Entrevista Sandro Freitas – Treino da Flexibilidade e Alongamento

Nesta entrevista com o professor e CEO da Gnosies, Sandro Freitas, abordamos o Treino da Flexibilidade, um dos temas que tem gerado alguma controvérsia entre os profissionais do exercício nos tempos mais recentes.

Num post que publiquei aqui no ano passado, fiz questão de abordar alguns dos aspectos mais recorrentes no que diz respeito aos reais benefícios dos alongamentos. Muitos profissionais e atletas ainda pensam que existem verdades absolutas neste campo e que é preciso treinar de forma específica esta capacidade física. No entanto, isso não corresponde àquilo que tenho observado na prática, pelo simples facto que existem muitas variáveis e uma delas tem a ver com o perfil de movimento funcional de cada indivíduo.

Estas foram algumas das questões abordadas nesta entrevista:

Início. Para quê que serve o Treino da Flexibilidade? (nota do Pedro: acham que a capacidade de produzir força tem alguma coisa a ver com isto?).

2′ 20”. O que nos diz a evidência científica nesta área e as investigações efetuadas pelo autor na Faculdade de Motricidade Humana (FMH)? Segundo Freitas, a intensidade do alongamento tem sido uma variável de treino menosprezada por grande parte dos investigadores e tem uma importância fundamental nas adaptações dos tecidos. Ou seja, é mais importante normalizar a intensidade de alongamento que o tempo de alongamento. E faz todo o sentido que assim seja!

7’12”. Será que devemos fazer alongamentos estáticos antes de fazer treino de força / potência…?

10’35”. É verdade que para assistirmos a uma deformação plástica dos tecidos, devemos alongar quando os músculos estão frios? Esta, por exemplo, parece ser uma questão que carece de evidência científica, no entanto, alguns especialistas em tecidos moles dizem, que, quando alongamos com os músculos quentes, os mesmos voltam ao tamanho normal. Este estudo diz-nos que a inclusão de um exercício de aquecimento antes do alongamento não parece aumentar significativamente a eficácia do alongamento estático dos isquiotibiais.

14’30”. Que instrumentos / ferramentas têm os profissionais do Exercício à sua disposição para medir a Flexibilidade?

20’30”. Que populações específicas podem beneficiar de um programa de treino periodizado da Flexibilidade?

Sem mais demoras, vejam a entrevista e fiquem a conhecer as respostas a estas e a outras questões, na palavra de um dos investigadores portugueses que mais horas tem dedicado ao estudo da Flexibilidade.

Até breve!

Entrevista Pedro Bastos – Dieta Paleolítica

No âmbito de uma parceria que estabeleci com a entidade formadora Gnosies, queria partilhar convosco uma entrevista que fiz ao Pedro Bastos, um dos maiores investigadores portugueses em Nutrição e uma das pessoas mais fascinantes que tive a oportunidade de ouvir e conversar.

O Pedro Bastos é CEO da Nutriscience – Education and Consulting, uma empresa de formação e consultoria em Ciências da Saúde, com particular destaque para as Ciências da Nutrição.

Eu tive conhecimento do trabalho do Pedro, quando comecei as minhas incursões literárias pela via da Dieta Paleolítica e aí percebi que tínhamos alguém em Portugal ao mesmo nível (ou superior) dos autores internacionais que se dedicam ao estudo e investigação dos efeitos do estilo de vida dos nossos antepassados na prevenção de doenças crónicas, e na melhoria da maior parte dos indicadores de saúde.

Para quem não sabe, o Pedro Bastos tem sido referenciado por vários autores de grande reputação internacional, desde o Prof. Loren Cordain, o “pai” da Dieta Paleolítica, o Robb Wolf, o autor de The Paleo Solution: The Original Human Diet (um dos melhores livros que li até ao momento) e do famoso Paleo Solution Podcast, até o Prof. Staffan Lindeberg, o autor de um dos livros mais recomendados por aqueles que se interessam pelo estudo das Ciências da Nutrição, Food and Western Disease: Health and Nutrition from an Evolutionary Perspective (ainda tenho que adquirir este!).

Vejam a entrevista completa (são 16 minutos de informação valiosa) e aprendam porquê que a Dieta Paleolítica deve ser levada a sério e é tudo menos uma tendência ou uma moda nova. Se assim o fosse de certeza que não teria espaço neste blog.

Até breve!

Entrevista José Teixeira – Powerlifting

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Hoje entrevistamos um Campeão de Powerlifting português, que pouca gente deve ter ouvido falar. José Teixeira foi campeão europeu em 2011 (a foto acima diz respeito à homenagem que recebeu pela Câmara Municipal de Sintra), campeão nacional seis vezes, bi-campeão ibérico, tendo representado a Seleção Nacional por diversas vezes em Campeonatos da Europa e Campeonatos de Mundo.

1 – José Teixeira, obrigado por estares aqui connosco, podes contar-nos um pouco sobre ti e sobre aquilo que fazes atualmente?

Atualmente quase não tenho tempo para treinar pois passo o dia todo a trabalhar. No entanto, tenho feito um grande esforço psicológico e físico para me manter em forma.

2 – Quando é que começaste a levantar pesos e como é que te iniciaste nesta atividade?

Por via do destino. Os meus primeiros passos na musculação começaram muito cedo para a época. Quando tinha quatro anos tive que fazer exercicios musculares para as pernas, pois nasci com a perna direita torta. Possivelmente ficou o bichinho de levantar pesos e ao longo da vida fui sempre inventando exercicios de musculação em casa porque não tinha dinheiro para me inscrever num ginásio.

Foi por volta dos 19/ 20 anos que comecei a treinar no ginásio. Ao fim de um ano encontrei um ginásio que tinha powerlifting e, em 1992, fui campeão nacional junior e sénior na categoria 67,5kg com 65kg de peso (sem equipamento – porque na altura não havia nada cá) com as seguintes marcas: 160 kg agachamento, 90 kg supino e 195 kg peso morto (neste bati o recorde nacional junior que era 190 e fiz o melhor total junior). Pela primeira vez o meu treinador, o Sr. Paulino Reis, que era o homem mais forte na altura e que tinha como marcas pesando 105kg – 270 kg agachamento, 170 kg supino, 280 kg peso morto (isto sem equipamento), vira-se para mim e diz “José Teixeira tu vais ser forte” e isto concretizou-se. Até à data, com 20 anos de powerlifting no nosso país, ainda não falhei nenhum ano sem competir, sendo um caso único em Portugal.

3 – Interessante. Tens um currículo notável, já foste várias vezes Campeão Nacional, já representaste a Seleção Nacional em Campeonatos Europeus / Mundiais e, em 2011, foste Campeão Europeu de Powerlifting na República Checa. Calculo que passaste muitas horas a treinar para chegar a este nível, como te sentes hoje em relação a tudo aquilo que conquistaste?

Por incrível que pareça, passados 20 anos de competição, continuo com a mesma vontade de sempre para treinar / competir e ainda não estou mentalizado para abandonar a competição. Aliás, o meu chip está preparado psicologicamente para competir mais 10 anos. Depois, quando passar os 50, logo vejo se é viável continuar ou não (se calhar passo  para o atletismo de fundo :)). Ainda sinto que posso dar um pouco mais a esta modalidade porque tenho marcas feitas em ginásio que ainda não foram executadas em prova. Quando as executar em prova sentir-me-ei realizado, independentemente de ganhar ou não a prova. Eu próprio e a minha mente somos o adversário a ultrapassar.

4 – Parece-me bem. Tiveste algum tipo de acompanhamento a nível técnico e/ou a nível nutricional durante o teu percurso profissional ou sempre treinaste por tua conta? Achas que podias ter chegado mais longe se tivesses tido mais apoio?

Durante os dois primeiros anos de competição tive apoio a nivel logístico e orientação de treino. Depois desse ginásio ter fechado, tive que me desenrascar sozinho e tornei-me num auto-didata (na altura não havia internet, dvd’s, youtube, etc.). Comecei por tirar formação técnica na área da musculação e fitness para poder evoluir como atleta mas depressa percebi que ainda não havia cá em Portugal pessoas devidamente preparadas na área do levantamento de pesos. A nível nutricional, não tive qualquer acompanhamento desde 1990 até 1999 – tomava apenas alguns batidos que ia ganhando nas provas. Depois de ter ido ao Campeonato do Mundo em 1999 em Itália com 84kg de peso, para competir na categoria dos 90kg, é que percebi que, em 30 atletas, eu era o mais magro e o mais alto. Apesar de ter feito o melhor que pude com 237,5 kg no agachamento, 150 kg no supino e 267,5 kg no peso morto, necessitava aumentar o meu peso corporal para estar mais equilibrado nos exercícios e sentir menos dores nos ligamentos passivos.

Quanto ao chegar mais longe, é óbvio que poderia ter ido bem longe nas marcas efetuadas se tivesse sido profissional. Mas, infelizmente, cá em Portugal o desporto é tratado com desprezo, tudo aquilo que alcancei nesta modalidade deriva da minha força de vontade e persistência. Felizmente (ou infelizmente), em 20 anos de competição não preciso agradecer a ninguém pelos meus feitos, a não ser ao meu amigo Paulo Rodrigues que sempre me pôs o ginásio à disposição de 1997 a 2007 (ginásio Super Corpos) e desde 2008 até 2013 (ginásio Cybergym). Passados todos estes anos continuo a treinar com a mesma garra e determinação, nasci numa vida dura e nela irei morrer com muito gosto.

5 – Já treinamos juntos e posso atestar que isso é verdade. O Powerlifting em Portugal é uma modalidade muito pouco conhecida e com poucos praticantes. Porquê que achas que isto acontece?

Eu acho que já não é assim tão desconhecida cá em Portugal só que é uma modalidade dura e, que, para serem alcançados alguns resultados de relevo, são necessários anos de treino e isso é algo que nem toda a gente está disposta a fazer (os treinos intensos, as barras em cima dos trapézios, em cima do peito, arrastar pesos de um lado para outro, etc). Do meu ponto de vista esta modalidade é só para guerreiros e atletas com grande capacidade de sofrimento e com muita tolerância à dor. Por tudo isto, não existem muitos atletas a competir, os que sobrevivem são poucos.

6 – Ok, sendo assim, o que achas que se deve fazer para dinamizar a prática desta modalidade entre os mais jovens?

É necessário fazer demonstracões, organizar torneios e competições. Algumas destas coisas estão a ser feitas mas isso não chega! É necessário ir de encontro aos futuros praticantes, promover a modalidade nas escolas, localidades e regiões ou então que alguém ligado ao corpo federativo tenha a astúcia e audácia de tentar promover a modalidade nos meios de comunicação. Este tipo de coisas nunca foram feitas ou se foram feitas, foi em proveito próprio. Hoje mais que nunca é preciso que a modalidade comece a aparecer em força. Vamos aguardar…

7 – Seria ótimo que esse tipo de iniciativas começasse a acontecer. Existe um preconceito generalizado que levantar pesos faz mal à saúde. Qual é a tua opinião em relação a isto?

Dito dessa maneira até parece ser verdade mas comprovo que não passa de um mito. Eu próprio sou prova viva que levantar pesos tirou-me de uma cadeira de rodas e, mais tarde, tirou todas as dores que tinha nas costas. Felizmente, descobri cedo a musculação (por volta dos 4 anos) devido a um problema congénito numa das minhas pernas. Depois de morosas operações, fui obrigado a usar um aparelho na perna direita com bota ortopédica que pesava 4kg. Durante 5-6 anos fiz leg extension e leg curls às toneladas, e mais uns quantos exercicios para melhorar a postura. Aos 11 anos tive a minha última consulta até aos dias de hoje. Durante a adolescência tive problemas de desenvolvimento muscular, pelo que me vi obrigado a voltar para a musculação para fortalecer a minha estrutura muscular débil. Na verdade, não podia ter feito melhor escolha, passados 23 anos de treino e 20 anos de competição, os benefícios estão à vista.

 8 – Na prova em que participaste há algum tempo no Cyber Gym (e que marcou a minha estreia nestas andanças) levantaste 300 quilos no Peso Morto e ficaste à beira de ganhar mais um título. Qual é o segredo para levantar tanto peso e, agora que tens 42 anos, quais são os teus objetivos para o futuro?

Um dos segredos talvez seja treinar com a mesma dedicação e empenho em vinte anos seguidos. O outro é uma vontade enorme em superar as minhas marcas. Ao não ficar satisfeito com as marcas relizadas sinto-me obrigado a superá-las e ao fazer isto vou estabelecendo novos objetivos. É assim de esquema em esquema que ganho novo alento para os treinos. Se não fizesse competição já teria abandonado os treinos pesados porque é preciso ter um grande espírito de sacrificio, principalmente vinte e tal anos depois de ter começado a treinar. O meu próximo objetivo é estar bem no Campeonato Nacional e no Campeonato da Europa, que se realiza pela primeira vez em Portugal, no próximo mês de junho.

9 – Muito bem, se puder vou lá dar um salto para dar apoio. Tens alguma referência nesta modalidade a nível internacional que queiras destacar e porquê?

Muito sinceramente não tenho. Não tenho porque mais de 80% desses atletas têm boas condições de treino e têm vida para investir na modalidade.

10 – No outro dia reparei que levas os teus filhos contigo quando vais treinar e que um deles (com seis anos salvo erro) já levanta mais de 30 quilos. Achas que eles vão bater os teus recordes algum dia?

É verdade, o Gonçalo é um miúdo com uma energia inesgotável e com alguma habilidade motora natural. Não puxo muito por ele porque não quero que ele se farte disto, prefiro que ele descubra por si mesmo aquilo que gosta de fazer. Foi a partir de julho de 2012 que começou a fazer treino com pesos uma vez por semana (aprox. 10 a 15 minutos), o irmão só faz porque vai atrás do Gonçalo. Este, o Heitor, tem 5 anos, mas também consegue 30kg de peso morto. O Gonçalo já há mais de um mês que faz o dobro do seu peso corporal – 44kg! Não tenho dúvidas que qualquer dia vão levantar mais do que eu, tudo depende se irão continuar ou não a treinar e se vão ter garra para isso. Se pudesse escolher, preferia que eles fossem jogadores de futebol, é uma ideia velhinha mas é a mais real.

11 – Teixeira, muito obrigado por responderes a estas questões. Queres acrescentar alguma coisa? Como é que as pessoas podem saber mais informação sobre ti e sobre a tua atividade?

Nao tenho muito mais a acrescentar pois tenho uma vida super cansativa e super ocupada como sabes. Tenho também algumas ideias para o futuro mas neste momento ainda não posso revelá-las. Podem encontrar mais informação sobre mim na minha página do Facebook. De vez em quando vou colocando alguns vídeos dos meus treinos, dêem uma vista de olhos.

Nota do Pedro: O Powerlifting é uma modalidade muito pouco acarinhada em Portugal e a verdade é que temos tido vários atletas portugueses com classificações de destaque a nível internacional. Este não é um caso isolado, existem outros atletas que têm obtido resultados muito interessantes além fronteiras. Seria desejável que este tipo de notícias tivesse um maior eco na comunidade desportiva e nos próprios orgãos de comunicação social.

Até breve!

Entrevista Pedro Correia – Diário de Notícias

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Hoje queria partilhar uma entrevista que me foi feita pelo jornalista Filipe Sousa, publicada no passado mês de Dezembro no Diário de Notícias da Madeira. O texto colocado a negrito é da autoria do jornalista. Falo sobre aquilo que faço atualmente e de algumas coisas que tenho feito ao longo da minha carreira profissional.

Pedro Correia tem uma visão muito própria daquilo em que se deve transformar o golfe na Região. Pedro Correia esteve vários anos ligado ao golfe, modalidade que deixou para se especializar na área da performance. Trabalha agora em Lisboa, depois de uma temporada em Espanha, ao serviço da Real Federação local. Em entrevista ao DIÁRIO, falou do seu actual trabalho e lançou umas ideias que visam valorizar o golfe regional.

1. Depois de duas experiências ligadas ao golfe, abraçou um novo projecto, como especialista de performance. Como está a correr esta nova fase da sua vida?

Está a correr bem, porque estou a trabalhar naquilo que mais gosto, apesar de todos os dias perceber que não sei quase nada e que ainda há muita coisa por aprender e descobrir. Pode parecer estranho mas à medida que estudamos mais e aprofundamos o conhecimento nas diversas áreas que influenciam a performance, cada vez surgem mais dúvidas, mais incertezas e mais nos damos conta que somos uns perfeitos ignorantes. Falo por mim…

2. Em que consiste esta nova área de trabalho?

Consiste em transformar vidas através de uma perspectiva global que inclui quatro pilares transversais ao desenvolvimento do ser humano: Movimento, Nutrição, Mentalidade e Regeneração. Traduzindo isto por miúdos, para não correr o risco de cair no esoterismo, eu não sou capaz de me limitar a dar treinos e não quero ser visto apenas dessa forma. Eu quero ensinar as pessoas/atletas a aprenderem movimentos funcionais, aqueles que precisamos nas nossas actividades diárias e no alto rendimento, e a perceberem a importância da nutrição na melhoria do rendimento e na prevenção de doenças, de forma a que compreendam que não é mesmo indiferente aquela situação de “comer qualquer coisa para desenrascar”.

Temos que começar a olhar para a comida como os nossos medicamentos porque cada vez que metemos algo à boca estamos a comunicar com as nossas células e com os nossos genes. Em relação à mentalidade, é importante perceber que nós somos o produto das nossas acções e daquilo que pensamos e fazemos todos os dias. Ou seja, se eu quero ser um atleta, tenho que treinar como um atleta; se eu quero perder massa gorda, tenho que procurar um especialista em nutrição e exercício físico; se eu quero ficar mais forte, tenho que levantar pesos; se eu quero ficar mais rápido, tenho que fazer mais sprints e treinar mais rápido etc. Portanto, se não definimos objetivos neste sentido e, sobretudo, se não agimos em prol desses objetivos, os resultados não vão aparecer.

No que concerne à regeneração, a maioria de nós não se preocupa muito em descansar bem, dormir as tais 8/9 horas por dia, e isto pode fazer toda a diferença na performance diária e/ou desportiva. Basta, por exemplo, saber que uma noite mal dormida deixa-o num estado pré-diabético no dia seguinte. Eu costumo dizer às pessoas com quem trabalho que o exercício pode ajudar mas a nossa fisiologia nunca volta ao normal sem um sono adequado.

3. Compreender e trabalhar o corpo e a mente é meio caminho para uma longa e saudável vida?

Sem dúvida. E hoje estamos a olhar para aquilo que fizeram os nossos ancestrais e algumas tribos míticas para perceber isso. O que não deixa de ser curioso e, ao mesmo tempo, preocupante. Hoje em dia, com mais conhecimento e com a informação disponível a qualquer momento, estamos mais desorientados e mais inseguros. A verdade é que os seres humanos foram desenhados para o movimento, ou seja, não é por acaso que começamos a dar pontapés na barriga das nossas mães antes de nascer. O movimento faz parte das nossas vidas e o estilo de vida sedentário que nos tem sido impingido pela sociedade, até um certo ponto, não nos tem ajudado a ficar mais inteligentes e autónomos. O movimento faz parte do nosso processo de desenvolvimento e para aqueles que não acreditam em mim, recomendo que vejam uma conferência do neurocientista Daniel Wolpert nas TED Talks, intitulada “A verdadeira função dos cérebros“.

4. O facto de ter tido uma doença grave, um cancro, da qual se curou, felizmente, influenciou de alguma forma o enveredar por este novo caminho?

É claro que influenciou, até porque nunca me souberam explicar a causa dessa doença. Este é um assunto a que tenho estado atento e que espero, no futuro, dedicar mais tempo, para saber mais coisas. Quando tive a doença e até há algum tempo atrás, julguei que tinha tido azar, até porque sempre fiz desporto e sempre mantive uma vida relativamente saudável. Mas, depois de começar a pensar nas coisas que fiz, designadamente na minha alimentação, nos treinos que realizei e nas idiotices próprias da idade, vou chegando à conclusão que o problema que tive não pode ter sido apenas produto do azar. A doença instala-se no nosso corpo porque existem deficiências crónicas de nutrientes a nível celular e porque pode haver uma predisposição genética para tal. Eu tenho a perfeita noção que nunca vou descobrir a verdadeira causa da doença, mas estou disposto a chegar lá perto.

5. Não tem saudades do golfe?

Eu não abandonei o golfe e até há bem pouco tempo fui aos EUA fazer nova formação nesta área. O golfe tem sido uma das modalidades que tenho investido imenso e tenciono continuar a fazê-lo. Neste momento não estou a trabalhar com nenhum atleta por dificuldades em conciliar a agenda mas tenho esperança que isso se proporcione no futuro. Penso que será uma questão de tempo.

6. Foi director desportivo e coordenador da escola de golfe do Santo da Serra. Continua a acompanhar o quotidiano do clube?

Nem por isso. Sei através de amigos que a situação económica em que vivemos não tem ajudado o clube a prosperar. O que lamento por todas as pessoas que lá trabalham, especialmente por aquelas cuja única fonte de rendimento é a do clube e que precisam do dinheiro para sobreviver.

7. Acredita que na actual conjuntura a Madeira pode melhorar e qualificar o Madeira Islands Open para o topo do golfe mundial?

Tenho andado longe da Madeira e as poucas notícias que vou sabendo, quer através de familiares, amigos, colegas, quer através da televisão, não parecem ser muito encorajadoras. Não sendo um especialista em economia e sem fazer uma avaliação objectiva do retorno gerado pela realização do Open da Madeira nos últimos anos é difícil responder a essa pregunta.

No entanto, se me permite, para mim parece-me mais importante apostar na sustentabilidade da modalidade na Região, do que organizar o Open da Madeira todos os anos, para inglês ver. E quando falo de sustentabilidade refiro-me ao aumento e melhoria dos serviços que são oferecidos nos clubes, por exemplo, ao nível de qualificação dos profissionais nas diversas áreas, à regulação dos quadros competitivos regionais, à profissionalização do dirigismo desportivo, à criação de equipas multidisciplinares na área do rendimento, ao investimento em programas de desenvolvimento atlético a longo prazo, à criação de melhores condições de acesso para praticantes…

Do meu ponto de vista, na situação em que estamos, tudo isto é mais importante que organizar um Open da Madeira que não estimula o real desenvolvimento do golfe na Região e que, aparentemente, não tem servido para outra coisa, senão para alimentar o ego daqueles que se gostam de pavonear com esse tipo de eventos. Quer queiramos, quer não, o golfe continua a ser uma prática elitista em Portugal e isso acontece por vários motivos, um dos quais, e aquele que mais me perturba, tem a ver com o facto de se dar mais tempo de antena à participação dos senhores doutores, engenheiros, arquitectos, políticos, advogados, economistas, etc., nos torneios sociais, do que aos verdadeiros atletas que competem nos Campeonatos Nacionais, nos EUA ou mesmo no European Tour. Sendo esta a imagem que o golfe passa nas televisões nacionais, é normal que as pessoas associem a prática desta modalidade aos banquetes e às famigeradas elites. Eu pensaria o mesmo se não tivesse conhecimento da componente competitiva do golfe.

Experiência por terras espanholas…

8. A experiência enquanto Coordenador da Escola Nacional Joaquin Blume, da Real Federação Espanhola de Golfe, foi importante na sua carreira profissional?

Sim, foi uma experiência muito importante no desenvolvimento da minha carreira. Até porque foi aí que percebi que tinha mais vocação para trabalhar como técnico ou treinador do que propriamente como coordenador de uma equipa de técnicos. Ou seja, nessa altura percebi que não tinha estudado Ciências do Desporto para trabalhar atrás de uma secretária, se bem que trabalhava muito no campo, com a finalidade de idealizar projectos de desenvolvimento desportivo, que depois não tinham consequência e/ou para lidar com processos administrativos, que não me interessavam para nada.

9. Porque deixou o projecto?

Deixei o projecto porque havia algumas coisas que me incomodavam em termos de organização e regulação da prática desportiva, com as quais não poderia ficar indiferente. A este nível, não era aceitável que essas “‘coisas” acontecessem e por essa razão senti que esta era a melhor altura para procurar outros desafios.

Nota final do Pedro: Quero agradecer ao Diário de Notícias da Madeira e aos seus profissionais o facto de se terem lembrado de mim para dar esta entrevista.

Até breve!

Entrevistas – Prof. Sandro Freitas

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Hoje temos uma entrevista com o Prof. Sandro Freitas, um dos maiores investigadores portugueses no treino da flexibilidade. Actualmente dá aulas na Faculdade de Motricidade Humana (FMH) em Lisboa e dirige a Gnosies, uma das entidades formadoras de elevada qualidade em Portugal, no que diz respeito ao Exercício Físico. 

Sandro, em primeiro lugar, Feliz Ano Novo e obrigado por aceitares esta entrevista. Podes contar-nos um pouco sobre ti e sobre aquilo que fazes. 

Olá Pedro. Antes de tudo, eu é que agradeço o convite em colaborar contigo e com o teu irmão (Nuno Correia), pessoas de quem gosto muito por sentir partilhar os mesmos valores. Quanto ao apresentar-me, creio que será mais fácil deixar aqui um link para um breve resumo curricular meu (clicar em ver mais). Contudo, actualmente sou Docente na FMH, Diretor da Gnosies, e estou a terminar o meu doutoramento na FMH.

Já escreveste vários papers, vários capítulos de livros e um livro intitulado “Flexibilidade e Alongamento: Um Modelo Taxonómico” com 277 referências. Porquê o interesse pelo estudo da Flexibilidade? 

Porque é um assunto que tem “petróleo”. Ou melhor dizendo, tem energia. Pouco se sabe, pouco se investiga, mas “sabe-se” que tem um impacto muito importante quer no desempenho físico-desportivo, quer na prevenção de lesões e sentido de bem estar.

A tua tese de doutoramento versa sobre os “Efeitos da Intensidade de Alongamento nas Propriedades Mecânicas do Complexo Músculo-Tendinoso”. Podes adiantar-nos, de forma sumária, a que conclusões chegaste até agora ou aquilo que mais te surpreendeu nos estudos que realizaste? 

Bem, neste ponto em que escrevo a tese, e ainda estou a completar alguns estudos, posso sumarizar que a intensidade revela ser uma variável fundamental nas respostas e adaptações ao treino, pois esta mostra ser a principal a partir do qual fazemos variar a rigidez. Com as medidas que tenho efectuado sobre o “momento articular-ângulo” do joelho durante a extensão passiva da perna, tenho concluído que a rigidez articular (aferida através da estimação do momento articular) não se comporta. Também tenho concluído que a resposta temporal da rigidez, após a prática de alongamentos, decorre com uma certa dinâmica, na medida em que diminui imediatamente após o alongamento, e passado algum tempo (+ ou – 30 a 60 min) a rigidez volta a estabelecer os valores de baseline, e em alguns dos casos os sujeitos ficam mais rijos comparados com a condição pré-alongamento. Ou seja, o alongamento torna temporariamente o sujeito mais rijo; e este efeito é dependente da intensidade. Também verifiquei vários aspectos do ponto de vista metodológico. Como por exemplo, que os intervalos de descanso entre repetições são contra-produtivos para a obtenção de uma intensidade elevada. Neste momento estou a terminar vários estudos, entre os quais um RCT (randomized controled trial) em que os sujeitos estão a ser expostos a 3 meses de alongamento com diferentes intensidades e estou a medir aspectos vários das propriedades mecânicas dos músculos sujeitos a alongamento. Vai ser giro ver os resultados; creio eu. =)

Existe muita controvérsia e alguns mitos instalados no que diz respeito aos reais “benefícios” dos alongamentos estáticos antes e depois do treino. Eu escrevi um post sobre isso há algum tempo atrás e tu disseste-me que concordavas com 80% do que lá estava escrito. Quais são os 20% que não concordas? 

Medir é um processo trivial. Interpretar a medida efectuada, já não. Quando disse que não concordava com os 20% prendia-se com a interpretação feita, por vezes de uma forma abusiva, por alguns investigadores que quase que crucificam a prática de alongamento estático. Contudo, o seu argumento é válido: a força máxima, taxa de produção de força, e tarefas motoras praticadas em intensidades máximas de manifestação da força, são negativamente afectadas. O exemplo que vou dar encontra-se melhor justificado no livro que escrevi Flexibilidade e Alongamento: Um Modelo Taxonómico. Quando se pratica alongamento estático, a curva isocinética força-amplitude articular é alterada: 1) diminui o pico de força; 2) a amplitude de movimento em que se produz força aumenta. É com base nesta resposta (1) ao alongamento, que os autores crucificam a prática de alongamento. Contudo, a resposta (2) mostra-nos que o sujeito é capaz de produzir mais força em amplitudes articulares elevadas. Ou seja, em certos contextos físico-desportivos, por ser vantajoso, e por isso deve-se recomendar praticar antes da actividade. Por outro lado, a consequência da “difamação” sobre os alongamentos estáticos leva a pensar que estes não têm benefício algum, e em virtude disso fomentam a prática de alongamentos dinâmicos. Em “defesa” dos alongamentos estáticos tenho a dizer: 1) não afectam, e pelo contrário promovem a viscosidade dos tecidos, ao contrário dos dinâmicos; 2) não afectam a rigidez dos tendões, ao contrário dos dinâmicos; e 3) potenciam maiores ganhos de amplitude de movimento, em comparação aos dinâmicos.

Na tua comunicação, no Congresso Practice, falaste de vários testes que se podem usar para medir a Flexibilidade, para além do Sit and Reach. Na minha opinião (e creio que na tua), o Sit and Reach é um teste muito fraco porque não mede a Flexibilidade das articulações quando estamos a realizar um determinado tipo de movimento, nem avalia os padrões posturais em que o mesmo é efetuado. Por este motivo, parece-me pertinente a distinção que é feita pelo Gray Cook entre Flexibilidade e Mobilidade, quando refere que a Flexibilidade, ao contrário da Mobilidade, não está orientada à realização de movimentos fundamentais e, como tal, não é uma medida funcional para a maioria das pessoas e atletas. O que tens a dizer sobre isto e porque achas que se continua a utilizar este teste nos Ginásios para medir a flexibilidade das pessoas?

Com todo o respeito pela terminologia proposta pelo Gray, acho que o termo Mobilidade acaba por ser sinónimo de Flexibilidade. O que se faz apenas, é avaliar a Flexibilidade numa só acção corporal. Existem outras, mais válidas e com maior relevância clínica. Porque se continua a usar? Dois argumentos:

1) É fácil (não é preciso um curso para saber fazer), é barato (apenas a caixa do S&R) e permite avaliar “milhões” de pessoas (é rápido!).

2) As pessoas (passo a citar melhor: profissionais) desconhecem a existência de outros protocolos e instrumentos de avaliação, e principalmente saber interpretar os mesmos

No teu livro, fazes uma distinção entre dois tipos de abordagem no que diz respeito à Avaliação da Flexibilidade – quantitativa (ou estática) e qualitativa (ou dinâmica) – onde explicas as vantagens e desvantagens de cada um. Que tipo de testes tens utilizado nos teus estudos para avaliar a Flexibilidade e porquê que devemos considerar a Flexibilidade um bom indicador de saúde?

Duas questões, duas respostas.

Em relação à primeira questão: Tenho utilizado um setup experimental de avaliação qualitativa e passiva da flexibilidade, na extensão passiva da perna. Com este protocolo eu obtenho a medida de “momento articular-ângulo” do joelho, cuja força é fruto da deformação dos factores estruturais que atravessam a articulação do joelho, em particular, os posteriores da coxa.

Em relação à segunda: O importante para mim é o movimento e a capacidade de produção de força. E, sendo que a flexibilidade afecta estas duas condições de expressão física, logo é importante para a Saúde. E como perceberás na resposta da pergunta seguinte, a Flexibilidade deve ser vista como a Fruta.

Voltando à tua intervenção no Congresso Practice, comparaste a Flexibilidade à fruta, ou seja, que não convém ter muita flexibilidade (fruta demasiado madura), nem convém ter pouca flexibilidade (fruta demasiado dura). O importante é tê-la “no ponto”. Queres explicar esta tua analogia aos nossos leitores? 

=) É curioso ver que muitas pessoas ficaram a pensar nessa analogia, e muitas já me confrontam sobre o porquê dessa comparação. Ponto de partida: em termos genéricos, entre as várias perspectivas de análise, o mais relevante no perfil da Flexibilidade é a rigidez dos tecidos que atravessam as articulações, em particular o sistema músculo-esquelético. Pois, tecidos demasiados rijos apresentam um risco de lesão aumentado e restringem o movimento, tecidos pouco rijos afectam a capacidade de produção de força e força máxima, para além de poderem favorecer algum tipo de lesões devido à condição de hipermobilidade. Por isso, na avaliação da Flexibilidade, o importante é perceber se a rigidez afecta aos tecidos, que se faz repercutir na manifestação da flexibilidade articular, é adequada para o indivíduo. Por excesso, ou por défice, é inadequada. Existe um nível óptimo. Tal como a Fruta, para favorecer o paladar e nutrir o indivíduo!

Mudando de assunto, sei que estás envolvido em vários projetos e que recentemente publicaste o Código Deontológico do Profissional de Exercício Físico. O que esperas conseguir com isto, quais são as tuas principais preocupações? 

Bem, como sabes, o Código Deontológico do Profissional de Exercício Físico constitui uma posição da Gnosies. Ainda que seja o autor do documento em conjunto com o Luís Folgado. Em consequência da missão a actividade da Gnosies, que luta diariamente para favorecer a actividade profissional daqueles que exercem no âmbito da Actividade Física, Exercício Físico e Desporto, sentimos desde há muito tempo a necessidade de desenvolver uma actividade formativa séria e que fomente a relação com a comunidade científica. E com esta vontade, temos vindo a realizar vários cursos, formações, congressos e outras acções. Felizmente tem tido grande aceitação por parte das pessoas, por reconhecer o elevado rigor técnico-científico, e a respectiva credibilidade de quem as dirige.

No entanto, chegamos à conclusão que não faria sentido fomentar tal actividade sem ter algo que é fundamental ter numa profissão: ética. Ao analisar as profissões na sociedade que são realmente reconhecidas como credíveis, verificamos que todas elas têm deontologia. Só a do Exercício Físico é que não. E por isso jogamos mãos à obra para desenvolver um contributo para esta área profissional, através de uma posição da Gnosies traduzida através de um documento que agora é dos Profissionais de Exercício Físico. Quem reconhecer tal importância na deontologia publicada no documento, é naturalmente um embaixador e por isso deve promover perante os pares profissionais. Assim, acreditamos que a profissão crescerá!

Neste sentido, na expectativa de que muitos profissionais irão ler este artigo, apelo a que façam chegar esse documento a todos os vossos contactos profissionais, e adicionalmente façam chegar o vosso comentário à página da Gnosies no Facebook.

Não achas que deveria ser criada uma Ordem dos Treinadores, tal como existe uma Ordem dos Médicos, Advogados, Arquitectos etc., com a finalidade de termos um maior reconhecimento enquanto profissionais da área do Exercício Físico? Eu sinto que o nosso trabalho ainda é pouco valorizado nos dias que correm. 

Acho. Mas sei que é um processo muito longo, e que exige muito trabalho e dedicação! E que isso só acontecerá quando existir um produto de Exercício Físico reconhecido na sociedade. E tal facto só acontece quando se constituírem um conjunto considerado (i.e. número representativo) de profissionais de Exercício Físico, com uma ética profissional desenvolvida na prática, e munido de elevadas competências e capazes de resolver verdadeiramente problemas. E isso só se obtêm através de formação. Formação altamente qualificada! E por acreditar no que escrevo, lidero a Gnosies que visa dar um contributo nesse sentido.

Em 2007, passaste uma temporada a trabalhar no Laboratório de Human Performance do Prof. William J. Kraemer (um dos maiores cientistas desportivos do Mundo) na Universidade de Connecticut (EUA). Conta-nos como é que foi essa experiência? 

É um facto. O Dr. Kraemer para além de ser um dos investigadores mais considerados no mundo, no contexto do exercício e do treino, é um excelente ser humano, que releva transparência, paixão e humildade que fazem dele um grande senhor. Tenho por ele um enorme respeito e consideração. Pois aprendi muito. Não só com ele, mas com todos os elementos pertencentes ao Laboratório onde estive, extraordinariamente dotados de conhecimento. Bem, no tempo que lá estive fui um consumidor de informação, que posteriormente traduzi a conhecimento. Frequentei tudo o que era aulas (licenciatura, mestrado e doutoramento), desenvolvi uma investigação, auxiliei em vários estudos, certifiquei-me por diversas entidades, interagi com vários atletas de várias modalidade e…claro que aproveitei para conhecer a cultura e um pouco do país. Foi certamente um momento que marcou a minha vida. =)

Muito bem, queres acrescentar mais alguma coisa que eu não tenha perguntado?

Sim, quero. Duas coisas:

1) Uma vez mais, obrigado pelo convite. Estou certo que vamos trabalhar juntos no futuro.

2) Já alongaram hoje? =)

Sandro, uma vez mais muito obrigado por responderes a estas questões. Podes dizer-nos onde é que podemos encontrar mais informação sobre ti e sobre o trabalho que tens desenvolvido (livros, artigos, projetos, etc.)? 

Sim. Na Gnosies. Poderá ser suspeito, por ser mentor do projecto, mas considero em Portugal uma das mais capazes entidades formadoras capazes de valorizar a actividade profissional de Exercício Físico. Porque apresenta produtos exclusivos; desenvolve a possibilidade da pessoa fazer o curso completo, ou apenas módulos; tem associado os mais competentes consultores, especialistas de diversas áreas e está em crescente expansão pelo país, e a fazer cumprir a sua missão de Aproximar a Ciência da Comunidade Profissional de Actividade Física, Exercício Físico e Desporto.

E por isso recomendo que todos os profissionais de Exercício Físico entrem em contacto connosco para se tornarem Associados (é gratuito!) e permitirem que a Gnosies possa contribuir no aumento de conhecimentos e competências profissionais. Em adição, passo a publicitar um curso, que vai acontecendo regularmente sobre Treino da Flexibilidade e Alongamento, julgo ser o único curso em Portugal com estas características, liderado por alguém que coloca as mãos na massa e desenvolve investigação sobre o tema com impacto científico internacional.

Excelente trabalho Sandro, para mim seria um prazer trabalharmos juntos no futuro. 

Até breve! 

Entrevistas – Pedro Fontes

A partir de hoje vamos partilhar convosco a primeira de uma série de entrevistas com as pessoas que estão a trabalhar com a metodologia de Pedro Correia Training e com outras que temos vindo a contactar no sentido de saber as suas experiências e aquilo que têm andado a fazer no âmbito do treino desportivo, investigação, nutrição e muitas outras coisas interessantes.

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Hoje falamos com o Pedro Fontes, sem dúvida um dos atletas mais empenhados em melhorar as suas capacidades físicas e o seu rendimento geral. Conheci o Pedro há alguns anos atrás quando trabalhava no Clube de Golf do Santo da Serra, na altura com umas funções bem diferentes daquelas que desempenho actualmente.

Pedro, durante o período em que estive no Santo da Serra lembro-me que chegaste a ser Campeão da Madeira Absoluto de Golfe (se calhar o título individual mais significativo que ganhaste ao longo da tua carreira) e que fomos campeões nacionais no Interclubes em 2004, ganhando a competição masculina e feminina nesse mesmo ano, um feito absolutamente inédito, que teve a particularidade de se realizar no nosso próprio campo e sob a orientação do grande mestre João Sousa.

Agora que passaram alguns anos, diz-nos o que estás a fazer neste momento e conta-nos um pouco sobre ti.

Terminei o curso em Direito, estagiei e sou Advogado na Abreu Advogados em Lisboa. Não há muito a contar sobre mim, sou uma pessoa de hábitos simples.

Quando começaste a treinar com o Pedro Correia e como é que ouviste falar dele? 

Comecei há 3 meses, em Setembro.

Já conhecia o Pedro em virtude do trabalho que ele tinha desenvolvido no Santo da Serra, onde prestou apoio de gestão, logístico e desportivo e chegou a ser responsável pelos jogadores mais novos em algumas deslocações.

Pessoalmente, sabia ser uma pessoa comprometida e determinada, com uma ética de trabalho forte e com uma curiosidade saudável por todo o fenómeno desportivo e uma abordagem invulgarmente aprofundada. Fui acompanhando a carreira dele com interesse, e verifiquei, tanto pelos escritos publicados em blogues como nas actividades publicadas no Facebook, que o Pedro se encontrava envolvido em projectos vanguardistas e holísticos de treino físico.

Quando bati no fundo e me apercebi de quão mal tratava o meu corpo no meu dia-a-dia, associei estas qualidades pessoais à experiência profissional, e não me lembrei de treinar com outra pessoa.

Fala-nos das mudanças que notaste desde que começaste a treinar com ele.

É certo que estou mais leve e mais magro, mas isso é o menos. Toda a abordagem se foca na funcionalidade. E eu sinto-me, de facto, mais capaz. Nas minhas tarefas diárias, o meu corpo responde de forma mais eficiente. Dou por mim sentado direito, mais activo, a solicitar músculos que antes não usava. Sinto que tenho mais movimentos com que contar. Em repouso, sinto-me mais relaxado e calmo, e ligeiramente mais focado.

O que melhoraste na tua alimentação ou estilo de vida desde que começaste a treinar com o Pedro?

A mudança foi radical. Alterei a minha alimentação ao ponto de ter um plano quase semanal. Pela primeira vez, comecei a levar lista para o supermercado. O que como é agora uma parte consciente e contabilizada da minha vida.

Vejo os meus alimentos como medicamentos – uma prescrição diária a cumprir para ser saudável e prevenir doenças. Tudo sem prejuízo de esses medicamentos me saberem bem e serem saciantes.

Esta organização reflecte-se noutros aspectos da minha vida. O facto de ter de ponderar tudo o que como com tanta antecedência gera externalidades positivas de organização. Dou por mim mais ciente da gestão do meu tempo e mais ponderado no planeamento das minhas tarefas.

Quais são os aspectos que mais gostas nas tuas sessões de treino?

O facto de ir além de onde conseguiria se estiver a treinar só. Isto é o fundamental. Aprecio (muito) a transmissão de conhecimentos – a verdadeira educação física – que as aulas do Pedro incluem, mas o elemento chave é conseguir a última série, as três repetições finais e o esforço cardíaco que teriam ido borda fora caso estivesse a treinar sozinho.

Qual o exercício ou tipo de treino favorito? 

O treino integrado, com ou sem peso ou elásticos, emulando movimentos desportivos ou da vida quotidiana. É um treino que ressoa no meu cérebro, lembra braçadas, saltos, swings e corridas de vidas passadas, o que alenta alguma esperança de as ressuscitar de alguma forma.

Qual o exercício ou tipo de treino que mais odeias fazer?

Os “finisher” – exercício final que geralmente consiste na repetição de exercícios com carga ou despesa de energia elevados durante um período significativo de tempo – conseguem pôr-me a falar com Deus. Muitas vezes, o grau de esforço chega a um ponto para além da contemplação – já não conseguimos pensar ou falar nele, mas apenas senti-lo. No entanto, esse ódio é um pouco como o amor de Vinicius de Moraes – é eterno enquanto dura. Depois daquela injecção de endorfinas, sente-se mesmo que aquele trabalho é consequente e muito importante.

Como te sentirias em voltar a treinar da forma que treinavas, sentado nas máquinas trabalhando um músculo de cada vez e fazendo cardio de longa duração na passadeira?

Não me sentiria, tendo em conta que nada me motivaria a enveredar por esse tipo de treino outra vez. Seria como tirar carta de mota e comprar uma bicicleta com rodinhas.

Algo que queiras acrescentar e que não tenha perguntado?

Sim. O treino não é fácil de forma alguma.

Exige planeamento, investimento, planeamento, mudança de rotinas, planeamento, cansaço, planeamento, sacrifício, planeamento, um livro ou outro de culinária, algum ostracismo social… Planeamento, algum eremitismo, planeamento, força de vontade e idas suplementares ao supermercado. Além disso, exige planeamento.

Por notável que seja, o sistema faz-nos passar por algumas provações. O programa não é milagroso porque funciona, ele funciona porque não é milagroso. É um programa que respeita o corpo enquanto máquina delicada e caprichosa – em conformidade, dedica-se sobretudo a passar a ferro os preconceitos pseudo-científicos que temos em relação ao nosso corpo, à actividade física, e à nossa alimentação.

Se ainda acompanham estas linhas, é provável que estejam na mesma frequência de onda dos meus amigos. “Estás louco! Não interessa ser fanático. A comida deve ser um prazer. O exercício deve ser um prazer. O meu corpo está ao meu serviço, não sou eu que estou ao serviço dele”.

Talvez. É possível que tudo o que vos relato sejam “teorias” e a realidade esteja um pouco aquém ou além. No entanto, a gravidade é apenas uma teoria e não vejo ninguém a sair de casa pela janela do quarto andar. Fanatismo, para mim, é enfardar refeições pré-embaladas depois de passar o dia sentado, chegar ao fim-de-semana e recompensar-se com mais comida gordurosa e nula e noites mal dormidas. O fanatismo justifica-se a partir do momento em que se entende que não temos um corpo – somos um. O corpo que eu era não me ia levar a lado nenhum, nem mesmo a nível profissional ou intelectual.

Vejo que tens  também uma grande paixão pela leitura, escrita e algumas preocupações de índole política que expressas publicamente no Facebook e diversos escritos. Queres dizer alguma coisa em relação a isto? 

Não. =)

Obrigado Pedro, amanhã voltamos à carga :).

Grande abraço.