Que Futuro para a Educação Física?

Nick Wasik

“Nenhum cidadão tem o direito de ser um amador em relação às questões do treino físico…que desgraça seria para um homem envelhecer sem nunca ver a beleza e a força que o seu corpo é capaz.”

– Sócrates (469 a.C. – 399 a.C.)

No início deste ano foi noticiado no jornal Público que a Educação Física nas escolas era o elo mais fraco e que os professores de Educação Física estavam indignados com aquilo que estava a acontecer à disciplina. Segundo aquilo que sei os professores já estão indignados há muito tempo com esta situação e eu percebo porquê, ninguém no seu perfeito juízo poderia pensar que a disciplina de Educação Física é menos importante que a Matemática ou que o Português. A questão é esta: será que para termos uma sociedade evoluída podemos vilipendiar o papel da Educação Física na formação dos nossos alunos? Será mais importante termos seres humanos obesos/doentes e com hábitos de vida sedentários ou seres humanos em boa forma física com hábitos de vida saudáveis? Pense nisto por um momento: quais serão aqueles seres humanos que terão maior probabilidade de contribuir para o enriquecimento da nossa cultura? Sim, estou a falar de cultura.

Num estudo efectuado pela Faculdade de Motricidade Humana entre 2007 e 2012 (em 3000 alunos do 3º ciclo de 13 escolas do Concelho de Oeiras), verificou-se que os alunos que fizeram mais exercício físico tiveram um maior aproveitamento nas disciplinas de Matemática, Português, Ciências e Inglês. Noutro estudo (LINK) publicado pelo British Journal of Sports Medicine em 2013, verificou-se algo semelhante, a performance a longo prazo dos alunos melhorou quando os mesmos fizeram exercício físico diário moderado e vigoroso. Estes estudos devem dar suporte à ideia que a Educação Física tem um papel fundamental no desenvolvimento equilibrado de um ser humano. Provavelmente um ser humano mais competente do ponto de vista físico será também um ser humano mais competente do ponto de vista intelectual, social e emocional.

O médico psiquiatra John Ratey da Harvard Medical School refere que o exercício físico é a ferramenta mais poderosa que temos à nossa disposição para otimizar a função cerebral e para combater a depressão. A premissa é esta: o exercício físico (i.e. o movimento) vai causar a libertação de várias hormonas, neurotransmissores e factores de crescimento que vão melhorar o ambiente interno do cérebro. Se você está interessado em saber mais sobre isto, eu não posso deixar de recomendar o seu livro Spark: The Revolutionary New Science of Exercise and the Brain e/ou esta TED Talk de 10 minutos.

9k=

E agora você pergunta (com a natural preocupação de uma mãe ou pai que deseja o melhor para os seus filhos) – será que o meu filho precisa de jogar futebol nas aulas de Educação Física para se converter num ser humano mais equilibrado? Será que o meu filho precisa de ser um aluno exemplar na execução de uma habilidade técnica específica de uma determinada modalidade desportiva, como por exemplo um lançamento na passada no basquetebol? A minha opinião em relação a isto é esta: o objetivo da Educação Física não é expôr os alunos a bolas de diferentes tamanhos e a diferentes modalidades desportivas na esperança que eles venham a gostar de fazer desporto. Eu não digo que isto não possa acontecer com a finalidade de introduzir alguma variedade nas aulas, mas isto não pode ser de forma alguma o objetivo central das aulas de Educação Física, há coisas mais importantes para fazer.

A Educação Física não é futebol, não é basquetebol, não é voleibol ou qualquer outra modalidade específica. Estas modalidades e o treino das respetivas habilidades técnicas específicas “treinam-se” nos Clubes Desportivos. Este modelo baseado no Desporto não está a resultar. Este tem sido o modelo predominante nos últimos anos e a julgar pelos níveis de obesidade em crianças (LINK) e adultos (LINK) isto não parece estar a resultar. A maior parte dos adultos de hoje que seguiram este modelo são obesos, diabéticos, sedentários e provavelmente nem reconhecem o valor da disciplina de Educação Física nas escolas (e por isto é que esta disciplina é vista  de uma forma recreativa!). As pessoas ainda pensam que o simples facto de ter os seus filhos a praticar desporto é saudável. Mas será saudável vermos pessoas que tiveram uma prática desportiva acentuada enquanto jovens converterem-se em indívíduos sedentários quando são adultos? Será saudável vermos individuos obesos a jogar futebol ou qualquer outra modalidade desportiva que exija uma competência de movimento mínima e uma capacidade física razoável para tolerar o stress que é imputado ao seu sistema músculo-esquelético? Provavelmente não.

Disclaimer: Como esta poderá ser a primeira vez que o leitor aterra neste blogue, eu não estou a sugerir de forma alguma que a culpa de vermos tantas pessoas gordas e doentes hoje em dia tenha a ver somente com a falta de exercício físico, a causa é multi-factorial. Como deve calcular a nutrição tem um papel básico a este nível (eu acredito que isto é um bom começo: 7 Mentiras sobre Nutrição que estão a tornar as pessoas mais gordas e doentes).

O objetivo das aulas de Educação Física deverá ser educar os alunos no sentido de criarem hábitos de vida saudáveis, começando por melhorar a sua Literacia Física (este conceito é bem mais vasto que dar uns saltos e uns pontapés na bola). Nós precisamos de abrir as vias de aprendizagem motora dos nossos alunos, o facto de vivermos hoje em dia num ambiente em que não é necessário ter um corpo em bom estado para sermos bem sucedidos, leva grande parte das pessoas a pensar que a prática de exercício físico não é fundamental. Hoje os jovens e adultos movem-se cada vez menos e cada vez pior. O ambiente a que nós estamos expostos fomenta o sedentarismo e a doença. Mas a verdade é que a prática de exercício físico é fundamental para sermos um ser humano equilibrado, ou seja, quando olhamos para a história do nosso corpo, constatamos que o mesmo desenvolveu-se com o movimento – nós não estamos adaptados ao sedentarismo e à obesidade.

Na minha opinião, a Educação Física precisa de emergir para um Modelo baseado na Saúde, na qualidade de Movimento e no Desenvolvimento atlético. Neste modelo os alunos aprendem as bases dos vários padrões de movimento, os princípios básicos de fisiologia do exercício, de anatomia funcional, os princípios básicos de uma nutrição saudável (podemos pedir ajuda a nutricionistas), treinam as diferentes capacidades físicas (força, potência, resistência, velocidade, agilidade, coordenação) relacionadas com a sua performance na vida e não apenas nas suas modalidades – estas coisas são mais valiosas a longo prazo que aprender um lançamento na passada ou que fazer um passe com a parte externa do pé.

Obviamente que a estrutura das aulas deveria ser adaptada em função das idades dos alunos, por isso o ideal seria começar através de jogos, de circuitos, com um maior enfoque no desenvolvimento das habilidades motoras básicas (nos diferentes padrões de locomoção, na estabilidade corporal, na manipulação/controle de objetos, na percepção espacial e cinestésica) e evoluir no ensino secundário para o aperfeiçoamento dos padrões de movimento fundamentais, para o desenvolvimento das diferentes capacidades físicas e para a integração de alguns princípios básicos de nutrição, de fisiologia e de anatomia funcional. Desta forma, os alunos que não praticam desporto, estariam motivados para aprender como é que deveriam cuidar do seu corpo para o resto das suas vidas e os alunos desportistas estariam motivados para melhorar a sua performance desportiva. Assim, todos os alunos poderiam melhorar por razões individuais e, em poucas décadas, teríamos adultos que iriam valorizar os ensinamentos das aulas de Educação Física na promoção da sua saúde e da sua performance.

É por este impacto positivo na Saúde que eu acredito que este Modelo de Educação Física tem o potencial para se tornar na disciplina mais importante na vida de uma pessoa. E se você não acredita em mim, olhe em seu redor (mesmo na sua família) e contabilize o número de pessoas que estão obesas, doentes, debilitadas, sarcopénicas, com dores nas articulações, com dores nas costas, deprimidas, e que não sabem o que fazer quando precisam de resolver os seus problemas físicos.

“Todos aqueles que meditaram sobre a arte de governar a humanidade ficaram convencidos que o destino do império depende da educação de cada pessoa.”

– Aristóteles (384 a.C.- 322 a.C.)

Para a nossa sociedade e cultura evoluírem, nós precisamos de seres humanos saudáveis, nós precisamos de pessoas com capacidade de resolver os seus problemas físicos e com uma atitude pró-ativa no que diz respeito à sua saúde. Nós não precisamos de políticos incompetentes (e fisicamente iletrados) a ditar se a Educação Física deve ou não contar para a média de um aluno, sem que percebam as consequências devastadoras que essas decisões podem ter na evolução cultural da nossa sociedade e humanidade.

Até breve!

Desenvolvimento Atlético a Longo Prazo – Parte 3

“Não se trata de reconhecer o talento. Nunca tentei encontrar alguém que tenha talento. Primeiro, trabalhas os fundamentos e rapidamente descobres onde vão as coisas”.

Robert Lansdorp,treinador de ténis de vários jogadores que foram número um do mundo: Pete Sampras, Tracy Austin e Lindsay Davenport.

No último artigo destacamos dois factores que podem influenciar este Modelo: a Regra das 10.000 horas, como sendo o número “mágico” a atingir para ser considerado um especialista em qualquer desporto / actividade e as Janelas de Oportunidade, identificadas como os períodos sensíveis / críticos para o treino de várias habilidades (velocidade, resistência, mobilidade, força, potência, etc.), com algumas diferenças para rapazes e raparigas. Por exemplo, se não começamos a treinar a velocidade ou qualquer movimento balístico quando os jovens têm 6/7 anos, que é quando surge a primeira janela da velocidade, já estamos limitando a capacidade dos nossos futuros atletas.

Gostaria de destacar mais 3 factores: Especialização, Idade de Desenvolvimento e Periodização.

3. Especialização.  

Os desportos podemos ser classificados em função da sua natureza. Os desportos de especialização precoce incluem os desportos artísticos e acrobáticos tais como a ginástica e a patinagem artística. Estes distinguem-se dos desportos de especialização tardia porque as habilidades a aprender são muito complexas e, por esse motivo, têm que ser ensinadas antes da puberdade. Segundo Tudor Bompa, em Total Training for Young Champions, o período para começar a especialização nestes desportos costuma ser entre os 9 e os 11 anos.

A maioria dos outros desportos são de especializção tardia, no entanto, cada desporto deve ser analisado individualmente, utilizando os dados normativos nacionais e internacionais. Num programa desportivo bem estruturado, no qual se fomenta o desenvolvimento dos FUNDAMENTOS, os atletas com 12-15 anos não só têm a opção de escolher qualquer desporto de especialização tardia, como também têm o potencial para chegar ao máximo rendimento nesse desporto.

4. Idade de Desenvolvimento. 

Recordo-me de falar nisto na parte 1 desta série. A Idade Cronológica refere-se ao número de anos e dias passados desde o nascimento. Crianças da mesma idade cronológica podem diferir em vários anos, quando comparadas com o seu nível de maturação biológica. A Idade de Desenvolvimento ou Idade Biológica refere-se ao grau de maturidade física, mental, cognitivo e emocional. Para realmente medir a idade de desenvolvimento de uma criança, devemos olhar para o seguinte: desenvolvimento do esqueleto, desenvolvimento sexual, velocidade de crescimento, padrões de movimento funcionais, habilidades de movimento básicas e avaliações desportivas específicas.

Num Modelo de Desenvolvimento Atlético a Longo Prazo, requere-se a identificação da idade biológica com a finalidade de podermos estabelecer uma preparação óptima com programas adequados de treino e competição. Na actualidade, os programas de treino e competição baseiam-se na idade cronológica, no entanto, atletas entre os 10 e 16 anos, podem ter uma diferença de 4 ou 5 anos em relação à sua idade de desenvolvimento.

Já sei o que estão a pensar, “este gajo tá a repetir a mesma conversa de sempre, já sabemos que os jovens têm diferentes períodos de desenvolvimento mas o sistema que temos é este e temos que trabalhar com este”. Este tem sido um dos principais problemas na forma como está organizada a prática desportiva na maioria das modalidades.

Mas como nunca me conformei com esta situação, fui à procura de respostas.

É verdade que mudar o sistema não depende apenas de nós, mas mudar a forma de pensar e treinar sim. Existem hoje em dia ferramentas que nos permitem estimar a velocidade de crescimento dos nossos atletas, um dos principais indicadores da idade biológica.

O sistema Growmetry, desenvolvido em 2008 pelos médicos austríacos Dr. Zwick e Dr. Kocher, pode ser encontrado em www.growmetry.com e representa, sem dúvida, uma solução acessível para as escolas e clubes que pretendem implementar um Modelo de formação individualizado.

5. Periodização. 

A ideia de estruturar o treino em períodos, surge na Antiga Grécia, na época dos antigos Jogos Olímpicos, no entanto reconhecemos Matveyev (1964) como o pai da periodização, propondo a divisão do processo de treino em fases (anos, meses, semanas e dias) com o objetivo de optimizar o rendimento dos atletas.

No contexto deste Modelo a periodização liga a etapa em que se encontra o atleta com os requisitos dessa etapa. Ou seja, não podemos usar o mesmo modelo de periodização para um jovem que se está iniciando no desporto e para outro jovem que está numa fase de competição. As exigências do treino em volume, frequência e intensidade são completamente distintas. No primeiro caso, o que mais importa, mais que qualquer outra coisa, é criar uma paixão pelo desporto. No segundo caso, o mais importante é planificar as fases de preparação geral, específica, pré-competição, competição e transição.

A terminologia que se costuma utilizar para diferenciar os vários períodos de treino são: macrociclos, mesociclos e microciclos. Segundo este Modelo, os macrociclos constituem os blocos maiores (2-4 meses); os mesociclos são intermédios (3-4 semanas) e os microciclos são os blocos mais pequenos (1 semana).

Tal como vejo as coisas, os factores que enumerei ao longo desta série dedicada a esta temática são imprescindíveis quando temos a responsabilidade de estruturar programas desportivos nas escolas, clubes e qualquer escola de formação.

Até breve!

Pedro Correia

Referências

Janet L. Starkes; K. Anders Ericsson (2003). Expert Performance in Sports. Advances in Research on Sport Expertise.

Long Term Athlete Development. Canadian Sport for Life Resource Paper (2011).

Manual TPI Junior Coach level 3 (2010).

Tudor Bompa (2000). Total Training for Young Champions.

Desenvolvimento Atlético a Longo Prazo – Parte 2

Os campeões não se constroem no ginásio. São feitos de algo que trazem dentro de si mesmos – um desejo, um sonho, uma visão. Os campeões têm que ter habilidade e vontade. Mas a vontade deve prevalecer sobre a habilidade. Ninguém consegue vencer sem vontade.”

Muhammad Ali

No último artigo fizemos uma breve introdução ao Modelo de Desenvolvimento Atlético a Longo Prazo, explicando a importância de desenvolver as habilidades de movimento básicas em todos os jovens que se iniciam no desporto e que estas deverão ser tidas em conta quando se estruturam  programas de formação para os mesmos. As habilidades de movimento básicas são a base do desporto e se não as trabalhamos nas idades apropriadas, estamos reduzindo o potencial de formar atletas de classe mundial.

Já sabemos que os jovens precisam de passar por um programa multilateral, no qual se estimula a prática de diversas actividades como correr, saltar, lançar, chutar, golpear, apanhar, etc., mas este é apenas um factor a ter em conta neste Modelo. Que outros factores existem?  Existem vários, mas para já temos o suficiente com dois:

1. Regra das 10.000 horas

Vários estudos dizem que é preciso um mínimo de 10 anos e de pelos menos 10.000 horas de treino para que um atleta chegue a um nível de elite. Isto significa que é preciso treinar ou competir mais de 3 horas diárias durante dez anos. Esta regra não é aplicável apenas ao desporto. Sabemos que em qualquer domínio das nossas vidas, para ser considerado um especialista, temos que investir uma significativa quantidade de tempo. Malcolm Gladwell, no seu livro Outliers, um dos livros mais curiosos que li até hoje, fala-nos de vários exemplos em distintos âmbitos como a música e informática. Sabemos que Mozart, os Beatles, Bill Gates, Warren Buffet, Federer, Tiger Woods, Bobby Fischer, Miguel Ângelo, Picasso, etc., todos dedicaram mais de 10.000 horas para que pudessem destacar nas suas actividades. Ou seja, se queres sobressair em algo este é o número mágico a atingir para ser considerado um especialista.

Agora, podes estar a perguntar: Mas isso também depende do tipo de treino, certo? E a resposta é: Claro! Por exemplo, no golfe, se estás a bater bolas sem parar no driving range durante várias horas, podes pensar que estás treinando mas na verdade aquilo que estás a fazer é bater bolas. Nao estás a treinar absolutamente nada! Qual é a diferença? Estás pensando se queres bater uma bola baixa, alta, média, com draw, fade, ou recta? Estás pensando na zona de aterragem da bola? Estás fazendo a representação mental do que pretendes fazer? Não me parece…, tendo em conta aquilo que costumo ver!

Quando digo treinar, refiro-me ao conceito de prática deliberada – actividades especificamente desenhadas para melhorar o nível actual de rendimento, que requerem esforço e concentração, normalmente com a ajuda de um professor. Um exemplo: Quando Tiger Woods pisa as suas próprias bolas no bunker para treinar pancadas com este lie, isto chama-se prática deliberada, isto é, Tiger isola um elemento específico daquilo que faz e treina até melhorar, para depois passar a outro(s) elemento(s).

Na minha opinião há três ingredientes que separam os bons atletas dos grandes atletas: Paixão, Talento e Trabalho intensivo.

2. Janelas de Oportunidade

Sabemos que durante o seu processo de desenvolvimento, os jovens passam por períodos sensíveis / críticos para o treino de várias habilidades, isto é, os  seus corpos estão mais receptivos para determinadas habilidades devido à mudança da velocidade de crescimento.

Balyi e Way em 2005, indicaram cinco qualidades com períodos de treino óptimo, às quais acrescentamos outra informação mais actualizada de Zwick, Kocher y Leistritz:

1. Resistencia (Stamina)

  • Resistencia I – Ocorre no início da idade de lançamento do Pico Velocidade Altura (PVA), normalmente entre os 12 e os 16 anos. Aqui é quando o sistema cardiovascular dos atletas começa a estar preparado para o treino de resistência. Por exemplo, um jovem de 16 anos tem três vezes mais VO2 máx. do que quando tinha 5 anos.
  • Resistencia II – Normalmente ocorre entre os 18 e os 22 anos. Atenção, quando falamos de treino de resistência, não estamos falando necessariamente de corridas de média / longa duração como toda a gente pensa. Existem dois tipos de cardio: anaeróbico e aeróbico, recomenda-se treinar ambos.

2. Força

  • Rapazes – 12-18 meses depois do PVA parece ser o mais seguro já que as placas de crescimento podem estar ainda em processo de fusão. Uma vez que chega a puberdade, os rapazes têm uma concentração de testosterona 10 vezes superior às raparigas. Isto permite que os rapazes possam rapidamente aumentar o tamanho dos músculos através da hipertrofia. A idade média do PVA nos rapazes costuma ser aos 14 anos.
  • Raparigas  – Têm duas janelas. Força I – imediatamente depois do PVA. Força II – no início da menarca (final da puberdade). A idade média do PVA nas raparigas costuma ser aos 12 anos. E não, isto não significa que as raparigas vão ter os mesmos músculos dos rapazes! A testosterona é uma das principais hormonas para aumentar o volume muscular e as mulheres têm 10 vezes menos. Aquilo que vemos nas revistas de musculação deve-se ao consumo de outras coisas…!

3. Velocidade – Na minha opinião, a mais importante de todas! 

  • Velocidade I

Rapazes, entre os 7 e 9 anos; Raparigas, entre os 6 e 8 anos.

Aqui o enfoque deve ser na agilidade, mudanças de direcção, velocidade linear, lateral e multidireccional. A duração dos intervalos deve ser inferior a 5 segundos.

  • Velocidade II

Rapazes, normalmente entre os 13-16 anos; Raparigas, normalmente entre os 11-13 anos.

Aqui o enfoque deve ser na capacidade anaeróbica, velocidade linear e multidireccional. A duração dos intervalos deve situar-se entre os 5 e 20 segundos, para que as fibras de contracção rápidas possam ser utilizadas.

4. Habilidade Específica

  • Habilidade I

–  Rapazes, normalmente 9-12 anos; Raparigas, normalmente 8-11 anos. Aqui o enfoque deve ser no desenvolvimento e aperfeiçoamento  das habilidades de movimento básicas. Esta etapa marca o início do desenvolvimento das habilidades específicas da modalidade.

  • Habilidade II

–  Rapazes e Raparigas: 14-18 anos. Aqui é quando os treinadores têm a oportunidade de aperfeiçoar a técnica de cada desporto, depois do PVA. A capacidade cognitiva dos jovens está mais receptiva que nunca.

5. Mobilidade

  • Mobilidade I –  A primeira janela ocorre entre os 6 e 10 anos.
  • Mobilidade II – A segunda janela ocorre entre os 12 e 16 anos.

Quando nascemos não temos nenhuma estabilidade mas temos muitissima mobilidade. Por isso, vemos as crianças cair constantemente quando tentam caminhar ou apanhar algum brinquedo. O que acontece é que à medida que crescemos, vamos perdendo mobilidade. Este é o processo natural. Por exemplo, a título de curiosidade, o treinador Michael Boyle recomenda que se deve trabalhar a mobilidade uma vez por semana por cada década de vida e sobre a mesma percentagem de tempo (ex: 50 anos, 5 dias por semana; 50% da sessão de treino.)

Tanto os rapazes como as raparigas passam por grandes mudanças durante a puberdade e isto pode afectar a sua mobilidade para o resto das suas vidas. A sua morfologia muda por várias razões: 1) os ossos largos crescem primeiro e não ao mesmo tempo; 2) os seus músculos têm mais tensão porque os ossos estão crescendo mais rápido; 3) a massa muscular aumenta devido à produção de hormonas e 4) as placas de crescimento tornam-se mais finas. Em suma, uma mobilidade reduzida pode desencadear várias limitações e lesões.

Integração 3D / Percepção

Além destas 5 qualidades, devemos considerar outra que se chama Integração 3D (Percepção), introduzida pelo Dr. Ernst Zwick num seminário do Titleist Performance Institute. Hoje em dia sabemos que a propriocepção vai na direcção contrária durante a puberdade. É por isto que os jovens usam demasiado a visão para que se possam orientar no espaço. Actividades como a ginástica, saltos de trampolim, escalada e campos de cordas podem ajudar a melhorar a percepção espacial e corporal. As idades mais favoráveis para desenvolver esta habilidade estão situadas entre os 12 e 16 anos.

Potência

Finalmente, a última janela de oportunidade num Modelo de Desenvolvimento a Longo Prazo é a Potência, que ocorre quando os atletas têm mais de 18 anos e têm uma base sólida de força e velocidade. Com o conhecimento das técnicas necessárias para efectuar execícios pliométricos e levantamento olímpico – fundamentais para desenvolver a potência explosiva – temos todos os ingredientes para formar um GRANDE ATLETA.

Na parte 3, indicarei mais três factores a ter em conta, quando estruturamos programas de formação para jovens.

Até breve!

Pedro Correia

Referências

Daniel Coyle (2009). The Talent Code: Greatness Isn’t Born. It’s Grown. Here’s How. 

Geoff Colvin (2010). Talent is Overrated.

Janet L. Starkes; K. Anders Ericsson (2003). Expert Performance in Sports. Advances in Research on Sport Expertise. 

Manual TPI Junior Coach level 2 (2010).

Matthew Syed (2011). Bounce: The Myth of Talent and the Power of Practice: Beckham, Serena, Mozart and the Science of Success.

Desenvolvimento Atlético a Longo Prazo – Parte 1

“Desde a infância até à idade adulta, as pessoas passam por diferentes estágios: pré-puberdade, puberdade, pós-puberdade e maturidade. Para cada estágio de desenvolvimento, há uma fase correspondente de treino atlético.”

Tudor Bompa

O modelo de Desenvolvimento Atlético a Longo Prazo (em inglês Long Term Athletic Development), originalmente perfilado por Istvan Balyi na década de 90, baseia-se no desenvolvimento mental, físico, emocional e cognitivo das crianças / jovens, onde cada etapa corresponde a um determinado período de aprendizagem.

Infelizmente, o que vemos na maioria das escolinhas / clubes (golfe, futebol, ténis, basquetebol, natação, etc.) é que se começa a ensinar demasiado cedo as habilidades específicas de cada modalidade, sem desenvolver convenientemente as habilidades de movimento básicas (correr, saltar, lançar, chutar, golpear, etc.). O que acontece é que esses jovens como não têm uma base atlética sólida que lhes permita evoluir de uma forma sustentável no desporto, acabam por abandonar ou até mesmo continuar mas sem conseguir obter grandes resultados.

Por exemplo, se fizermos uma analogia com a construção de uma casa, primeiro tenho que assegurar-me que a qualidade do solo é boa, que o material que se está utilizando é adequado, que os pilares estão nos sítios onde têm que estar, etc., para no final colocar o telhado…Se não forem tidos em conta estes passos a estrutura não vai ser sólida.

O que são as habilidades de movimento básicas? São padrões gerais de movimento que combinam dois ou mais segmentos do corpo. De acordo com o Dr. Vern Seefeldt, director do Youth Sports Institute na Universidade de Michigan, estas são a base do desporto e podem ser divididas em 4 categorias.

1. Habilidades Locomotoras – Correr, Saltar, Skipping, Esquivar-se, Sprintar;

2. Habilidades de Estabilidade – Agilidade, Equilíbrio, Coordenação, Velocidade;

3. Habilidades de Manipulação / Controle de Objectos – Lançar, Chutar, Golpear, Apanhar, Fintar; Driblar.

4. Percepção (Awareness) – Percepção Espacial, Percepção Quinestésica / Táctil, Percepcão do Corpo.

A maioria dos especialistas diz que aquelas crianças / jovens que desenvolvem uma melhor base de todas estas habilidades, irão desenvolver as habilidades específicas do seu desporto de forma mais rápida e chegarão a um nível mais elevado.

Normalmente, as habilidades de movimento básicas devem ser desenvolvidas entre os 6 e os 9 anos, mas na verdade podemos começar antes, sempre que mantenhamos como principios básicos a diversão e a prática de jogos variados. Não nos podemos esquecer que os jovens começam a praticar desporto para divertir-se! Muitas vezes, nós, adultos, temos tendência para complicar as coisas.

E atenção, disse normalmente porque sabemos que nem todos os jovens têm a mesma idade de desenvolvimento. Abordarei este tema noutra ocasião.

O problema que se verifica em grande parte destas escolas / clubes é que os seus programas de formação fomentam em demasia a prática de habilidades específicas, quando aquilo que importa é estimular uma formação multilateral com a prática de várias actividades. É incrível a quantidade de jovens que praticam um determinado desporto e que nao sabem coordenar movimentos tao básicos como correr, saltar, lançar, golpear, chutar. Para não falar de nós, adultos!

A filosofia de trabalho quando trabalhamos com jovens deve ser: formar grandes atletas primeiro e grandes desportistas depois.

Na parte 2 abordarei os principais factores que influenciam o Modelo de Desenvolvimento Atlético a Longo Prazo.

Até breve!

Pedro Correia

Referências

Tudor Bompa (2000). Total Training for Young Champions.

Manual TPI Junior Coach level 2 (2010).