O Mito do Leite Desfeito

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Aproveitando o sucesso do post do outro dia e tendo em conta o feedback que tenho obtido junto de algumas pessoas, julgo ser importante partilhar mais uma comunicação do Dr. Laír Ribeiro, desta feita sobre o leite e sobre o seu impacto nocivo na nossa saúde.

Vou dividir este post em três partes.

A primeira parte é a minha resposta a uma questão que me colocaram há uns tempos atrás na minha página de Facebook sobre os principais problemas associados ao consumo de leite de vaca.

Nota do Pedro: Se não tiverem tempo de ver o vídeo neste momento leiam pelo menos esta parte e tomem nota para ver o vídeo noutro dia. Se tiverem tempo de ver o vídeo podem saltar esta parte.

A segunda parte diz respeito às declarações veiculadas no início do ano por Pedro Graça, o diretor do programa de Alimentação Saudável da Direção Geral de Saúde (DGS), nas quais afirmou que o leite, entre outros alimentos de qualidade nutritiva inferior (pão e leguminosas), eram alimentos essenciais.

Nota do Pedro: Tendo em conta a irresponsabilidade destas declarações perante um assunto de suprema importância para a saúde pública, é bom que tenham conhecimento do mal que temos sido aconselhados a este nível.

A terceira parte, a mais importante de todas, é a excelente conferência do Dr. Laír Ribeiro, que vem desfazer mais um mito instalado na nossa sociedade – que o leite é fundamental para sermos grandes, fortes e para termos uma saúde óssea ideal.

Nota do Pedro: Recomendo que veja o vídeo com muita atenção e que tenha em consideração que tudo aquilo que é reportado é baseado na evidência científica e não nos eventuais interesses / lobbies da indústria alimentar.

Sem mais demoras, vamos ao que interessa.

Parte 1 – A minha resposta

“Em relação ao leite é importante estabelecer em primeiro lugar que nós somos os únicos mamíferos que, após a fase de amamentação, continua a beber leite, ainda por cima de outra espécie. Nem as vacas consomem o seu próprio leite (os bezerros são alimentados com leite materno até aos 6-8 meses). Desde uma perspectiva evolucionista, os nossos antepassados apenas consumiam leite materno e este sim tem um conjunto de nutrientes essenciais ao nosso desenvolvimento e à nossa imunidade. Agora, o leite de vaca pasteurizado tal como o conhecemos e consumimos hoje em dia (o processo de pasteurização mata as enzimas presentes no leite e destrói os potenciais nutrientes benéficos do mesmo, como os minerais, vitaminas e aminoácidos) tem muito pouco valor acrescido se consumido com regularidade.

Na verdade, o consumo de leite está associado a muitas patologias decorrentes de um estado de inflamação crónico, que vai desde a intolerância à lactose (podendo causar náuseas, vómitos, diarreia, flatulência), à resistência à insulina (apesar de o leite e derivados serem alimentos com uma carga glicémica baixa, o seu efeito na libertação de insulina é muito grande, podendo causar vários problemas de saúde tais como obesidade, diabetes, hipertensão, aterosclerose, alguns tipos de cancro e doença de parkinson), até ao desenvolvimento de doenças auto-imunes tais como esclerose múltipla, artrite reumatóide, diabetes tipo I. Portanto a qualidade do leite que se bebe actualmente é muito fraca e aparenta ter mais riscos que benefícios. Agora, cada pessoa reage ao leite e seus derivados de forma diferente, o meu conselho é que estejam atentos a esses sinais.

PS – Em relação à questão do cálcio no leite e à necessidade que se impõe beber leite por causa do cálcio, para manter os ossos fortes, é importante perceber que a taxa de absorção de cálcio nos lacticínios é muito semelhante à das couves e brócolos por exemplo e ainda que os nossos ossos precisam de outros nutrientes como o magnésio, vitamina D e vitamina K para uma saúde óssea ideal (o treino de força também faz parte da equação). Portanto, o consumo de cálcio por si só, não vai aumentar a absorção de cálcio, se não for tomado em conjunto com este tipo de nutrientes. Aliás, se a nossa dieta for demasiado ácida (e recordo que os queijos em particular apresentam uma carga ácida elevada), a excreção de cálcio através da dieta vai ser aumentada, o que é mau para nós. Pelo contrário, se a nossa dieta for mais alcalina com a ingestão de mais verduras, menos açúcares e menos alimentos processados, o nosso corpo vai absorver o cálcio que precisamos para prosperar. Finalmente, acho ainda importante referir que os homens do Paleolítico, apesar de não beberem leite após a amamentação, apresentavam uma densidade mineral óssea igual ou superior à de actuais adultos saudáveis e activos. Espero que tenha ajudado.”

Parte 2 – As declarações irresponsáveis do Diretor do programa de Alimentação Saudável da Direção Geral de Saúde

Passo a citar:

Pedro Graça, Diretor do programa de Alimentação Saudável da DGS, deu  conta à TSF dos alimentos essenciais para este ano: «leite, hortículas, água, pão, leguminosas (feijão, grão, ervilhas)».

Só o leite, lembra Pedro Graça, dá-nos muito daquilo que precisamos diariamente. «Um só copo de leite, que é muito barato, dá mais de 25% daquilo que precisamos por dia de cálcio, vitamina D, fosforo».

A alimentação ajuda a prevenir. «O trabalho da alimentação é sempre de prevenção, tem que haver um investimento diário porque não há soluções milagrosas», defendeu Pedro Graça.

Pode ver a notícia aqui ou se preferir pode ouvir as declarações aqui (são cerca de 2 minutos).

Parte 3 – O Mito do Leite por Dr. Laír Ribeiro

Eu espero que isto seja uma resposta fundamentada. É possível que algumas pessoas fiquem contentes e que outras fiquem tristes ou mesmo zangadas. Mas isto não se trata de ver quem tem razão ou não. O objetivo deste trabalho não é esse, o objetivo deste trabalho consiste em apurar a verdade e informar as pessoas nesse sentido.

Se acham (como eu) que este tipo de informação é útil e do interesse geral, partilhem com os vossos amigos, familiares, conhecidos e todos os profissionais de saúde.

Até breve!

Pedro Correia

18 thoughts on “O Mito do Leite Desfeito

  1. Gostei da informação transmitida, (simplicidade,qualidade de informação, e foi transmitida numa linguagem perceptível). Fiquei «baralhado », em relação ao consumo de leite.

  2. Boa noite Pedro! Aproveito desde já para o felicitar pelo excelente blog.
    Queria colocar-lhe uma questão: o problema de consumirmos leite será da má qualidade com que nos chega ao supermercado? Se for leite de um animal que é alimentado e criado por nós em nossa casa não o poderemos considerar um bom alimento, da mesma forma que outros alimentos criados em casa (carne, ovos, produtos hortícolas, etc.)?
    Não sei se me fiz perceber. Desde já, aguardo a sua resposta. Obrigado.
    Boa continuação.
    David Pires

      • Obrigado David pelos comentários. O problema do leite do supermercado é que aquilo é tudo menos leite, tudo o que potencialmente poderia ser benéfico é destruído pela pasteurização. Se conseguir beber leite directamente da teta da vaca e se a vaca for devidamente alimentada e tratada, até pode ter alguns benefícios. No entanto, vai perceber que os riscos não compensam e, no fim de contas, nós não temos necessidade de fazer isso. Veja o vídeo.

        Um abraço.

  3. Parabéns pelo site, continue o bom trabalho. Entretanto, é importante destacar, a palestra do Lair Ribeiro tem informações de várias fontes, obviamente com solidez e seriedade que valem a pena ser consideradas. Mas o palestrante é conhecido no Brasil como charlatão, porque dá palestras sobre tudo e sobre nada, equivalendo-se a literatura de auto-ajuda. Ou seja, academicamente não tem expressão, e não é levado a sério, fazendo seu nome como palestrante profissional (bem, não é preciso ser brilhante para notar o seu discurso claudicante). Apenas aponto isso, para não colocar em ressalva o conteúdo e a bela iniciativa de divulgar o tema, igualmente louváveis.

    • Obrigado Caio pelo comentário.

      É curioso destacar esse aspecto porque essa foi a pimeira impressão com que fiquei quando comecei a conhecer o seu trabalho há algum tempo atrás. No entanto, depois de conferir o seu currículo e as suas publicações a nível científico, pude constatar que estamos perante alguém que sabe do que fala e que fez as devidas investigações. Agora se é charlatão ou não, nesta área não me parece que seja.

      Já agora, parece-me importante frisar o seguinte para não induzir as pessoas em erro. A única imprecisão que comete na sua apresentação (mas que tem uma importância menor na mensagem que é veiculada) é quando confunde a enzima lactase (a enzima responsável pela degradação da lactose) com a lactose (o açúcar presente no leite), para explicar a nossa intolerância à lactose e os problemas que podem advir desse processo. Eu acredito que ele enganou-se sem querer porque mais para a frente, quando ele volta a falar do assunto, corrige a situação.

      Um abraço.

      • Pois é, ele de facto parece mesmo bem fluído, e tenta trazer o tema para um nível de entendimento mais próximo das pessoas, e menos especializado, e nisto há mérito, pois quantas vezes isto fica restrito à torre de marfim? Mas também “engana-se” no começo quando diz que “quase todos (ou todos?) os lactobacilos são destruídos no processo de pasteurização”. Acho que é alguém que leu MUITO, com certeza, mas são pequenos deslizes que denunciam. Decidi escrever porque acho que sua seriedade com o tema está muito além da dele, e evitar assim futuras ressalvas sobre legitimidade de discurso. Além do que, após burlões se passarem por especialistas da ONU, tudo é possível não é? Aposto que alguém com um curriculo como que ele alega ter, se fosse verdade, não estaria publicando sobre o tudo e sobre nada, e estaria em um sitio de prestigio. No campo academico, chamamos de coerência vertical a especialização de um investigador, e claramente isto ele não tem. Mas só mesmo indo atrás das fontes para confirmar =). Mas fica só o alerta, parabéns pelo site, e muito sucesso! um abraço

  4. Antes de mais quero dar os parabéns pelo blog e por tudo o que aqui tem sido partilhado.
    Sou seguidor há relativamente pouco tempo e esta é a primeira vez que aqui escrevo.
    Em relação ao leite…estou um pouco surpreendido pois, tal como muitos, bebo leite diariamente…
    Não foi uma novidade para mim que há intolerância à lactose e que certos povos não consomem leite. Também já tinha lido que se calhar não era tão bom como eu pensava mas não fazia ideia que poderia ser mesmo mau!!
    Se vencer o preconceito já não é fácil (mas com vontade faz-se) fica depois a questão mais prática: como “substituir” o leite para quem o usa para juntar a cereais, café, etc…?
    Outra questão que me ocorreu é em relação à whey. Sendo esta produzida (?) a partir do leite não sofrerá, também, de alguns do problemas mencionados em relação a este?
    Agradeço desde já a sua resposta.
    Cumprimentos,

    • Olá João e obrigado pelo comentário.

      Em relação às suas questões:

      1) Se pretende substituir o leite, o melhor que me ocorre é o leite de côco, leite de amêndoa e/ou leite de arroz, por esta ordem, no entanto confirme sempre a quantidade de açúcar contida nos mesmos já que, por vezes, a mesma é demasiado elevada. Em relação aos cereais, tenha em conta que os mesmos também podem causar problemas semelhantes ao leite.

      2) A whey é uma das proteínas do leite (a outra é a caseína) mas a sua quantidade em lactose (o tal açúcar que temos alguma dificuldade em digerir por causa da produçao insuficiente de lactase) é relativamente pequena e mesmo que o fabricante diga que não existe, ela existe. Portanto, à partida, haverá menos problemas na ingestão de whey no que diz respeito à intolerância à lactose. Mas infelizmente existem outros. A proteína whey que está à venda nas lojas de nutrição desportiva – e eu creio que já vi todas as embalagens, além de ser produzida a partir de vacas mal alimentadas, contém aditivos químicos e espessantes que podem causar alguns problemas. Portanto, o whey, na minha opinião, só compensa se for consumido através de vacas alimentadas em pasto.
      Espero que tenha ajudado.

      Um abraço.

  5. Olá Pedro.No último comentário sugeres a whey apenas alimentada a pasto. Sendo assim, na ausência de whey o que incluirias num pós treino de resistência muscular e outro de cardio (rpm) ? Obrigada

  6. Boa tarde prof. Pedro

    Queria antes de mais elogiar o trabalho que desenvolve neste blog, mas tenho umas questões, que queria que me elucidasse.

    1º- O leite não é o produto que nos faz bem, mas li num post (mais precisamente numa resposta), que se podia ingerir iogurte grego natural, mas será que o iogurte não é também prejudicial, visto que vem do leite?

    2º- Se o iogurte natural for benéfico, tem que ser grego ou pode ser de outra marca (marca branca)?

    3º- Sei que o leite de soja não é um grande alimento, mas se comer a soja,cozida por exemplo, é igualmente mau ou não?

    4º- O feijão é bom ou mau?

    5º- podia-me explicar as diferenças entre as gorduras monoinsaturadas, polinsaturadas e as outras?

    Peço desculpa por este rol de perguntas, mas são algumas questões que queria ver esclarecidas.

    PS: será que consegue arranjar referências para este post?

    Cumprimentos
    Sara Ferreira

    • Olá Sara,

      Obrigado pelo comentário.

      As respostas:

      1) O processo de fermentação do leite em iogurte reduz bastante o conteúdo em lactose e tem probióticos (bactérias boas) – isto pode ajudar a melhorar a função digestiva e a fortalecer o sistema imunitário.
      2) O iogurte pode escolher da marca que quiser (os do LIDL são bons) mas convém sempre ler o rótulo primeiro, o grego é uma boa opção.
      3) Soja, só se for fermentada, por causa dos probióticos.
      4) Não é possível responder a essa pergunta de forma absoluta. Se decidir comer recomendo que demolhe de um dia para outro e que os coza muito bem para eliminar os anti-nutrientes lá presentes.
      5) As gorduras monoinsaturadas têm uma ligação dupla de carbono (ex: azeite), as polinsaturadas têm várias ligações duplas de carbono (ex: gorduras ómega-3 e ómega-6) e as gorduras saturadas não têm ligações duplas (ex: manteiga).

      No vídeo tem algumas referências, se tem interesse em saber mais consulte o PubMed http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed.

      Cumprimentos.

  7. Boa noite prof pedro

    Em relação aos iogurtes, eu comprei no continente ( publicidade à parte) iogurtes naturais (não açucarados), e qual o meu espanto que quando chego a casa e os mesmos tem cerca de 3gramas de gordura saturada.
    No rotulo dizia: lipidos 4,7gramas dos quais saturados 3gramas.
    A minha dúvida é, visto a gordura saturada ser má, estes iogurtes então são de desconfiar.
    Cumprimentos

  8. Boa tarde prof Pedro

    É verdade que o leite acidifica o sangue, e é por essa razão que o corpo liberta cálcio para por o sangue novamente alcalino?
    Já agora a proteína do soro do leite não fará mal?

    Cumprimentos
    Ricardo Macedo

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