#Hábito 7: Comer Hidratos de Carbono Saudáveis

Os hidratos de carbono são importantes na nossa alimentação por duas razões principais. Primeiro, são o macronutriente que actua mais rapidamente para os processos de produção de energia. Segundo, a sua capacidade de armazenamento no corpo é bastante limitada. Quer isto dizer que devemos comer hidratos de carbono a toda a hora para não morrermos de hipoglicemia? Nem por isso. É importante perceber que enquanto a ingestão de hidratos de carbono é a forma mais rápida para a produção de energia, esta também poderá ser produzida através do metabolismo das proteínas e das gorduras. E é importante perceber também que existem hidratos de carbono de melhor qualidade que outros e, que, na minha opinião, essa qualidade faz diferença. Tal como nas proteínas e gorduras.

Neste sentido venho propor que o próximo hábito seja o seguinte: comer hidratos de carbono saudáveis. Aliás, se você está a cumprir o sexto hábito, já está a fazê-lo, isto porque as verduras são hidratos de carbono. Na verdade, tanto as verduras como as frutas são hidratos de carbono, a principal diferença desta classe de hidratos para os hidratos “convencionais” (batata, arroz, massa, pão, cereais e outros alimentos açucarados) reside na sua densidade calórica. Ou seja, neste contexto, e para facilitar a compreensão, podemos considerar de uma forma geral as verduras e frutas como hidratos de carbono não densos e os “convencionais” como hidratos de carbono densos. É por este motivo que a ingestão destes últimos deverá ser mais “controlada” e mais aplicável para quem faz algum tipo de esforço físico com frequência – uma situação que deveria ser normal (e que foi no passado) mas que infelizmente já não é.

Na verdade, os hidratos de carbono são tipicamente classificados segundo a sua estrutura química e divididos em três grupos de sacarídeos (do latim sachharum ou açúcar) com base na sua complexidade: monossacarídeos, oligossacarídeos e polissacarídeos. Os monossacarídeos são a sua forma mais simples (ex: glucose, frutose e galactose), os oligossacarídeos são compostos por um número pequeno de monossacarídeos, de 2 a 10 (os mais conhecidos são os dissacáridos maltose, sacarose, lactose), e os polissacarídeos são compostos por mais de dez monossacarídeos. Quando nos referimos a amidos, glicogénio ou fibra, estamos a falar de polissacarídeos. A glucose é o produto final do metabolismo dos hidratos de carbono e a principal fonte de energia para todos nós.

No que concerne às recomendações de hidratos de carbono diárias existentes para atletas, estas são baseadas no tipo de treino / actividade que fazem. Segundo a International Society of Sports Nutrition (ISSN), os atletas de endurance (triatletas, ciclistas, corredores e esquiadores de fundo) que treinam 90 minutos ou mais por dia a uma intensidade moderada (70-80% VO2 max.) deverão apontar para 8-10 g de hidratos de carbono / kg / dia. A investigação sugere ainda que atletas de elite que participam em actividades de alta intensidade / intermitentes como os futebolistas, basquetebolistas e jogadores de râguebi também poderão beneficiar desta dieta elevada em hidratos de carbono. Segundo a National Strength and Conditioning Association (NSCA), os atletas que participam em desportos de força, sprint ou de alguma habilidade específica precisam de aproximadamente 5-6 g de hidratos de carbono / kg / dia. Atenção que estas recomendações são para atletas de elite, cujas necessidades de hidratos de carbono são bastante superiores ao “indivíduo normal”, que passa o dia sentado e que provavelmente não faz qualquer tipo de exercício físico moderado ou vigoroso!

Outro conceito que provavelmente já estará familiarizado é o índice glicémico (IG), ou seja, a medida que um determinado alimento faz subir o nível de glucose no sangue e, consequentemente, o nível de insulina. Se está familiarizado com este conceito então com certeza que já saberá que o mesmo não terá grande utilidade quando os alimentos são consumidos de forma combinada, como acontece na maioria das vezes. Ou seja, enquanto a batata tem um índice glicémico elevado, se esta fizer parte de uma refeição equilibrada em que consome verduras e uma boa fonte de proteína e gordura, o índice glicémico global será atenuado, isto é, os outros alimentos vão ajudar a abrandar a digestão e absorção da batata. Além disso, o IG baseia-se numa quantidade estandardizada de hidratos de carbono e não numa determinada quantidade de comida.

Por este motivo, o termo carga glicémica (produto do IG e porção de hidratos de carbono consumidos) será provavelmente uma medida mais realista. Ainda assim, este termo não nos conta a história toda porque também não é o melhor preditor da resposta insulinémica na refeição, a medida que porventura terá maior correlação com a nossa saúde no longo prazo. O índice insulinémico mede a quantidade de insulina que o corpo produz em resposta aos alimentos ingeridos (que numa fase pós treino vão auxiliar na reposição do glicogénio muscular e hepático) mas não são apenas os hidratos de carbono que fazem disparar a insulina, ao contrário do que possa ter ouvido. Voltando ao exemplo da batata, este é um dos alimentos com maior índice insulinémico mas não é por esse motivo que deixa de ser uma boa escolha. A batata induz níveis de saciedade elevados e é bastante densa em termos nutricionais, muito semelhantes à batata doce.

Eu só abordei estas questões (recomendações existentes, IG, carga glicémica e índice insulinémico) para lhe dizer que não deverão ser estas medidas que devem ditar as nossas escolhas no que diz respeito aos hidratos de carbono mas sim a qualidade nutricional dos mesmos no seu todo. Neste sentido, é importante clarificar quais são realmente as fontes de hidratos de carbono saudáveis e aquelas que deve evitar ou “controlar”. Os açúcares / farinhas presentes nas bolachas, nos bolos, no pão, nas pizzas, nas sobremesas, nos cereais de pequeno almoço, nos chocolates de leite, os açúcares presentes nos refrigerantes, nos sumos de fruta, e mesmo nas famosas “bebidas energéticas”, deve consumir porque gosta (ou porque está a celebrar alguma ocasião especial) mas não porque precisa. A facilidade de aceder a estes “alimentos” hoje em dia (que são densos em calorias mas pouco densos em nutrientes) é enorme e como tal é muito fácil consumi-los em excesso. Portanto, a nossa preocupação deve ir mais além da contagem de calorias e da abordagem de controle dos macros.

Hidratos de carbono saudáveis (i.e. densos em nutrientes), podemos dividir em densos e não densos para seguir o raciocínio que utilizei acima. Os hidratos não densos serão compostos maioritariamente por verduras e frutas (ex: espinafres, tomate, cenoura, vegetais crucíferos, espargos, cebola, alho, aipo, pepino, abóbora amarela, courgette, beringela, beterraba, frutos vermelhos, romã, maçãs, laranjas, manga, papaia) – estes devem fazer parte da nossa alimentação diária. Os densos que recomendo são maioritariamente raízes e tubérculos mas também alguns cereais e pseudo-cereais, que têm um perfil nutricional interessante: batata doce, batata, inhame, mandioca, quinoa, aveia, arroz. A banana também deverá considerar um hidrato denso. Naturalmente que estes serão mais adequados para quem treina ou para quem faz alguma actividade com um dispêndio energético acima da média, se passa o seu dia sentado e não faz qualquer tipo de esforço físico (que, reforço, não é normal) é melhor ficar-se apenas pelas verduras e frutas. E com mais ênfase nas verduras que frutas se tiver gordura corporal a mais.

Tal como fizemos com o hábito da proteína e da gordura vamos utilizar a palma da mão para calcular a quantidade que precisa. Para os homens o objectivo será consumir 2-3 porções (1 porção = 1 mão em concha) de hidratos não densos por cada refeição normal; para as mulheres o objectivo será consumir 1-2 porções. No que diz respeito aos hidratos de carbono densos, para consumir na refeição pós-treino, os homens deverão ingerir 2 porções e as mulheres 1 porção. É isso mesmo, para ter direito aos hidratos densos precisa de treinar e quanto maior o dispêndio energético associado maior será a sua necessidade (e tolerância) para estes alimentos.

Nota: nas fotos acima está apresentado o exemplo dos hidratos de carbono não densos.

Em conclusão, os hidratos de carbono saudáveis (que são absorvidos e digeridos mais lentamente) são os mais importantes a incluir na sua alimentação diária já que os mesmos vão proporcionar uma dieta mais rica em micronutrientes (vitaminas, minerais e fitoquímicos), um maior consumo de fibra, um aumento da saciedade e um aumento do efeito térmico dos alimentos. A sua ingestão diária tem vários benefícios na prevenção / controle de doenças metabólicas, no controle dos níveis de açúcar no sangue, nas concentrações de insulina, nos seus níveis de energia / vitalidade e na melhoria da sua composição corporal e performance.

Boa sorte com o sétimo hábito e até breve!

Pedro Correia

Referências:

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McArdle, William D.; Katch Frank I.; Katch, Victor L. (2015). Exercise Physiology. Nutrition, Energy and Human Performance Eight Edition. Wolters Kluwer.

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European Golf & Fitness Symposium 2018 – Portugal

Será nos próximos dias 12 e 13 de Abril que terei o prazer de participar no European Golf & Fitness Symposium no Sheraton Cascais Resort (Portugal), um evento europeu que vai reunir um leque de especialistas internacionais nas áreas do treino, reabilitação, biomecânica, preparação física, performance e ensino.

Este evento (único na Europa) tem como objectivo destacar o papel fundamental da preparação física no golfe e no seu desenvolvimento em geral. E tal objectivo só pode ser alcançado através da formação contínua, de métodos de treino actualizados e da aprendizagem das melhores práticas.

O tema da minha intervenção será: “Fundamentals for Performance Improvement”.

Todas as informações sobre o evento podem ser encontradas aqui: http://european-golf-fitness.com/. 

Para os interessados na modalidade de golfe este é um evento a não perder!

Até breve!

Certificação Treino com Kettlebell – 22 e 23 de Abril 2017

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Nos próximos dias 22 e 23 de Abril de 2017 será levada a cabo a primeira Certificação de Treino com Kettlebell (15 horas) na The Strength Clinic (Lisboa) em parceria com a WellXProSchool e na qual serei um dos formadores.

Esta formação será dirigida a profissionais do exercício e estudantes ou licenciados das áreas da Educação Física, Desporto e Saúde, que pretendam desenvolver os conhecimentos na área do treino da condição física em geral e do treino com kettlebells em particular.

Todas as informações sobre a mesma podem ser consultadas no seguinte link: http://wellxproschool.com/Page/Details/5128.

Inscrevam-se que vai valer a pena!

Congresso de Desporto da RAM 2013

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É com muito orgulho e satisfação que, nos próximos dias 22 e 23 de Novembro, vou ter a oportunidade de integrar o painel de Exercício e Saúde do Congresso de Desporto da Região Autónoma da Madeira, que vai ter lugar no Centro de Congressos do Madeira Tecnopolo.

O tema da minha comunicação “Um Novo Olhar sobre o Movimento” tem a ver com algumas coisas que já tenho abordado aqui no blog, pelo que esta será uma excelente oportunidade para partilhar aquilo que penso sobre esta matéria e que caminho nos devemos preocupar em seguir para continuarmos a melhorar a nossa intervenção enquanto profissionais da área do Exercício Físico.

Além da paixão evidente que tenho por este tema, esta também será uma ocasião muito especial para rever alguns colegas da Universidade, antigos professores, e outros amigos da minha terra natal.

Para mais informações podem consultar a página oficial do evento aqui.

Até breve!

Acha que bebe Água suficiente para mantê-lo(a) jovem e saudável?

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Bastam alguns dias sem água para morrermos desidratados. Aliás, todos os dias acordamos desidratados! Já ouviu dizer que é importante beber água logo de manhã ao acordar? Isto é verdade, nós não somos apenas aquilo que comemos, digerimos e absorvemos, nós somos também aquilo que bebemos. Porquê? Porque todas as nossas células estão mergulhadas em água.

Por vezes falamos de tanta coisa no que diz respeito à alimentação e esquecemo-nos da água, o elemento mais importante que o nosso corpo precisa para funcionar corretamente. É a água que regula todas as funções do nosso corpo, incluindo a atividade de todos os solutos (os materiais sólidos) dissolvidos  na mesma, ou seja, é a água, em primeiro lugar, que vai permitir que os nutrientes que consumimos cheguem às nossas células e aos nossos orgãos.

Nós até sabemos que a água é importante e que faz bem e tal, mas na verdade, a maior parte de nós não tem consciência da sua importância. Acho muito estranho, por exemplo, que a água nunca tenha feito parte da pirâmide dos alimentos, nem do atual prato dos alimentos. Tendo em conta que o nosso corpo é composto por cerca de 60-70% de água, será que não era importante fazer uma referência proporcional à água? A água deveria estar na base da pirâmide! Não pretendo com isto dizer que concordo com o restante prato dos alimentos. Afinal ainda lá consta o leite, os grãos (em grande proporção) e por incrível que pareça, parece que se esqueceram da gordura, o único macronutriente, que, em conjunto com a proteína, é essencial para o funcionamento do nosso organismo.

Os nossos músculos (necessários para produzir movimento) são 75% de água; o nosso sangue (necessário para transportar nutrientes) é 82% de água; os nossos pulmões (necessários para respirarmos) são 90% de água; o nosso cérebro (o centro de comando do nosso corpo) é 76% de água; os nossos ossos (necessários para suportar os movimentos do corpo) são compostos por 25% de água. A água tem um papel essencial em todos os aspectos do nosso metabolismo. Através da hidrólise, uma reação química que ocorre entre a água e outros compostos, a água conduz todas as reacções químicas essenciais à vida.

Sim, a água é a base de toda a vida e muitas doenças, dores, lesões musculares e lesões osteo-articulares podem ter como origem a falta de água.

As principais funções da Água no corpo.

1) A água como um solvente e transportador. A água tem o papel de dissolver  e transportar proteínas (incluindo enzimas, DNA, etc.) no nosso corpo. A água também transporta nutrientes para as células e produtos de desperdício para fora das células.

2) O papel da água no crescimento muscular. Quer ganhar músculo? A água é importante na síntese de proteínas, glicogénio e outras macromoléculas. Ou seja, se as nossas células estão constantemente desidratadas, a recuperação muscular vai ser mais lenta, estimulando o catabolismo (link).

3) A água como um agente catalisador. A água serve como um meio para um grande número de reações metabólicas intracelulares. Na presença de água, as reações químicas ganham outra dimensão, uma vez que a água atua como um catalisador que vai acelerar as interações enzimáticas com outros químicos.

4) A água como um lubrificante. A água lubrifica as articulações e atua como um elemento de amortecimento para os olhos e para a espinal medula. O fluido amniótico, que envolve o feto que está a crescer, e que é composto maioritariamente por água, protege o feto das forças mecânicas transferidas através do corpo da mãe.

5) A água como um regulador de temperatura. Quando a temperatura do nosso corpo aumenta, nós começamos a suar. O processo de evaporação arrefece o corpo, baixando a temperatura corporal.

6) A água como uma fonte de minerais. Dependendo do tipo de água que se bebe, a água pode ser também uma importante fonte de minerais (cálcio, magnésio, potássio, etc.). A água desprovida de minerais não conduz nada no corpo, por isso é que é importante sabermos a sua mineralização total. Vamos ver isso mais à frente.

Que quantidade de água precisamos?

Com um aumento na idade, o conteúdo em água das nossas células diminui, portanto uma diminuição no nosso consumo diário de água vai afectar a eficiência das nossas células. Além disso, o reconhecimento de sede pelo nosso corpo torna-se menos preciso quando o corpo fica mais desidratado, potenciando aquilo que conhecemos como o natural “processo de envelhecimento”.

Em média, nós perdemos cerca de 1,5 litros de água todos os dias através da pele e respiração (cerca de 60%!), urina, fezes e suor – isto para quem faz pouco ou nenhum exercício. Em média, nós ingerimos 1 litro de água através da comida, mas isto vai depender obviamente da quantidade de verduras e frutas que cada um come na sua dieta, já que são estes os alimentos mais ricos em água. Os alimentos ricos em gordura (oleaginosas, sementes, óleos, manteiga, banha de porco) são aqueles com menor quantidade de água.

Existem duas formas de calcular a quantidade de água que precisamos: 1) através da taxa metabólica basal e 2) através do nosso peso corporal. De acordo com a maior parte da literatura, uma recomendação genérica relativamente segura para a ingestão diária de água de um indivíduo com 80 quilos, e que não faz exercício, é de 3 litros por dia. Como é óbvio, esta quantidade vai depender de vários factores. Por exemplo, as pessoas mais obesas vão precisar de mais água que as pessoas mais magras. Quanto mais exercício, maiores as necessidades de água. Quanto mais quente e húmido é o clima, maiores as necessidades de água. Os atletas, dependendo das condições a que estão sujeitos, podem ter a necessidade de consumir o dobro da água necessária para uma pessoa normal!

A sensação de sede do nosso corpo é um sinal de que já estamos desidratados. Reparem, na imagem abaixo, que basta uma ligeira perda de 0,5% de água para aumentar a pressão sobre o coração e uma perda de 1-5% de água para se verificarem decréscimos significativos na performance e na saúde.

Foto Water Loss and Boddy Effects

Como regra geral, tente consumir cerca de 30-40 ml de água por cada quilograma de peso corporal.

Que tipo de água precisamos?

Se aquilo que pretende é maximizar a sua saúde, é importante que comece a pensar que as águas não são todas iguais e que existem umas com maior qualidade que outras. Normalmente aquelas que ouvimos dizer que são as melhores, não são as melhores. Não acredite nos anúncios de televisão – se assim fosse ainda estaria a comer margarina para baixar o colesterol!

Tendo em conta que a maior parte das pessoas tem tendência para levar uma dieta demasiado ácida e baixa em minerais (também devido à menor qualidade dos solos) e que o equilíbrio ácido-base tem um papel fundamental na nossa saúde, é importante optarmos por beber uma água com um teor mais alcalino, ou seja, com um pH acima de 7,0.

Nota do Pedro: Todos os alimentos que consumimos reportam ao rim a sua acidez e/ou alcalinidade, ou seja, quanto maior a acidez da dieta, maior será a sobrecarga sobre os rins. Uma vez que há um declínio natural da função renal durante o processo de envelhecimento (link), o ideal, para vivermos mais tempo e com melhor qualidade de vida, é mantermos um equilíbrio na ingestão de alimentos alcalinos (como as verduras e frutas) e de alimentos ácidos de alto valor nutritivo (como a carne, peixe, aves, marisco e ovos).

Voltando ao tipo de água que precisa, se for à secção das águas no supermercado, vai verificar que a maioria delas tem um pH inferior a 6,0 e uma mineralização total abaixo dos 50 mg/L. Se costuma beber água engarrafada, opte sempre pelas águas com um pH acima de 7,0 (mais parecido com o pH do nosso sangue, que varia entre os 7,35 e 7,45) e com uma mineralização total acima de 200-250 mg/L (nota: os filtros de osmose reversa retiram todos os minerais da água).

As águas engarrafadas que conheço a nível nacional que cumprem com estes requisitos são a Carvalhelhos, a Vimeiro original (esta é altamente mineralizada) e a água de Monchique.

Pedro, mas eu ouvi dizer que as águas engarrafadas não são boas e que é melhor beber água da torneira?

Pois, eu também já ouvi dizer a mesma coisa e isso até pode ter algum fundamento. O problema da água engarrafada é porque a mesma é embalada em plástico, e este tipo de plástico quando exposto ao calor liberta uns compostos potencialmente tóxicos e lipogénicos chamados xenoestrogéneos, que mimetizam a ação do estrogénio (uma hormona feminina) no nosso corpo, e passam essa “informação” para a água que bebemos. Ou seja, os xenoestrogéneos têm a capacidade de afectar a sinalização hormonal e por via dessa ação, podem gerar alguns desequílibros no nosso sistema endócrino. Nos homens, a evidência é maior no que diz respeito aos problemas de fertilidade (link, link, link), nas mulheres parece que podem aumentar o risco de cancro de mama (link, link, link).

Portanto, aquilo que pode fazer para minimizar os efeitos destes compostos na sua saúde, no que à ingestão de água diz respeito, é optar pelos recipientes de vidro e ter o maior cuidado para não expôr as águas engarrafadas directamente ao sol e ao calor (embora isso já possa ter acontecido anteriormente no processo de transporte para o supermercado).

Finalmente, para saber se a água da torneira da sua casa é realmente boa, aquilo que pode fazer é informar-se de onde é que ela vem, qual o seu percurso até chegar à sua casa e qual o seu pH (para fazer este último passo, vai precisar de comprar um medidor de pH).

Nota do Pedro: Eu não lhe quero assustar, mas estes disruptores endócrinos (xenoestrogéneos) não estão presentes apenas nas garrafas de água, estes compostos estão presentes em todos os recipientes de plástico que utilizamos no nosso dia-a-dia, como por exemplo nos tupperwares, nos shampôs, nos cremes de corpo, nos desodorizantes e na maioria dos produtos de cosmética. Portanto, aquilo que pode fazer para minimizar o impacto destes compostos que afetam a sinalização hormonal no nosso corpo, é fazer uma dieta desintoxicante constante, com treino físico a condizer.

É possível beber demasiada água?

Apesar de ser muito mais comum a desidratação entre a população geral (e se ainda está a ler este post, o mais provável é que esteja desidratado(a) e precise de fazer uma pequena pausa para ir buscar um copo com água e voltar imediatamente à leitura), é verdade que também é possível beber demasiada água.

Além da desidratação (pouca água em relação aos restantes solutos), existe uma condição chamada hiponatremia (demasiada água em relação às concentrações de sódio), que pode causar efeitos profundamente negativos no corpo.

A hiponatremia ocorre quando as concentrações de sódio baixam os 135 mEq/L. Existem três tipos comuns de hiponatremia (hipovolémica – volume sanguíneo baixo; euvolémica – volume sanguíneo normal e hipervolémica – volume sanguíneo alto), com causas ligeiramente diferentes entre si e que estão para além do escopo deste artigo. No entanto, alguns síntomas iniciais podem gerar desconforto gastrointestinal, náuseas, vómitos, dores de cabeça, inchaço nos pés e mãos, confusão e agitação. Num estado mais avançado, esta condição pode trazer consequências extremamente graves, ao produzir edema cerebral (fluido em excesso no cérebro) e levar à morte.

Embora seja muito importante beber água para prevenir a desidratação, é preciso que todas as pessoas que fazem exercício físico, especialmente os atletas dos desportos de endurance (link), tenham o maior cuidado na reposição de fluidos e electrólitos (não só o sódio, mas também o potássio, cloro, cálcio e magnésio) para evitar os danos provocados pela sobrehidratação e pelos baixos níveis de sódio no sangue.

Alguns exemplos mais comuns de casos de hiponatremia incluem os maratonistas, os participantes em eventos de longa duração (Iron Man, Ultramaratonas, etc.), e alguns estudantes universitários que, depois de tomarem Ecstasy, bebem demasiada água e alteram o equilíbrio de fluidos no corpo!

Posso ficar doente por estar constantemente desidratado(a)?

“You’re not sick; you’re thirsty. Don’t treat thirst with medication.”

Segundo o autor da frase acima, o médico Fereydoon Batmanghelidj, a desidratação está na base de muitas das doenças da atualidade. Ele explica essas relações no livro “Your Body’s Many Cries for Water” e noutros documentos científicos, que ele amavelmente partilha neste site www.watercure.com.

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Batmanghelidj revela num relatório publicado no editorial do Journal of Clinical Gastroenterology em Junho de 1983, que mais de 3.000 pessoas com dispepsia, isto é, com perturbações no sistema digestivo, foram tratadas apenas com um aumento na ingestão de água. Quando existe desidratação, a mucosa gástrica (a camada mais interior do estômago) vai ficar mais fina, permitindo que o ácido do estômago passe mais facilmente para os tecidos e orgãos circundantes, causando dor e/ou refluxo esofágico. A forma mais natural para evitar que isto aconteça e para mantermos a nossa mucosa gástrica bem hidratada consiste em beber água de forma regular, particularmente antes das refeições (30 minutos antes). Os antiácidos (omeprazol, nexium, losec e outros) não vão resolver o problema, uma vez que o seu papel consiste em diminuir a produção natural de ácido clorídrico pelo estômago. Uma das funções do nosso estômago é esterilizar os alimentos, isto é, produzir o ácido necessário para a digestão adequada dos alimentos. É verdade que tomar antiácidos pode ajudar a resolver o seu desconforto imediato mas esta está longe de ser uma solução sustentável. No médio / longo prazo, um ambiente de baixa acidez no estômago vai abrir caminho para a passagem de bactérias patogénicas aumentando o risco de infeção (link), para a deficiente absorção de nutrientes (link, link) e para um maior risco de fracturas ósseas (link) e doença cardiovascular (link).

Portanto, além destas drogas constituirem uma proteção ineficiente e contrária à nossa fisiologia, podem desencadear o aparecimento de outros problemas.

Outras doenças que o Dr. Batmanghelidj menciona no livro  e que podem estar perfeitamente relacionadas com o constante estado de desidratação em que a maioria de nós nos encontramos são: artrite reumatóide, dores nas costas, dores de cabeça, stress, depressão, hipertensão, colesterol descontrolado, obesidade,  asma, alergias, Alzheimer e diabetes.

Conclusão

Se olharmos para a quantidade de água presente no nosso sangue, nos vários orgãos do nosso corpo e no nosso corpo em geral, é capaz de fazer sentido que a falta de água pode estar na origem de vários problemas de saúde a que, normalmente, não associamos. Isto parece-me perfeitamente lógico e não são precisas grandes explicações científicas para perceber isto.

Beba água mais vezes, beba um copo de água ao acordar, tente beber sempre 30 minutos antes das refeições (atenção que isto não é para suprimir o apetite mas sim para aumentar a hidratação da mucosa gástrica e melhorar o processo de digestão dos alimentos) e faça por beber água de forma constante ao longo do dia, atendendo às suas necessidades específicas.

Por vezes temos tanta informação à nossa disposição, que esquecemo-nos de olhar para o óbvio e pensar naquilo que é de facto fundamental. E, neste caso, é mais do que óbvio que a água tem um papel fundamental na melhoria da nossa saúde e performance.

Até breve!

Referências

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Batmanghelidj, F. A New and Natural Method of Treatment of Peptic Ulcer Disease. Journal of Clinical Gastroenterology Editorial 5:203-205, 1983.

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Congresso Practice 2013 – Lisboa

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Será nos próximos dias 26 e 27 de Outubro, que decorrerá o Congresso Practice, na Universidade Lusófona de Lisboa e o tema da edição deste ano é “Tecnologia ao Serviço da Medicina do Exercício”.

Este Congresso, que já se realiza há alguns anos, tem como objectivo promover a divulgação e discussão dos efeitos terapêuticos da Actividade Física, do Exercício e Desporto em vários problemas de Saúde Pública, salientando as sinergias que podem ser criadas entre a Ciência Médica e a Ciências do Exercício.

O ano passado foi a primeira vez que participei neste Congresso, e, este ano, lá estarei novamente. Este tipo de eventos, além de servir para ficarmos ao corrente das novas tendências na área do Exercício e Saúde, são também excelentes oportunidades para revermos alguns colegas / amigos e para aprendermos mais algumas coisas.

Podem consultar todas as informações aqui: http://www.practice.com.pt/pt/

Até breve!