Nutrição Baseada na Evidência e na Evolução – As minhas Notas

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“Nothing in biology makes sense except in the light of evolution”

Theodosius Dobzhansky

Foi no domingo passado que acabou mais um grande seminário organizado pela Nutriscience. O tema desta vez foi sobre a Nutrição Baseada na Evidência e Evolução e, como já é costume, este foi mais um evento de classe mundial.

Os prelectores foram o Professor Staffan Lindeberg (PhD em Medicina e investigador na Universidade de Lund, Suécia), Maelán Fontes (docente e investigador em Nutrição) e Pedro Bastos (CEO da Nutriscience e investigador em Nutrição).

Aqui ficam as minhas notas desta formação.

1) O Prof. Staffan Lindeberg é o autor do livro Food and Western Disease: Health and Nutrition from an Evolutionary Perspective e falou-nos da importância de olhar para a Nutrição com uma abordagem mais rigorosa daquela que muitos profissionais costumam ter. Hoje em dia qualquer pessoa julga que percebe de Nutrição e que basta uma consulta rápida no Google para chegar a uma conclusão. Infelizmente, as coisas não são assim tão simples (até podiam ser se não houvesse tanta gente a complicar), e por esse motivo é preciso olhar para a Nutrição como uma Ciência (com imensas variáveis) e não como uma receita de bolo que requer apenas a leitura da receita e que é igual para todos.

2) Se o próprio Prof. Staffan Lindeberg diz que as investigações em Nutrição ainda estão muito aquém daquilo que se devia fazer (a prática baseada na evidência ao invés da prática baseada na conveniência), e que existem muitos interesses corporativos, eu vou acreditar. Eu já suspeitava que isto acontecia, mas ouvir isto ao vivo de um dos maiores investigadores mundiais na área, tem um peso ainda maior. Muitos estudos contêm apenas informação selectiva e não são completamente transparentes – a maioria dos estudos com drogas nem chegam a ser publicados. Foram dados alguns exemplos e realmente há várias indústrias poderosas (farmacêutica, comida, leite) a enriquecer à custa das doenças dos outros.

3) Para além dos óbvios interesses corporativos, existem também alguns cientistas que não fazem referência a todos os dados para poderem defender a sua hipótese. Toda a gente tem os seus “bias”, ou seja, as suas crenças, mas há uns que preferem ocultar algumas partes da história para provarem que têm razão. Por exemplo, o promotor da hipótese que os hidratos de carbono é que são os principais responsáveis pelo nosso mundo gordo e doente, Gary Taubes, “esqueceu-se” de mencionar nos seus escritos, que os habitantes de Kitava comiam quase 70% da sua dieta em hidratos de carbono dos tubérculos. O Gary Taubes (autor de Good Calories, Bad Calories e de Why We Get Fat) tornou-se um cientista bastante influente na área da Nutrição e muitas das coisas que ele defende estão certas, e há que lhe dar os parabéns por isso. No entanto, o facto de ocultar alguns dados para defender a sua hipótese, só o torna mais fraco do ponto de vista científico (mas provavelmente mais popular). Ou seja, o problema não são os hidratos de carbono, o problema são os hidratos de carbono de má qualidade.

4) À luz desta falta de transparência e dos interesses instalados, compete assim aos profissionais dedicados o trabalho de analisar a qualidade da evidência científica apresentada e a sua metodologia, para poder servir melhor os seus pacientes e esclarecer as dúvidas que vão surgindo, cada vez que é divulgado um estudo contraditório e tendencioso. A maioria das guidelines existentes na Nutrição, são baseadas em estudos epidemiológicos (com um nível de evidência científica fraco) ao invés de estudos de intervenção (que têm um nível de evidência científica mais forte), e como tal é fundamental olharmos para a qualidade da evidência apresentada em vez da quantidade da evidência apresentada. Portanto, quanto mais pormenores soubermos sobre o estudo melhor.

5) Na análise que fizemos ao estudo publicado pelo New England Journal of Medicine Primary Prevention of Cardiovascular Disease with a Mediterranean Diet sobre a influência da Dieta Mediterrânica na prevenção das doenças cardiovasculares, queria apenas destacar as seguintes conclusões a que chegamos: 1) para quem não sabe, a Dieta Mediterrânica tradicional caracteriza-se por um consumo elevado de azeite, frutas, oleaginosas, verduras e cereais; um consumo moderado de peixe e aves;  um consumo mais baixo de lacticínios, carne vermelha, carnes processadas e doces; e vinho em moderação com as refeições;  2) a Dieta Mediterrânica é certamente melhor que a típica dieta americana rica em junk food; 3) a Dieta Mediterrânica não pode ser igual em todos os países que envolvem o Mediterrâneo, porque cada um tem as suas comidas locais (apesar da globalização); 4) Portugal não faz parte do Mediterrâneo (foi preciso o Pedro Bastos para nos lembrar deste pequeno pormenor geográfico); 5) algumas das recomendações da dieta mediterrânica não estão baseadas na forma como nós evoluímos enquanto espécie, pelo que se atendermos aos problemas que os cereais (grãos) e o leite podem causar, se calhar poderá haver uma dieta / estilo de vida melhor para vivermos até aos 120 anos; 6) a dieta Mediterrânica é para as pessoas “normais” que chegam aos 70, 80 anos, que tomam medicamentos para o colesterol, diabetes e hipertensão, e que perdem a sua autonomia e capacidade funcional.

6) O Professor Lindeberg foi a pessoa responsável pela realização do estudo da ilha de Kitava (LINK), uma ilha tropical situada no arquipélago da Papua Nova Guiné. A finalidade deste estudo foi averiguar os hábitos alimentares desta população (uma das poucas populações do planeta que ainda não tinha sofrido a influência dos alimentos ocidentais) e os seus marcadores de saúde, e compará-los com os dados da população sueca. Como era de esperar, porque os habitantes de Kitava não consumiam alimentos fabricados pelo homem, os riscos de doença cardiovascular eram aparentemente inexistentes.

7) A dieta dos Kitavans era composta maioritariamente por tubérculos (cerca de 65-70% era proveniente da batata doce, inhame e taro), fruta (banana, ananás, manga, papaia, melancia, goiaba), côco, peixe, oleaginosas e verduras. Parece que comiam carne uma vez por ano quando havia festa. Cerca de 20% da sua dieta era proveniente da gordura saturada, mais concretamente do côco. Segundo o autor, os habitantes de Kitava não morriam das famigeradas doenças da civilização (doenças cardíacas, hipertensão, diabetes tipo II e cancro) e tinham uma vida razoavelmente ativa até falecerem. Em relação ao seu estilo de vida, importa destacar que não bebiam álcool e que cerca de 75% da população fumava (uma surpresa!). Apesar dos cuidados médicos serem escassos, cerca de 6% dos habitantes tinham idades compreendidas entre os 60 e 96 anos.

8) O Maelán Fontes está a realizar o seu doutoramento em Ciências Médicas na Universidade de Lund (Suécia). Ele é também investigador em Nutrição e neste momento está a conduzir um estudo piloto em Lanzarote (Canárias) com uma população com diabetes tipo II, sem incluir cereais e grãos na sua alimentação (LINK), muito parecida à Dieta Paleolítica. Segundo o autor, não existem estudos de boa qualidade para uma dieta adequada para a Diabetes. Estou muito curioso para ver os resultados finais deste estudo.

9) Os problemas da pirâmide dos alimentos. Eu já escrevi aqui neste blog que a Pirâmide/Prato dos Alimentos, mesmo com as novas versões que foram surgindo, não é um bom guia para prosperar (i.e. maximizar a saúde e performance). Um grande passo em frente neste sentido foi, sem dúvida, a posição assumida pela Harvard School of Public Health, quando, no ano passado, decidiu retirar os lacticínios do seu guia de alimentação saudável. Várias limitações foram apontadas por Maelán Fontes neste sentido. A prevenção através da dieta tem tido um enfoque demasiado grande em macronutrientes e micronutrientes e não propriamente na qualidade dos alimentos, ou seja, as pessoas estão mais focadas em contar calorias que em ingerir alimentos ricos em nutrientes. O resultado? Milhares de livros de dieta, cada um deles a defender a sua teoria e com planos milagrosos.

10) Muitas figuras têm influenciado as recomendações atuais na Nutrição (John Kellogg,  Ancel Keys, Denis Burkitt, Robert Atkins, Pierre Dukan) e nem sempre pelos melhores motivos, isto é, com o dinheiro a sobrepôr-se à ciência. Hoje em dia ainda é recorrente ouvirmos que os cereais são bons para a saúde; que o colesterol e as gorduras saturadas são o inimigo a abater; que as gorduras fazem mal e aumentam o risco de doença cardíaca (como se fossem todas iguais); que a margarina é que é bom para baixar o colesterol; que o pão é um alimento divino; que o leite é um alimento essencial porque senão vamos ficar com os ossos e dentes fracos; que as dietas vegetarianas são mais saudáveis que as outras, etc. Realmente a contra-informação que existe a este nível é brutal e já não me surpreende que as pessoas fiquem confusas com aquilo que, na verdade, é bom ou mau. O meu conselho: vejam menos televisão, invistam na vossa educação / formação e leiam, leiam muito.

11) Tendo em conta que o número de pessoas obesas e doentes não tem diminuído com todas estas dietas e recomendações (contar calorias, comer alimentos low fat, optar pelos cereais integrais) se calhar deveríamos olhar com mais atenção para a forma como a nossa espécie evoluiu e aferir o que nos dizem as ciências da nutrição a este nível. A meu ver, é esta a única opção que temos para viver até aos 120 anos de forma ativa, está mais do que visto que aquilo que temos feito até aqui não tem dado resultados fora do “normal”. Sendo o nosso organismo um organismo biológico, é capaz de fazer sentido seguir as leis naturais da biologia (LINK).

12) Os compostos bioativos presentes nos alimentos constituem também uma parte importante em toda esta equação. Por compostos bioativos, entenda-se os fitoquímicos presentes nos alimentos (exemplos: ácido fítico, lectinas, saponinas, fitoestrogénios, resveratrol, quercetina). Estes compostos são tão poderosos que tanto podem ajudá-lo a prevenir doenças e/ou podem contribuir para o aparecimento de doenças. Cada um deles tem uma função e causa um determinado efeito nos diferentes sistemas do nosso organismo, é um erro pensar que todos são bons e/ou que todos são maus, a nossa fisiologia é demasiado complexa para fazermos generalizações desse género. Também já é altura de percebermos que nem tudo o que é “natural” é bom, o veneno presente em alguns animais e plantas é natural mas isso não significa que seja bom para nós!

13) Apesar de ser universalmente reconhecido que o excesso de açúcar (glucotoxicidade) é um dos principais catalisadores no aparecimento da Diabetes tipo II, há também outra hipótese que pode desencadear o aparecimento da doença, a hipótese lipocêntrica (a acumulação de lípidos em tecidos não adiposos – pâncreas, fígado, músculo e coração). Este fenómeno é um caso interessante e parece estar associado à resistência à leptina, a hormona da saciedade. A leptina é uma hormona que interage com o nosso cérebro regulando o nosso apetite e metabolismo, ou seja, quanto pior estiver este sinal, maiores as probabilidades de comermos sem sentir que ficamos saciados – isto é, obviamente, um problema. O Maelán Fontes apresentou alguns estudos a relacionar a resistência à leptina (por via da gordura) com a acumulação de gordura visceral (gordura nos orgãos internos), que é muito mais perigosa que a gordura subcutânea e é um dos factores envolvidos na síndrome metabólica.

14) Hoje em dia sabemos que a resistência à insulina (a insulina é uma hormona produzida pelas células beta do pâncreas que tem, entre outras coisas, um papel fundamental na regulação dos níveis de açúcar no sangue) é um dos principais problemas de saúde na nossa sociedade e como tal algumas pessoas com diabetes têm que levar injeções de insulina como parte do seu plano de tratamento. Ou seja, a destruição das células beta do pâncreas pode comprometer o funcionamento da insulina no seu corpo e levar à diabetes. Aquilo que não sabia é que a disfunção das células alfa do pâncreas, que produzem glucagon (a contra-hormona da insulina) também pode estar implicada no aparecimento da diabetes e da síndrome metabólica. Aliás, o Dr. Roger Unger (citado por Fontes), um dos principais investigadores desta teoria, diz mesmo que “o excesso de glucagon, ao invés da deficiência de insulina, é condição sine qua non da diabetes” (LINK).

Nota do Pedro (Correia): A propósito desta questão da diabetes e do mito existente que não é possível reverter a diabetes, gostaria de dar-vos a conhecer um estudo revolucionário na revista Diabetologia em 2011. Este estudo demonstrou que as pessoas com diabetes tipo II em estado avançado (quando as células beta do pâncreas estão danificadas), conseguem recuperar e reverter a diabetes em apenas uma semana através de mudanças importantes na dieta (esta dieta foi baixa em calorias, à base de plantas e com uma carga glicémica baixa). Os níveis de açúcar e triglicéridos baixaram e o pâncreas recuperou (isto foi medido através de técnicas imagiológicas sofisticadas). Após uma semana foi retirada a medicação, portanto isto só vem confirmar que o papel da dieta é muito mais poderoso que o papel da medicação, e que o nosso corpo é capaz de recuperar quando são oferecidas as condições certas (LINK).

15) O Pedro Bastos é um dos maiores investigadores portugueses em Nutrição e está também a realizar o seu doutoramento em Ciências Médicas na Universidade de Lund (Suécia). Tal como o Maelán Fontes, ele também faz parte do grupo de investigadores da Dieta Paleolítica. Para mim o Pedro Bastos é o José Mourinho da Nutrição, a clareza com que expõe os conteúdos e a sua articulação de pensamento é algo de extraordinário. Quando ele fala (ou escreve) eu sei que vou aprender várias coisas, muita ciência, e este seminário não foi excepção.

16) O Pedro tem dedicado uma quantidade significativa de tempo ao estudo do Leite e dos seus potenciais efeitos nefastos na nossa saúde. Aliás, foi através de uma conferência no Ancestral Health Symposium (disponível AQUI) que eu tive conhecimento do seu trabalho nesta área. Os nossos ancestrais bebiam apenas leite materno (não bebiam este tipo de leite que nós nos habituamos a tomar) e tinham uma boa densidade mineral óssea. Nós somos os únicos adultos que continua a beber leite depois de adultos (ainda por cima de outra espécie).

17) Um pouco de história sobre o leite. A domesticação dos primeiros animais (ovelhas, cabras, gado) teve início há cerca de 10.000 anos atrás no Médio Oriente e a primeira evidência de produçao / utilização do leite surgiu há cerca 8.000 anos atrás na Turquia. Na Europa, a primeira evidência parece ter surgido no Reino Unido e na Roménia há cerca de 7.000 anos atrás.

18) Um pouco de história sobre os grãos e alguns problemas associados. A introdução dos cereais na dieta humana teve início há cerca de 10.000 anos atrás, primeiro com a domesticação do trigo, cevada e arroz, e cem anos mais tarde, com a domesticação do milho. Ou seja, a propagação da agricultura do Médio Oriente não trouxe apenas o leite, mas também os cereais. O consumo elevado de cereais integrais (trigo, aveia, centeio, milho) é utilizado para induzir raquitismo em cães, ratos, galinhas e primatas. Alguns estudos epidemiológicos em populações humanas que comem pão têm raquitismo e deficiência de vitamina D. Isto pode ser explicado por um aumento na eliminação da vitamina D na bílis e por uma maior dificuldade em absorver o cálcio, por causa do conteúdo em ácido fítico e lectinas nos grãos.

19) A persistência mundial dos adultos à lactase (a enzima que degrada a lactose, o açúcar do leite) é de 35%, ou seja, 65% da população adulta mundial é intolerante à lactose. Quem é intolerante à lactose, com certeza que já teve oportunidade de experimentar algum dos seguintes síntomas: obstipação, diarreia, gases e dores de barriga. Devido a algumas mudanças genéticas, a persistência da lactase varia de acordo com a latitude, por exemplo esta é tendencialmente mais elevada nos países situados no noroeste da Europa e mais baixa nos países do sudeste da Europa. No caso de Portugal, a prevalência de lactase é de 37%.

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20) A nossa roda dos alimentos em Portugal não é muito melhor que o prato dos alimentos da USDA, e na verdade quase que me dá vontade de vomitar quando começo a ler as recomendações contidas no folheto informativo (LINK). Melhor informação, mais saúde? A sério? Para quem??? Mais de 50% das calorias que ingerimos em Portugal vêm dos grãos e do leite, alimentos considerados saudáveis pela Direção Geral de Saúde, mas que os povos caçadores recolectores não ingeriam. Mais, eles não consumiam bebidas açucaradas, óleos vegetais refinados, alimentos low-fat, alimentos baixos em calorias, nem qualquer tipo de junk food e/ou alimentos fabricados.

21) Porque o leite é rico em cálcio, costuma recomendar-se o consumo de leite para prevenir a osteoporose. O problema é que os nossos ossos não vivem apenas de cálcio e esta equação não é assim tão simples. Se a nossa dieta for demasiado ácida, o nosso corpo vai acabar por roubar cálcio aos ossos para desempenhar as suas outras funções. Na verdade, os estudos não patrocinados pela indústria do leite, têm demonstrado que não existe nenhuma associação entre o consumo de cálcio e o risco de fracturas, mas sim uma potencial associação positiva entre o consumo de cálcio e o risco de fracturas da anca (LINK). Nós não precisamos do cálcio do leite para nada se consumirmos verduras suficientes (exemplos: couves e brócolos).

22) Outra questão importante é o facto do leite ter um efeito insulinotrópico apesar do seu índice glicémico baixo, isto é, o consumo de leite vai aumentar a segregação de insulina, aumentando também o risco de hipoglicémia reativa. Se há algo que é importante para mantermos os nossos níveis de energia estáveis e envelhecermos com mais saúde, é precisamente evitar estes picos de glicémia durante o dia. Caso não saiba, o seu pãozinho da manhã e/ou do lanche tem um efeito ainda pior sobre a insulina. Nota do Pedro (Correia): Quando ouvir dizer que aquilo que faz mal ou engorda é o que se coloca dentro do pão, mude de canal se estiver a ver televisão e/ou pare de ler imediatamente se estiver a ler um livro de dieta ou algum artigo de revista.

23) O consumo de leite aumenta o IGF-1, uma hormona que promove o anabolismo (i.e. crescimento dos tecidos). Poder-se-á pensar à partida que isto é bom, no entanto, é preciso ter em conta que quando estamos a falar do crescimento dos tecidos, estamos a falar também de um dos mecanismos responsáveis pelo crescimento e proliferação de células cancerígenas, ou seja, no caso dos pacientes com cancro, o consumo de leite pode representar um factor de risco para o desenvolvimento de vários tipos de cancro. Existe uma correlação entre os níveis plasmáticos de IGF-1 e o risco de cancro da mama e da próstata.

24) Existem ainda muitas dúvidas em relação aos verdadeiros efeitos do leite na nossa saúde, existem muitos estudos contraditórios e muitas coisas por investigar. Dificilmente teremos certezas absolutas em relação a isto. De qualquer forma, aquilo que é importante saber é que o seu consumo aparenta ter mais riscos que benefícios e que, do ponto de vista funcional, este “líquido branco” (para citar o nosso amigo Pedro Bastos), não nos aporta melhor qualidade de vida nem mais saúde. Tal como ele, eu também prefiro jogar pelo seguro e deixar esse “líquido branco” na prateleira dos supermercados.

Conclusão

Uma das críticas que se faz à Dieta Paleolítica é que ainda não existem estudos de intervenção em larga escala a suportar os potenciais beneficios desta dieta na nossa saúde. Até à presente data foram efetuados oito estudos aleatórios controlados (LINK, LINK, LINK, LINK, LINK, LINK, LINK, LINK) e todos eles têm mostrado que a Dieta Paleolítica melhora os factores de risco para a doença cardiovascular, induz maior saciedade e maior perda de massa gorda, quando comparada com a dieta recomendada para diabéticos, com a Dieta Mediterrânica e com a  pirâmide dos alimentos (agora prato) da USDA.

Apesar de ainda serem poucos os estudos para dizer categoricamente que esta Dieta é superior às outras, há várias coisas que não nos podemos esquecer: 1) os povos caçadores-recolectores não morriam das típicas doenças crónicas da nossa sociedade, eles eram magros, fortes e nem sabiam o que era uma caloria; 2) hoje já existem muitos relatos de pessoas a testemunhar grandes melhorias na sua saúde e performance graças à adopção de um padrão alimentar com um potencial inflamatório menor que os padrões alimentares “normais”; 3) esta Dieta é muito mais que uma Dieta, é a possibilidade de transição para um estilo de vida mais ativo e menos tóxico, na qual está incluída o exercício físico, os padrões de sono  e a exposição solar.

E uma vez que falamos de Charles Darwin e do fenómeno de selecção natural termino com a seguinte frase da sua autoria:

A ignorância gera confiança com mais frequência do que o conhecimento: são aqueles que sabem pouco, e não aqueles que sabem muito, que tão positivamente afirmam que este ou aquele problema nunca será resolvido pela ciência.

Até breve!

PS – Perdoem-me os “professores” de português em relação à utilização incoerente do novo acordo ortográfico, algumas palavras estarão escritas à antiga e outras não – o problema é que eu ainda não decidi como prefiro escrever!

21 thoughts on “Nutrição Baseada na Evidência e na Evolução – As minhas Notas

  1. Uau .. esse seminário foi muito bom! Pena não haverem mais seminários e partilha de informação desse género, digo, informação útil, científica e não apenas manipulada por interesses económicos e políticos. Já na minha classe, a ordem dos nutricionistas anda mais preocupada com brigas “fúteis”, de nomenclatura de classes e afins, em vez de se preocupar em arranjar estratégias profundas de alterações de estilos de vida no nosso país … e de novas estratégias de educação para as nossas crianças, que estão a crescer no meio de alimentos contaminados e processados!
    Enfim …
    Vou partilhar. Ler o teu artigo “soube-me” a como se estivesse estado lá presente *** 🙂

  2. Parabéns.
    Nota para o leitores: para os que já leram sobre muitas dietas, visitaram muitos nutricionistas (dos menos conhecidos aos mais conhecidos), procuram na TV ou internet informação sobre nutrição e por isso já tiveram acesso a muita informação, quero-vos dizer que esta informação que o Pedro Correia nos vai facultando, nesta escrita que de tão elaborada é compreensível, trata-se do que de mais avançado se conhece relativamente à nutrição e o seu papel nas doenças das sociedades ocidentalizadas.

    Gabo-lhe a dedicação pela dedicação e mais ainda a vontade de fazer aquilo que é mais importante, transmitir de modo compreensível o conhecimento que a ciência produz.

    O segredo da evolução reside em selecionar os novos e antigos conhecimentos e práticas que nos são favoráveis e pôr de parte os que são prejudiciais, em geral e depois em particular.
    Serve para as dietas e outros hábitos instalados que também são prejudiciais.

    É e será sempre essencial que a ciência comprove e demonstre a sua efectividade e utilidade, porém para mim é mais importante pensar que uma vez que o regime Paleo, adaptado ao que há em oferta hoje se assumir como o regime alimentar a seguir na prevenção e correcção de “n” patologias, seguir-se-á a fase da divulgação e implementação do conhecimento num modo praticável.
    A informação fará o seu caminho até às “massas”, mas é importante que chegue com qualidade e bom senso.

    Em grupos e fóruns de apoio e de gente que pratica a dieta paleo podem-se ler receitas (algumas pergunto-me se têm alguma coisa de paleo) e debates complexos e pouco cientificos. No fundo e como aquando do aparecimento de outros conhecimentos/práticas, são estas pessoas que vão criar uma das maiores barreiras entre o mundo paleo e os demais que procuram alguma informação de aplicação prática. Estes últimos assustam-se com a dimensão das mudanças e complexidade do assunto. A mudança por si só gera sempre medo e desconfiança. É claro que haverá sempre o grupo de pessoas mais obcecadas com o assunto, mas é preciso que o primeiro interface do mundo paleo pareça o que é: simples.

    Iniciar uma dieta “a dar” para o paleo é do mais simples que existe. Acreditem que é melhor convencer as pessoas a tentarem um regime alimentar (por alguma razão regime soa-me a fixo e dieta a provisório) “a dar” para o paleo do que dizer-lhes que “daqui para frente este é o vosso mundo e aqui estão as regras”, nem o Adão e a Eva conseguiram . Como em quase tudo, o segredo está em não complicar.

    Temos que perceber que as pessoas como em quase tudo o relevante para o seu bem estar individual e da sociedade (aquilo que interessa) preocupam-se alguma coisa mas de longe não o suficiente para que interfira com aquilo que não interessa mas que na realidade ocupa o tempo e pensamento da maioria.

    E é aqui que aqueles que entendem de Paleo e querem que este regime singre têm de se unir e produzir informação com lanches e pratos que assimilem o que de “bom” há em oferta para a generalidade, com bom sabor, preços acessíveis e de preparação tão rápida e prática como os que preparam ou consomem actualmente. Coisas simples, panfletos do estilo que os médicos e nutricionistas têm em várias formas, feitios e complexidades.

    No mundo da nutrição, saúde pública, produção, processamento e qualidade alimentar há muito para ser feito, mas é importante não olhar para a tarefa como um todo mas como uma tarefa que se terá de desenvolver por fases. Caso contrário, parecerá sempre impossível.

    As mudanças nunca são fáceis mas não têm de ser traumatizantes.

  3. Mais uma vez Pedro, do melhor. Cada vez que cá venho aprendo sempre algo novo.

    Uma nota pessoal: á já algum tempo que venho a fazer a transição da alimentação dita “normal” e “recomendada” para uma alimentação mais proxima da paleo mas, o mais dificil de compreender é quando são os familiares a comentar que o que estamos a fazer está errado. Que uma alimentação sem pão, arroz e massa está errado. No meu caso, é a familia que me assedia diariamente com comida processada e à base de açucar.

    Nota: relativamente ao portugues, é simples de resolver: assumir que vai utilizar o antigo acordo ortográfico. Ponto.

    Cumprimentos.

  4. Parabéns ao Pedro Correia! Num texto simples, directo, assertivo e sem “verdades absolutas” resumiu, integrou e explicou muitas coisas que tenho lido “out of the box”. É para mim mais do que óbvio que a alimentação tem um papel determinante sobre a nossa saúde. Fazêmo-lo diáriamente, várias vezes ao dia e da mesma forma por sermos animais de hábitos. A desinformação é mais do que muita e os profissionais de saúde (como eu) e os especificamente da área da nutrição estão mais do que formatados e condicionados. Infelizmente, também a “ciência” que hoje se pratica em larga escala não é de confiança. Para quem gosta de verdadeira ciência como nós, independentemente dos resultados, é atroz!
    Depois do que aqui expôs, como compreender a absoluta ausência de preocupação com a nutrição de um doente oncológico ou o simplismo do “evite o sal e o café” num doente hipertenso?
    Diabetes, doenças vasculares, obesidade ou doenças oncológicas, por mais que leia e pesquise sobre estes assuntos, a resposta é simples, óbvia e já está descoberta há muito: alimentação e exercicio.

    Um abraço atlântico

  5. Antigamente eu também contava às calorias, pensava que os cereais faziam bem, mas a culpa não era minha, era falta de informação, os artigos sobre a dieta na net não valem nada. Tenho muita sorte em te conhecer. Os teus posts são de 5 estrelas. És uma pessoa atenciosa, sempre ajudas. Obrigado Pedro.

  6. Muito bom o texto, muito esclarecedor.
    Portugal não faz parte do Mediterraneo, por isso tem lógica que não tenhamos essa dieta:) Se compararmos a comida tradicional italiana (não estou a falar de telepizza, lógico), com a nossa comida tradicional vemos bem a diferença. A nossa é muito mais “gorda” e com muita carne e enchidos. E até me arrepio toda quando me dizem que cozido à portuguesa é saudável, só porque é cozido e tem couves!
    Em relação à ingestão de leite, eu evito porque não me sinto muito bem. Para ingerir cálcio, como regularmente couve galega e outras mais escuras, que tem bastante.
    Bom fim de semana!

  7. Pingback: Pão – o último tabu | Senhoras da nossa idade

  8. Isto realmente é muito diferente do que aprendemos na escola e afins. Então, nada de leite e nada de cereais tipo trigo? Ficamo-nos na verdura, fruta e peixe?

  9. Parabéns Pedro! Já te sigo à algum tempo e é um prazer testemunhar não só os ensinamentos que nos trazes bem como saber que existem Portugueses na primeira linha do conhecimento. (Só espero que daqui a alguma tempo não se venha a descobrir que és um sócio maioritário de uma exploração biológica ou assim… lol estou a brincar claro)

    Uma questão: Vi algures que no fim de semana preparavas as refeições da semana, aliás, já não é o primeiro exemplo que contemplo. Como conservas as refeições? Por porções no congelador? Existe algum tipo de alimento que não convém congelar?

    Continua o bom trabalho,
    A saúde do pessoal agradece!!

  10. Gostei do post.

    É interessante como durante as minhas próprias pesquisas aprendo mais aprofundamente sobre as coisas, e aprendo novos conceitos.. vou a este blog pesquiso palavras chave, e encontro sempre algo relacionado com isso.

    O que dá a demonstrar que o Pedro não se deixa levar por coisas assumidas, mas sim ir ao fundo, saber o porquê das coisas e manter-se actualizado.

    Quando ouvi falar da dieta Paleo há uns anitos tentei recusá-la, havia pouca informação, mas cada vez vejo ser a solução a seguir.

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