. Por outro lado, a consequência da “difamação” sobre os alongamentos estáticos leva a pensar que estes não têm benefício algum, e em virtude disso fomentam a prática de alongamentos dinâmicos. Em “defesa” dos alongamentos estáticos tenho a dizer: 1) não afectam, e pelo contrário promovem a viscosidade dos tecidos, ao contrário dos dinâmicos; 2) não afectam a rigidez dos tendões, ao contrário dos dinâmicos; e 3) potenciam maiores ganhos de amplitude de movimento, em comparação aos dinâmicos.

Na tua comunicação, no Congresso Practice, falaste de vários testes que se podem usar para medir a Flexibilidade, para além do Sit and Reach. Na minha opinião (e creio que na tua), o Sit and Reach é um teste muito fraco porque não mede a Flexibilidade das articulações quando estamos a realizar um determinado tipo de movimento, nem avalia os padrões posturais em que o mesmo é efetuado. Por este motivo, parece-me pertinente a distinção que é feita pelo Gray Cook entre Flexibilidade e Mobilidade, quando refere que a Flexibilidade, ao contrário da Mobilidade, não está orientada à realização de movimentos fundamentais e, como tal, não é uma medida funcional para a maioria das pessoas e atletas. O que tens a dizer sobre isto e porque achas que se continua a utilizar este teste nos Ginásios para medir a flexibilidade das pessoas?

Com todo o respeito pela terminologia proposta pelo Gray, acho que o termo Mobilidade acaba por ser sinónimo de Flexibilidade. O que se faz apenas, é avaliar a Flexibilidade numa só acção corporal. Existem outras, mais válidas e com maior relevância clínica. Porque se continua a usar? Dois argumentos:

1) É fácil (não é preciso um curso para saber fazer), é barato (apenas a caixa do S&R) e permite avaliar “milhões” de pessoas (é rápido!).

2) As pessoas (passo a citar melhor: profissionais) desconhecem a existência de outros protocolos e instrumentos de avaliação, e principalmente saber interpretar os mesmos

No teu livro, fazes uma distinção entre dois tipos de abordagem no que diz respeito à Avaliação da Flexibilidade – quantitativa (ou estática) e qualitativa (ou dinâmica) – onde explicas as vantagens e desvantagens de cada um. Que tipo de testes tens utilizado nos teus estudos para avaliar a Flexibilidade e porquê que devemos considerar a Flexibilidade um bom indicador de saúde?

Duas questões, duas respostas.

Em relação à primeira questão: Tenho utilizado um setup experimental de avaliação qualitativa e passiva da flexibilidade, na extensão passiva da perna. Com este protocolo eu obtenho a medida de “momento articular-ângulo” do joelho, cuja força é fruto da deformação dos factores estruturais que atravessam a articulação do joelho, em particular, os posteriores da coxa.

Em relação à segunda: O importante para mim é o movimento e a capacidade de produção de força. E, sendo que a flexibilidade afecta estas duas condições de expressão física, logo é importante para a Saúde. E como perceberás na resposta da pergunta seguinte, a Flexibilidade deve ser vista como a Fruta.

Voltando à tua intervenção no Congresso Practice, comparaste a Flexibilidade à fruta, ou seja, que não convém ter muita flexibilidade (fruta demasiado madura), nem convém ter pouca flexibilidade (fruta demasiado dura). O importante é tê-la “no ponto”. Queres explicar esta tua analogia aos nossos leitores? 

=) É curioso ver que muitas pessoas ficaram a pensar nessa analogia, e muitas já me confrontam sobre o porquê dessa comparação. Ponto de partida: em termos genéricos, entre as várias perspectivas de análise, o mais relevante no perfil da Flexibilidade é a rigidez dos tecidos que atravessam as articulações, em particular o sistema músculo-esquelético. Pois, tecidos demasiados rijos apresentam um risco de lesão aumentado e restringem o movimento, tecidos pouco rijos afectam a capacidade de produção de força e força máxima, para além de poderem favorecer algum tipo de lesões devido à condição de hipermobilidade. Por isso, na avaliação da Flexibilidade, o importante é perceber se a rigidez afecta aos tecidos, que se faz repercutir na manifestação da flexibilidade articular, é adequada para o indivíduo. Por excesso, ou por défice, é inadequada. Existe um nível óptimo. Tal como a Fruta, para favorecer o paladar e nutrir o indivíduo!

Mudando de assunto, sei que estás envolvido em vários projetos e que recentemente publicaste o Código Deontológico do Profissional de Exercício Físico. O que esperas conseguir com isto, quais são as tuas principais preocupações? 

Bem, como sabes, o Código Deontológico do Profissional de Exercício Físico constitui uma posição da Gnosies. Ainda que seja o autor do documento em conjunto com o Luís Folgado. Em consequência da missão a actividade da Gnosies, que luta diariamente para favorecer a actividade profissional daqueles que exercem no âmbito da Actividade Física, Exercício Físico e Desporto, sentimos desde há muito tempo a necessidade de desenvolver uma actividade formativa séria e que fomente a relação com a comunidade científica. E com esta vontade, temos vindo a realizar vários cursos, formações, congressos e outras acções. Felizmente tem tido grande aceitação por parte das pessoas, por reconhecer o elevado rigor técnico-científico, e a respectiva credibilidade de quem as dirige.

No entanto, chegamos à conclusão que não faria sentido fomentar tal actividade sem ter algo que é fundamental ter numa profissão: ética. Ao analisar as profissões na sociedade que são realmente reconhecidas como credíveis, verificamos que todas elas têm deontologia. Só a do Exercício Físico é que não. E por isso jogamos mãos à obra para desenvolver um contributo para esta área profissional, através de uma posição da Gnosies traduzida através de um documento que agora é dos Profissionais de Exercício Físico. Quem reconhecer tal importância na deontologia publicada no documento, é naturalmente um embaixador e por isso deve promover perante os pares profissionais. Assim, acreditamos que a profissão crescerá!

Neste sentido, na expectativa de que muitos profissionais irão ler este artigo, apelo a que façam chegar esse documento a todos os vossos contactos profissionais, e adicionalmente façam chegar o vosso comentário à página da Gnosies no Facebook.

Não achas que deveria ser criada uma Ordem dos Treinadores, tal como existe uma Ordem dos Médicos, Advogados, Arquitectos etc., com a finalidade de termos um maior reconhecimento enquanto profissionais da área do Exercício Físico? Eu sinto que o nosso trabalho ainda é pouco valorizado nos dias que correm. 

Acho. Mas sei que é um processo muito longo, e que exige muito trabalho e dedicação! E que isso só acontecerá quando existir um produto de Exercício Físico reconhecido na sociedade. E tal facto só acontece quando se constituírem um conjunto considerado (i.e. número representativo) de profissionais de Exercício Físico, com uma ética profissional desenvolvida na prática, e munido de elevadas competências e capazes de resolver verdadeiramente problemas. E isso só se obtêm através de formação. Formação altamente qualificada! E por acreditar no que escrevo, lidero a Gnosies que visa dar um contributo nesse sentido.

Em 2007, passaste uma temporada a trabalhar no Laboratório de Human Performance do Prof. William J. Kraemer (um dos maiores cientistas desportivos do Mundo) na Universidade de Connecticut (EUA). Conta-nos como é que foi essa experiência? 

É um facto. O Dr. Kraemer para além de ser um dos investigadores mais considerados no mundo, no contexto do exercício e do treino, é um excelente ser humano, que releva transparência, paixão e humildade que fazem dele um grande senhor. Tenho por ele um enorme respeito e consideração. Pois aprendi muito. Não só com ele, mas com todos os elementos pertencentes ao Laboratório onde estive, extraordinariamente dotados de conhecimento. Bem, no tempo que lá estive fui um consumidor de informação, que posteriormente traduzi a conhecimento. Frequentei tudo o que era aulas (licenciatura, mestrado e doutoramento), desenvolvi uma investigação, auxiliei em vários estudos, certifiquei-me por diversas entidades, interagi com vários atletas de várias modalidade e…claro que aproveitei para conhecer a cultura e um pouco do país. Foi certamente um momento que marcou a minha vida. =)

Muito bem, queres acrescentar mais alguma coisa que eu não tenha perguntado?

Sim, quero. Duas coisas:

1) Uma vez mais, obrigado pelo convite. Estou certo que vamos trabalhar juntos no futuro.

2) Já alongaram hoje? =)

Sandro, uma vez mais muito obrigado por responderes a estas questões. Podes dizer-nos onde é que podemos encontrar mais informação sobre ti e sobre o trabalho que tens desenvolvido (livros, artigos, projetos, etc.)? 

Sim. Na Gnosies. Poderá ser suspeito, por ser mentor do projecto, mas considero em Portugal uma das mais capazes entidades formadoras capazes de valorizar a actividade profissional de Exercício Físico. Porque apresenta produtos exclusivos; desenvolve a possibilidade da pessoa fazer o curso completo, ou apenas módulos; tem associado os mais competentes consultores, especialistas de diversas áreas e está em crescente expansão pelo país, e a fazer cumprir a sua missão de Aproximar a Ciência da Comunidade Profissional de Actividade Física, Exercício Físico e Desporto.

E por isso recomendo que todos os profissionais de Exercício Físico entrem em contacto connosco para se tornarem Associados (é gratuito!) e permitirem que a Gnosies possa contribuir no aumento de conhecimentos e competências profissionais. Em adição, passo a publicitar um curso, que vai acontecendo regularmente sobre Treino da Flexibilidade e Alongamento, julgo ser o único curso em Portugal com estas características, liderado por alguém que coloca as mãos na massa e desenvolve investigação sobre o tema com impacto científico internacional.

Excelente trabalho Sandro, para mim seria um prazer trabalharmos juntos no futuro. 

Até breve! 

4 thoughts on “Entrevistas – Prof. Sandro Freitas

  1. Bom dia

    Ora agora está aqui uma certa confusão. Deve-se ou não alongar de forma estática antes de um treino, em que haja grandes amplitudes dos membros e movimentos explosivos (por exemplo: karate)?

    “Em “defesa” dos alongamentos estáticos tenho a dizer: 1) não afectam, e pelo contrário promovem a viscosidade dos tecidos, ao contrário dos dinâmicos; 2) não afectam a rigidez dos tendões, ao contrário dos dinâmicos; e 3) potenciam maiores ganhos de amplitude de movimento, em comparação aos dinâmicos.”

  2. Bom Dia

    Depois de ler este post, e de ler o comentário anterior, e, especificamente este trecho, do texto:
    “Quando se pratica alongamento estático, a curva isocinética força-amplitude articular é alterada: 1) diminui o pico de força; 2) a amplitude de movimento em que se produz força aumenta. É com base nesta resposta (1) ao alongamento, que os autores crucificam a prática de alongamento. Contudo, a resposta (2) mostra-nos que o sujeito é capaz de produzir mais força em amplitudes articulares elevadas. Ou seja, em certos contextos físico-desportivos, por ser vantajoso, e por isso deve-se recomendar praticar antes da actividade.”
    Fica a dúvida se realmente e devem ou não fazer alongamentos estáticos antes do treino, visto que o ponto 2, defende que sim.
    E em que é que ficamos? É que este tipo de dúvidas ficam sempre, uns dizem que não se deve, outros, que se deve…

      • Boa Tarde

        Há que admitir que o texto, é um bocado, dúbio.
        Só mais uma questão, caso queira fazer alongamentos estáticos antes do treino, posso fazer às pernas e treinar, por exemplo peito?

        Obrigado
        Cumprimentos

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