7 Coisas que o Paulo Bento deve saber para prevenir futuras lesões musculares

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As lesões musculares dos jogadores portugueses no Mundial de futebol têm corrido muita tinta e, segundo consta, tem havido muitas opiniões a este respeito de muitas eminências e gurus futebolísticos (sou só eu que acha estranho que haja tantos eruditos no futebol?). Mas eu não vou entrar nessa discussão, eu não vou dar a minha opinião sobre a convocatória dos jogadores, sobre os cortes de cabelo dos jogadores, ou sobre a táctica ou estratégia definida pelo Paulo Bento nos recentes jogos do Mundial. Já existem muitos treinadores de bancada a fazer esse trabalho e eu não tenho competência nem inteligência suficientes para essas discussões.

Pensei várias vezes se deveria escrever este artigo por respeito ao trabalho da maioria dos desportistas das outras modalidades desportivas que não o futebol. Afinal o futebol já tem demasiado tempo de antena nos orgãos de comunicação social, é uma indústria que enriquece muita gente e o que mais me entristece é assistir a situações de contínua estagnação neste meio (sim, estou a ser simpático). Mas depois pensei, isto se calhar pode despertar a atenção para os treinadores ou profissionais das outras modalidades desportivas que pretendem acompanhar a mudança (i.e. evoluir) e que querem ajudar a melhorar a performance e saúde dos seus atletas. E, neste contexto, é possível que o conteúdo que vem a seguir tenha algum interesse.

Recordo que ninguém pratica desporto parado e se há coisa que não podemos evitar nas nossas vidas é o movimento, ou seja, convém prestar atenção à qualidade de movimento individual antes de começar a fazer atividades mais dinâmicas como correr, saltar e mudar de direção. Por outras palavras, se os atletas não têm competência funcional no sistema músculo-esquelético para fazer um padrão de movimento fundamental como um agachamento simétrico e sem restrições na sua amplitude, o melhor é corrigir esta situação em primeiro lugar. Este é apenas um exemplo.

Sem mais demoras (e porque o Paulo Bento precisa de começar a preparar o Europeu), aqui estão sete coisas que todos os treinadores desportivos deveriam ter em conta para prevenir lesões e para melhorar a performance dos seus atletas.

1. Historial de lesões anteriores

Quem trabalha na área da reabilitação / recuperação de lesões sabe isto muito bem. O principal factor de risco para uma lesão é uma lesão anterior. As pessoas / atletas que sofreram uma lesão vão ter uma diminuição dos sensores proprioceptivos se a lesão não for tratada ou se a lesão for tratada de forma inadequada. Uma perturbação a este nível terá um efeito negativo nos comportamentos relacionados com os padrões de movimento fundamentais. Porquê? Porque isto vai alterar a estabilidade e mobilidade corporal, vai criar assimetrias corporais, e o corpo ver-se-á obrigado a encontrar mecanismos de compensação para fazer o seu trabalho. O objetivo inicial da reabilitação na gestão de uma lesão é a redução de dor e dos síntomas associados a essa dor, mas o problema é que a ausência de dor e a resolução desses síntomas não indicam que os indicadores disfuncionais observados no sistema músculo-esquelético foram restaurados com sucesso. Ou seja, é perfeitamente possível não sentir dores e gozar de movimento disfuncional na mesma – a malta dos anti-inflamatórios costuma fazer isto com recorrência. Querem um exemplo prático? Vejam se os vossos atletas são capazes de tocar com os dedos na ponta dos pés sem flectir as pernas.

2. Assimetrias Corporais

As assimetrias corporais constituem mais um factor de risco de lesões musculares e isto deveria ser constantemente monitorizado pelos profissionais que acompanham os atletas. As modalidades desportivas não existem para promover simetria, as modalidades desportivas existem para jogar, para competir contra o adversário, para bater recordes. A simetria tem que ser ganha através de intervenções específicas no âmbito do espectro reabilitação / preparação física, não é durante o treino de táctica que os atletas vão ganhar simetria. Obviamente que o objetivo de um tenista ou de um jogador de futebol não é fazer o melhor agachamento do Mundo, não é isso que o motiva. Mas pensem no seguinte: antes do indivíduo em causa ser um atleta, ele é um ser humano e um ser humano precisa de movimento simétrico e funcional em primeiro lugar. Um ser humano que pretende viver com uma qualidade de vida acima da média precisa de boa mobilidade e estabilidade bilateral / simétrica nos tornozelos, joelhos, ancas, tronco e ombros. Portanto, um atleta (i.e. ser humano) que pretende obter resultados acima da média também tem que compreeender que se a sua base de movimento for assimétrica, a sua performance vai ficar comprometida e o tempo no estaleiro vai aumentar.

3. Controle Motor / Estabilidade nos padrões de movimento básicos

A nossa cultura de movimento é muito limitada. A maioria das pessoas e atletas está mais interessada no número de repetições (volume) e na carga que fazem num determinado exercício que nos aspectos funcionais que esse exercício pode proporcionar para a sua vida / modalidade. A qualidade de movimento é algo que pouca gente compreende porque normalmente as pessoas que não têm dores nas costas ou outro tipo de queixas pensam que estão bem de saúde. Lembrem-se: movimento disfuncional não é sinónimo de saúde. As pessoas estão mais interessadas em queimar calorias que em produzir movimento de boa qualidade. No que diz respeito à performance, salvo honrosas exepções, passa-se um pouco o mesmo, dâ-se mais ênfase aos aspectos vísiveis de rendimento (força, resistência, velocidade, potência) que aos aspectos vísiveis de movimento. E por isso é que vemos atletas que não são capazes de se equilibrar numa perna (alguém já pensou que correr é uma forma dinâmica de equilibrar-se numa perna centenas de vezes seguidas?), de fazer uma flexão mantendo total controle postural do tronco ou de simplesmente tocar nos dedos dos pés. Se há uma lição que eu aprendi nos meus treinos de artes marciais e no halterofilismo foi essa: a precisão de movimento e a nossa capacidade de controlar o corpo é o que faz a diferença entre um atleta normal e um atleta exepcional. É fundamental integrar este tipo de trabalho no treino.

4. Qualidade da Alimentação (ou será que bacalhau com arroz doce é suficiente?)

A julgar por esta notícia do passado mês de Maio, parece que ninguém na seleção está preocupado com os substratos energéticos que os jogadores precisam para render ao mais alto nível e para atenuarem os efeitos inflamatórios do treino que fazem. Segundo esta notícia parece que os médicos da seleção são os nutricionistas de serviço e o Chefe Loureiro é a pessoa que põe os jogadores na ordem. Quem disse que os médicos não percebem de nutrição desportiva? Eles até costumam ser magros e estar em boa forma física. Agora a sério, se aquilo que é noticiado aqui é verdade, permitam-me colocar a seguinte questão: como é que uma estrutura (alegadamente) tão profissional como o futebol e que tem tantos recursos (dinheiro) à sua disposição pode negligenciar um factor tão decisivo como a nutrição na performance dos jogadores? Será apenas ignorância? Ou será que alguém não anda a fazer o trabalho de casa? Deixe-me dizer-lhe uma coisa, eu fui atleta de natação durante muitos anos e nós (equipa do clube) nunca tivemos qualquer tipo de acompanhamento a este nível. Apesar de reconhecer que isso foi uma limitação no meu / nosso percurso enquanto atleta(s), estou também consciente que estamos a falar de um cenário de clube que, provavelmente, teria poucos recursos à sua disposição. Mas isso não é o caso da Seleção Nacional de Futebol, a julgar pelo tratamento e pelos montantes diários que os jogadores recebem por estarem lá presentes, o que não falta na Federação Portuguesa de Futebol são recursos financeiros para investir em profissionais com competências nesta área.

A qualidade / riqueza funcional dos alimentos que ingerimos tem o potencial de tornar um bom atleta num atleta excelente e um atleta excelente num bom atleta. Além do seu impacto na saúde, composição corporal e performance, a dieta tem um papel fundamental na correção de deficiências nutricionais, na proteção do sistema imunitário e na prevenção e recuperação de lesões. Alguém conhece atletas que não estejam interessados em aumentar a sua longevidade e a ficarem doentes menos vezes?

5. Hidratação

Já escrevi aqui um post sobre a importância da água na nossa saúde e já tinha mencionado que basta apenas 1% de desidratação para haver reduções na capacidade aeróbia. A temperatura e humidade elevadas (as condições que os atletas da Seleção encontraram no Brasil) podem aumentar consideravelmente as necessidades de hidratação.

A tabela abaixo foi retirada do livro The Peformance Zone: Your Nutrition Action Plan for Greater Endurance & Sports Performance do Dr. John Ivy (PhD) e do Dr. Robert Portman, (PhD).

Water and Physical Performance

As perguntas que vocês estão a pensar são as mesmas que as minhas. Será que os médicos da seleção fizeram as contas da quantidade média de água diária, de glucose e dos electrólitos (sódio, potássio, cloro, magnésio) que os jogadores tinham que repôr para evitar o risco de desidratação, lesão ou outros problemas mais graves? Ou será que isto era da responsabilidade do Chefe Loureiro? Bom, por esta altura não interessa quem devia fazer esse trabalho, aquilo que interessa é que é preciso alguém com competências para fazê-lo, quanto mais não seja para prevenir lesões ou outros problemas de saúde mais graves.

6. Regeneração / Recuperação

Work + Rest = Success.

Isto foi uma das coisas que aprendi já há alguns anos na Universidade: um atleta de alta competição treina 24 horas por dia e o descanso faz parte dessa equação. Se um atleta profissional tem 24 horas por dia à sua disposição, ele precisa de reservar pelo menos 8 ou 10 horas de sono por dia para recuperar do stress induzido pelo treino. O sono é fundamental para otimizar a recuperação e no caso de atletas de alta competição até pode fazer sentido incluir pequenas sestas após o período de almoço ou antes do treino da tarde. Durante uma sesta de 20 minutos o corpo vai entrar em frequências cerebrais que ajudam à memória, aprendizagem motora, à recuperação mental e ao relaxamento geral. Outras estratégias de regeneração, incluem massagem miofascial, manipulação manual de tecidos moles (com tantos fisioterapeutas na Seleção penso que isto não é um constrangimento), alongamentos ativos e hidroterapia.

7. Níveis de Vitamina D dos atletas

Se há um marcador que tem uma importância tremenda na regulação de vários sistemas do nosso corpo é a vitamina D, e o sistema músculo esquelético não é exepção. A deficiência ou insuficiência de vitamina D é bastante comum em atletas, sobretudo naqueles que treinam em recintos cobertos. Neste estudo, apresentado na conferência anual da American Orthopaedic Society for Sports Medicine, os investigadores avaliaram 89 jogadores de futebol americano dos New York Giants e verificou-se que mais de 80% dos atletas dos tinham níveis deficientes e insuficientes de vitamina D. Dos 16 atletas que tiveram lesões musculares, os níveis médios de vitamina D eram de 19,9 ng/mL, um número mais baixo que os níveis de vitamina D médios dos atletas que não tiveram lesões musculares (24,7 ng/mL).

Nos últimos anos tem surgido na literatura científica algumas revisões a explicar os processos biológicos envolvidos na função muscular, bem como alguns estudos a reportar deficiências de vitamina D em atletas de elite. Pela relevância desta situação, se calhar também valeria a pena avaliar se os atletas da seleção nacional de futebol têm níveis adequados de vitamina D.

Notas Finais

Este artigo não tem como objetivo ofender as pessoas, nem as instituições citadas, mas sim contribuir para uma reflexão mais objetiva de alguns indicadores que podem ser importantes na prevenção de lesões e na melhoria da performance. Apesar de não ter perdido o sono por causa da eliminação de Portugal no Mundial, teria preferido que o rendimento da Seleção Nacional fosse bem melhor.

Por último, julgo que os treinadores de modalidades desportivas também precisam de considerar estas coisas se querem que os seus atletas comecem a obter resultados cada vez melhores. A performance é influenciada por muitos factores, pensar que fazer sempre o mesmo durante 10 ou 20 anos seguidos é sinal de experiência, é o mesmo que bater na parede com um capacete e ficar à espera que não surjam dores de cabeça.

E vocês? O que pensam? Acham que devia acrescentar alguma coisa?

Até breve!

Referências

Cook, G. et al. Movement (2010). Lotus Publishing.

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