Entrevista Pedro Correia – Diário de Notícias

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Hoje queria partilhar uma entrevista que me foi feita pelo jornalista Filipe Sousa, publicada no passado mês de Dezembro no Diário de Notícias da Madeira. O texto colocado a negrito é da autoria do jornalista. Falo sobre aquilo que faço atualmente e de algumas coisas que tenho feito ao longo da minha carreira profissional.

Pedro Correia tem uma visão muito própria daquilo em que se deve transformar o golfe na Região. Pedro Correia esteve vários anos ligado ao golfe, modalidade que deixou para se especializar na área da performance. Trabalha agora em Lisboa, depois de uma temporada em Espanha, ao serviço da Real Federação local. Em entrevista ao DIÁRIO, falou do seu actual trabalho e lançou umas ideias que visam valorizar o golfe regional.

1. Depois de duas experiências ligadas ao golfe, abraçou um novo projecto, como especialista de performance. Como está a correr esta nova fase da sua vida?

Está a correr bem, porque estou a trabalhar naquilo que mais gosto, apesar de todos os dias perceber que não sei quase nada e que ainda há muita coisa por aprender e descobrir. Pode parecer estranho mas à medida que estudamos mais e aprofundamos o conhecimento nas diversas áreas que influenciam a performance, cada vez surgem mais dúvidas, mais incertezas e mais nos damos conta que somos uns perfeitos ignorantes. Falo por mim…

2. Em que consiste esta nova área de trabalho?

Consiste em transformar vidas através de uma perspectiva global que inclui quatro pilares transversais ao desenvolvimento do ser humano: Movimento, Nutrição, Mentalidade e Regeneração. Traduzindo isto por miúdos, para não correr o risco de cair no esoterismo, eu não sou capaz de me limitar a dar treinos e não quero ser visto apenas dessa forma. Eu quero ensinar as pessoas/atletas a aprenderem movimentos funcionais, aqueles que precisamos nas nossas actividades diárias e no alto rendimento, e a perceberem a importância da nutrição na melhoria do rendimento e na prevenção de doenças, de forma a que compreendam que não é mesmo indiferente aquela situação de “comer qualquer coisa para desenrascar”.

Temos que começar a olhar para a comida como os nossos medicamentos porque cada vez que metemos algo à boca estamos a comunicar com as nossas células e com os nossos genes. Em relação à mentalidade, é importante perceber que nós somos o produto das nossas acções e daquilo que pensamos e fazemos todos os dias. Ou seja, se eu quero ser um atleta, tenho que treinar como um atleta; se eu quero perder massa gorda, tenho que procurar um especialista em nutrição e exercício físico; se eu quero ficar mais forte, tenho que levantar pesos; se eu quero ficar mais rápido, tenho que fazer mais sprints e treinar mais rápido etc. Portanto, se não definimos objetivos neste sentido e, sobretudo, se não agimos em prol desses objetivos, os resultados não vão aparecer.

No que concerne à regeneração, a maioria de nós não se preocupa muito em descansar bem, dormir as tais 8/9 horas por dia, e isto pode fazer toda a diferença na performance diária e/ou desportiva. Basta, por exemplo, saber que uma noite mal dormida deixa-o num estado pré-diabético no dia seguinte. Eu costumo dizer às pessoas com quem trabalho que o exercício pode ajudar mas a nossa fisiologia nunca volta ao normal sem um sono adequado.

3. Compreender e trabalhar o corpo e a mente é meio caminho para uma longa e saudável vida?

Sem dúvida. E hoje estamos a olhar para aquilo que fizeram os nossos ancestrais e algumas tribos míticas para perceber isso. O que não deixa de ser curioso e, ao mesmo tempo, preocupante. Hoje em dia, com mais conhecimento e com a informação disponível a qualquer momento, estamos mais desorientados e mais inseguros. A verdade é que os seres humanos foram desenhados para o movimento, ou seja, não é por acaso que começamos a dar pontapés na barriga das nossas mães antes de nascer. O movimento faz parte das nossas vidas e o estilo de vida sedentário que nos tem sido impingido pela sociedade, até um certo ponto, não nos tem ajudado a ficar mais inteligentes e autónomos. O movimento faz parte do nosso processo de desenvolvimento e para aqueles que não acreditam em mim, recomendo que vejam uma conferência do neurocientista Daniel Wolpert nas TED Talks, intitulada “A verdadeira função dos cérebros“.

4. O facto de ter tido uma doença grave, um cancro, da qual se curou, felizmente, influenciou de alguma forma o enveredar por este novo caminho?

É claro que influenciou, até porque nunca me souberam explicar a causa dessa doença. Este é um assunto a que tenho estado atento e que espero, no futuro, dedicar mais tempo, para saber mais coisas. Quando tive a doença e até há algum tempo atrás, julguei que tinha tido azar, até porque sempre fiz desporto e sempre mantive uma vida relativamente saudável. Mas, depois de começar a pensar nas coisas que fiz, designadamente na minha alimentação, nos treinos que realizei e nas idiotices próprias da idade, vou chegando à conclusão que o problema que tive não pode ter sido apenas produto do azar. A doença instala-se no nosso corpo porque existem deficiências crónicas de nutrientes a nível celular e porque pode haver uma predisposição genética para tal. Eu tenho a perfeita noção que nunca vou descobrir a verdadeira causa da doença, mas estou disposto a chegar lá perto.

5. Não tem saudades do golfe?

Eu não abandonei o golfe e até há bem pouco tempo fui aos EUA fazer nova formação nesta área. O golfe tem sido uma das modalidades que tenho investido imenso e tenciono continuar a fazê-lo. Neste momento não estou a trabalhar com nenhum atleta por dificuldades em conciliar a agenda mas tenho esperança que isso se proporcione no futuro. Penso que será uma questão de tempo.

6. Foi director desportivo e coordenador da escola de golfe do Santo da Serra. Continua a acompanhar o quotidiano do clube?

Nem por isso. Sei através de amigos que a situação económica em que vivemos não tem ajudado o clube a prosperar. O que lamento por todas as pessoas que lá trabalham, especialmente por aquelas cuja única fonte de rendimento é a do clube e que precisam do dinheiro para sobreviver.

7. Acredita que na actual conjuntura a Madeira pode melhorar e qualificar o Madeira Islands Open para o topo do golfe mundial?

Tenho andado longe da Madeira e as poucas notícias que vou sabendo, quer através de familiares, amigos, colegas, quer através da televisão, não parecem ser muito encorajadoras. Não sendo um especialista em economia e sem fazer uma avaliação objectiva do retorno gerado pela realização do Open da Madeira nos últimos anos é difícil responder a essa pregunta.

No entanto, se me permite, para mim parece-me mais importante apostar na sustentabilidade da modalidade na Região, do que organizar o Open da Madeira todos os anos, para inglês ver. E quando falo de sustentabilidade refiro-me ao aumento e melhoria dos serviços que são oferecidos nos clubes, por exemplo, ao nível de qualificação dos profissionais nas diversas áreas, à regulação dos quadros competitivos regionais, à profissionalização do dirigismo desportivo, à criação de equipas multidisciplinares na área do rendimento, ao investimento em programas de desenvolvimento atlético a longo prazo, à criação de melhores condições de acesso para praticantes…

Do meu ponto de vista, na situação em que estamos, tudo isto é mais importante que organizar um Open da Madeira que não estimula o real desenvolvimento do golfe na Região e que, aparentemente, não tem servido para outra coisa, senão para alimentar o ego daqueles que se gostam de pavonear com esse tipo de eventos. Quer queiramos, quer não, o golfe continua a ser uma prática elitista em Portugal e isso acontece por vários motivos, um dos quais, e aquele que mais me perturba, tem a ver com o facto de se dar mais tempo de antena à participação dos senhores doutores, engenheiros, arquitectos, políticos, advogados, economistas, etc., nos torneios sociais, do que aos verdadeiros atletas que competem nos Campeonatos Nacionais, nos EUA ou mesmo no European Tour. Sendo esta a imagem que o golfe passa nas televisões nacionais, é normal que as pessoas associem a prática desta modalidade aos banquetes e às famigeradas elites. Eu pensaria o mesmo se não tivesse conhecimento da componente competitiva do golfe.

Experiência por terras espanholas…

8. A experiência enquanto Coordenador da Escola Nacional Joaquin Blume, da Real Federação Espanhola de Golfe, foi importante na sua carreira profissional?

Sim, foi uma experiência muito importante no desenvolvimento da minha carreira. Até porque foi aí que percebi que tinha mais vocação para trabalhar como técnico ou treinador do que propriamente como coordenador de uma equipa de técnicos. Ou seja, nessa altura percebi que não tinha estudado Ciências do Desporto para trabalhar atrás de uma secretária, se bem que trabalhava muito no campo, com a finalidade de idealizar projectos de desenvolvimento desportivo, que depois não tinham consequência e/ou para lidar com processos administrativos, que não me interessavam para nada.

9. Porque deixou o projecto?

Deixei o projecto porque havia algumas coisas que me incomodavam em termos de organização e regulação da prática desportiva, com as quais não poderia ficar indiferente. A este nível, não era aceitável que essas “‘coisas” acontecessem e por essa razão senti que esta era a melhor altura para procurar outros desafios.

Nota final do Pedro: Quero agradecer ao Diário de Notícias da Madeira e aos seus profissionais o facto de se terem lembrado de mim para dar esta entrevista.

Até breve!

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