5 RAZÕES para NĀO contratar um Treinador

no-squats-or-deadlifts-dont-want-to-get-to-big

A culpa é nossa, nós, profissionais do exercício, ainda não fomos capazes de demonstrar que o nosso papel vai mais além de pôr as pessoas a dar saltos e a queimar calorias. Aliás, alguns profissionais do exercício e de saúde, ainda recomendam o exercício físico como a “arma letal” para a queima de calorias.

Deixe-me contar-lhe uma história. Nós somos os culpados de distinguir esta coisa do exercício físico (fazer caminhadas e levantar pesos cor de rosa) e do treino (fazer treino de força e levantar pesos pesados). Não existem princípios do exercício físico, existem princípios do treino. Levantar pesos deve ser um objetivo de qualquer pessoa que inicia um programa de treino. Ninguém fica mais forte sem levantar pesos pesados e há sempre vantagens em ficar mais forte, quer seja um atleta de alta competição ou não. A força é a capacidade física que nós mais vamos precisar ao longo das nossas vidas e a única forma de mantê-la e/ou aumentá-la é através do treino de força!

Muitas pessoas pensam que é um desperdício de dinheiro contratar um treinador para lhes ajudar a atingir determinados objetivos no treino (e na vida) e eu percebo porquê, isto acontece porque a maioria das pessoas não tem consciência daquilo que é treinar e confunde o exercício físico com o treino. Nota do Pedro: eu sei que existem diferentes definições para atividade física, exercício físico e treino, e que isto aprende-se nos cursos de desporto, mas prefiro deixar essas discussões terminológicas para os teóricos da Educação Física, que provavelmente nunca levantaram pesos de forma séria.

A diferença entre “fazer exercício” e “treinar” está na dimensão, propósito e profundidade do objetivo. O exercício físico é feito para gastar energia (i.e. queimar calorias) ou para relaxar depois de um dia de trabalho stressante. O treino é feito para melhorar uma série de funções corporais: estabilidade, mobilidade, força, controle neuromuscular, velocidade, potência, resistência muscular, os diferentes sistemas de energia, etc. O exercício físico é um evento pontual com um objetivo imediato, o treino é um conjunto de eventos irrepetíveis com o objetivo de melhorar a performance no curto / médio prazo. São coisas completamente diferentes. Muitas pessoas fazem exercício físico, poucas treinam.

Portanto, o treino é um processo que obedece (ou devia obedecer) a uma determinada metodologia de trabalho e que deve respeitar a competência de movimento e as progressões naturais do indivíduo. Primeiro é preciso gatinhar para depois começarmos a andar e a correr, e enquanto esta abordagem não for compreendida desta forma, as pessoas não vão sentir a diferença entre treino e exercício físico. A pressa de querer ultrapassar etapas ou pensar que as mesmas não têm importância é aquilo que faz a diferença entre um super atleta e um atleta normal.

Feitas estas pequenas notas prévias, que servem de introdução para o que vem a seguir, aqui estão cinco razões para NÃO contratar um treinador:

1. Você não precisa de fazer uma Avaliação Funcional

Você não está interessado em conhecer verdadeiramente o estado físico em que se encontra e pensa que isto não é preciso quando pretende começar a treinar. Você pensa que este tipo de avaliação pode ser feita através de e-mail, contacta um treinador que já ouviu falar, manda-lhe uma mensagem a dizer que tem 32 anos, que mede 1,70cm, que pesa 70 quilos, que gosta de fazer pilates e zumba e pergunta que tipo de exercícios deve fazer para tonificar. Mais, sabendo que ele também lhe pode ajudar na parte da alimentação e/ou suplementação, pergunta-lhe qual o melhor suplemento para tomar no pós-treino (e isto sem saber em que consiste o seu treino).

A Avaliação consiste em saber o seu ponto de partida – se você não souber onde está, como é que pode saber para onde vai? É preciso recolher dados, é preciso conhecer o seu historial clínico, é preciso saber se tem limitações do foro músculo-esquelético, é preciso avaliar a sua postura, a sua composição corporal, é preciso analisar o seu perfil de movimento, é preciso saber a sua proficiência na execução dos exercícios, é preciso conhecer os seus hábitos alimentares e desportivos, é preciso conhecer o perfil da pessoa que temos à frente, etc. ou seja, é preciso MEDIR vários indicadores para poder desenhar um programa de treino que respeite a individualidade funcional. Tudo isto requer uma intervenção personalizada e só pode ser feita por um profissional competente – sim, isto é um serviço profissional.

Nota do Pedro: Imaginem o que seria recorrer a um médico desta forma, a perguntar o que se deve fazer para tratar a hipertensão, sem conhecer o historial clínico e sem conhecer o estilo de vida da pessoa em causa. Nunca ninguém pensaria duas vezes em contactar um médico por esta via, mas quase toda a gente acha normal seguir esse tipo de abordagem com um treinador. Isto leva-me a pensar que com a doença as pessoas não brincam, mas com a saúde, as pessoas brincam (quase) todos os dias!

2. Você não tem Objetivos

Você não tem objetivos e/ou faz treino de manutenção. Você não quer ficar muito grande/forte e por esse motivo diz que aquilo que quer fazer é manutenção (como se fosse fácil ficar mais forte ou com mais massa muscular, os maiores biomarcadores de longevidade). Vou-lhe contar um segredo: treino de manutenção não existe, ou você está a progredir ou a regredir, não existe uma zona intermédia! O treino de manutenção é para mantê-lo no mesmo estado em que está. Se você quer um programa de treino para progredir não pode fazer a mesma coisa todos os dias, meses e/ou anos. Se você tem feito treino de manutenção desde que se inscreveu no ginásio inibindo o corpo da sua capacidade adaptativa a novos estímulos, como é que você pode esperar que o seu corpo evolua e combata o processo de degradação natural dos músculos e tecidos? Alguém já viu uma definição de treino de manutenção num livro de fisiologia, metodologia de treino ou de treino de força?

Toda a gente tem objetivos e parte do trabalho de um treinador é tentar perceber as necessidades e até os sentimentos mais profundos de cada pessoa. Um bom treinador não pode perceber apenas da dimensão técnica do treino, há muitas mais coisas em equação. Por este motivo o ponto um que falei acima é o mais importante deles todos, se você não precisa de ser avaliado, é provavelmente porque não está interessado em treinar e obter resultados diferentes, o aspeto mensurável do nosso trabalho.

3. Você está satisfeito com os seus Resultados

Você não está interessado em saber os resultados do seu esforço e trabalho no treino, a única coisa que pretende é ir ao ginásio para distrair e/ou para relaxar depois de um dia de trabalho. Você limita-se a seguir uma rotina pré-estabelecida e nem se preocupa em medir as mudanças que ela provoca. E eu percebo, nem todos os dias temos a capacidade para treinar com a mesma intensidade e vontade. Eu sei bem o que isso é e recordo-me perfeitamente quando tinha de entrar na piscina às seis e tal da manhã porque tinha escola às oito. Custava muito entrar na água, principalmente naqueles dias de Inverno em que a água estava fria. A verdade é que teria sido mais fácil ficar na cama a dormir. Mas será sempre mais fácil não fazer nada e não ter objetivos, isto dá-nos a segurança de podermos falhar sem ninguém saber.

Tudo aquilo que faz no treino vai ter reflexo na sua vida profissional: se você não treina com um objetivo em mente, você está a perder o seu tempo; se você não tem objetivos no trabalho, é possível que esteja a fazer perder o tempo (e o dinheiro) de alguém; se você vai ao ginásio e passa o tempo todo a fazer “cardio” nas máquinas, alguma coisa está errada; se você vai trabalhar e passa a maior parte do tempo a tomar cafés e a ver os e-mails, alguma coisa está mal; se você não é capaz de ser disciplinado no trabalho, você nunca vai ser capaz de ser disciplinado no treino.

Quando você inicia um programa de treino, você deve esperar ver resultados diferentes. Se o seu treino lhe dá os resultados que pretende, você não precisa de treinador, se você treina, treina e treina, e continua sempre igual, se calhar será boa ideia procurar ajuda.

4. Você não precisa de Orientação

Apesar dos inúmeros vídeos e páginas de informação que hoje estão disponíveis na internet, alguns com soluções fáceis e milagrosas para os seus objetivos, você está confiante que consegue filtrar e distinguir aquilo que é de facto essencial daquilo que é apenas importante.

Você possui um conhecimento vasto no que diz respeito àquilo que deve fazer no seu treino, se deve seguir uma abordagem de culturista (peito e costas, alguém?), se deve seguir uma abordagem de treino funcional, se deve seguir uma abordagem mais parecida ao CrossFit, se deve seguir uma abordagem baseada nos movimentos do powerlifting e/ou do halterofilismo, se deve seguir uma abordagem baseada no treino com kettlebells e com indian clubs, se deve seguir uma abordagem baseada no TACFIT, se deve seguir uma abordagem baseada no Pilates, no Yoga, se deve seguir uma abordagem baseada na performance desportiva, etc, etc. Além disto, você sabe também como periodizar o seu treino, quando e como é que deve descansar, e qual o método de treino que lhe garante cobrir todas as capacidades físicas que precisa para a sua vida.

Há imensas abordagens que pode seguir, mas se você já é detentor deste conhecimento, se tem tempo para atualizar-se constantemente e sabe como aplicá-lo no seu processo de treino de forma eficaz, provavelmente não necessitará da ajuda de nenhum especialista. Se, pelo contrário, você está confuso com tanta oferta e tanta metodologia diferente, e não sabe qual é o treino mais indicado para aquilo que pretende, o melhor é consultar alguém que perceba do assunto.

5. Você não precisa de Motivação

Você tem o foco, a motivação necessária para seguir um programa de treino de forma consistente e não precisa de ninguém para se manter “accountable”. Uma pessoa naturalmente motivada (estou a falar do tipo de motivação que vemos mais facilmente nos atletas de alto rendimento) é capaz de fazer acontecer qualquer coisa, por muito mais difícil que ela seja.

No entanto, há aqui um fator limitativo importante: ninguém faz nada de grandioso sozinho (e isto é válido para a vida quotidiana e para o treino). Por muito forte que seja a sua motivação intrínseca, haverá sempre momentos em que vai precisar da ajuda de alguém. Pense, por exemplo, naqueles momentos em que não lhe apetece treinar, mas como já tinha feito um compromisso com alguém, você não quer falhar; pense naqueles momentos que sente após ter cumprido um dos treinos mais dificeis da sua vida (isto nunca acontece quando estamos sozinhos!); pense naqueles momentos em que você sente-se a pessoa com mais sorte no Mundo por ter alguém (ou uma equipa) ao seu lado a apoiá-lo(a) e a ajudá-lo(a) a melhorar.

Vou dar o meu exemplo. Eu acho que tenho motivação suficiente para treinar sozinho e julgo que tenho também um conhecimento razoável daquilo que devo fazer para melhorar ao nível do treino e ao nível da minha intervenção com as pessoas. No treino, se eu não tivesse tido os parceiros de treino que tive até hoje, jamais teria evoluido da mesma forma. No meu trabalho, se eu não tiver o suporte de várias pessoas para fazer as coisas que tenho desenvolvido e que pretendo continuar a desenvolver, jamais serei capaz de continuar a crescer.

Em conclusão, se você acha que não precisa de ser devidamente avaliado antes de iniciar um programa de treino, se você acha que não precisa de ter objetivos, se você está satisfeito com os resultados obtidos até ao momento, se você acha que não precisa de orientação para saber o que é mais indicado para si, e se você acha que não precisa de motivação para treinar de forma consistente, você NUNCA vai precisar de um treinador.

Até breve!

12 thoughts on “5 RAZÕES para NĀO contratar um Treinador

  1. Gostei muito do post! Parabéns.

    Cumprimentos Pedro Pinho

    No dia sábado, 29 de Março de 2014, Functional Performance Training escreveu:

    > Functional Performance Training posted: ” A culpa é nossa, nós, > profissionais do exercício, ainda não fomos capazes de demonstrar que o > nosso papel vai mais além de pôr as pessoas a dar saltos e a queimar > calorias. Aliás, alguns profissionais do exercício e de saúde, ainda > recomendam o exercí”

  2. O artigo está de facto muito bom. Não obstante lamento o seu ataque aos licenciados em educação física. Creio que estamos todos do mesmo lado no que à promoção da saúde diz respeito. Lá terá as suas razões mas creia que foi muito pouco educado da sua parte. Ass . Sandra Nóbrega, licenciada em educação física e desporto pela FMH a levantar pesos há muitos anos🙂

    • Olá Sandra,

      Não foi minha intenção atacar ninguém, eu também sou licenciado em Educaçao Física e Desporto. A minha única inquietação é que às vezes perdemo-nos em discutir conceitos e falhamos em dar o exemplo neste tipo de coisas, há muitos professores de Educação Física obesos e em má forma.

      Cumprimentos.

  3. Pedro, sou um leitor seu aqui do Brasil. Gosto muito dos seus textos. Uma pergunta: você sempre fala muito da diferença de treino de força para treino de hipertrofia e eu concordo muito com você. Mas você nunca deu um exemplo sobre treino de força. Será que você não se interessa em escrever um artigo sobre o treino de força, com exemplos, dicas etc.? abraço

  4. Olá Pedro,
    Conheci o teu blog à poucos dias e, com deveras entusiasmo, já li algumas publicações.
    Como leigo que sou, o teu trabalho é uma mais valia para mim que toda a vida me interessei por exercício físico / treino. Mas tenho ficado chocado como alguns leitores são grosseiros e agressivos com a seriedade do teu trabalho. A agressividade não tem desculpa, mas no mínimo é sinónimo de ignorância. Nesse sentido, ainda me entristece mais quando as ofensas vêm de profissionais do exercício. Só demonstra a mentalidade fechada que ainda existe no nosso país, só se pode evoluir com uma mente aberta, pontos de vista é uma coisa, agora dizer que o verde não tem valor só porque sou “fanático” pelo vermelho, é ridículo.
    Entre outras actividades, pratiquei atletismo / corrida dos 14 aos 18 anos de idade, mas foi no powerlifting que obtive os melhores resultado com cerca de 24 anos de idade. Não tenho dúvidas nenhuma que meus feitos só foram alcançados porque tive um treinador que soube planificar um treino, coisa que até então para mim nunca tinha existido. Pela primeira vez entendi que era importante a planificação, que era importante treinos leves / moderados / intensos, descanso, nutrição. Um aparte, o meu testemunho também desmascara o mito que levantar pesos é só para os “grandalhões”, na época pesava 52 quilos e competia na categoria até 52 quilos que hoje já não existe juntaram-na com a de 56. Não fui nenhum campeão, mas fiz umas marcas engraçadas como 132 quilos no agachamento e 155 peso morto. Infelizmente, parei a prática e, mais tarde, lamento ter abandonado o treino com cargas… Tive inactivo alguns anos, tendo recomeçado com alguma prática de exercício físico como flexões / elevações na barra fixa, TRX…
    Agora com 47 anos, há uns meses interessei-me por corrida, porém, ao ler o teu trabalho, e ao reflectir, conclui que vou começar a favorecer muitos exercícios funcionais de força.
    Podemos ser viciados no desporto, mas mais importante é beneficiar sempre a saúde.
    Não tenho possibilidades de recorrer um profissional do exercício, mas recomendo a quem tiver possibilidades que recorra sempre a um treinador certificado, faz toda a diferença.
    Obrigado Pedro pelo teu trabalho, feliz 2015.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s