Que Futuro para a Educação Física?

Nick Wasik

“Nenhum cidadão tem o direito de ser um amador em relação às questões do treino físico…que desgraça seria para um homem envelhecer sem nunca ver a beleza e a força que o seu corpo é capaz.”

– Sócrates (469 a.C. – 399 a.C.)

No início deste ano foi noticiado no jornal Público que a Educação Física nas escolas era o elo mais fraco e que os professores de Educação Física estavam indignados com aquilo que estava a acontecer à disciplina. Segundo aquilo que sei os professores já estão indignados há muito tempo com esta situação e eu percebo porquê, ninguém no seu perfeito juízo poderia pensar que a disciplina de Educação Física é menos importante que a Matemática ou que o Português. A questão é esta: será que para termos uma sociedade evoluída podemos vilipendiar o papel da Educação Física na formação dos nossos alunos? Será mais importante termos seres humanos obesos/doentes e com hábitos de vida sedentários ou seres humanos em boa forma física com hábitos de vida saudáveis? Pense nisto por um momento: quais serão aqueles seres humanos que terão maior probabilidade de contribuir para o enriquecimento da nossa cultura? Sim, estou a falar de cultura.

Num estudo efectuado pela Faculdade de Motricidade Humana entre 2007 e 2012 (em 3000 alunos do 3º ciclo de 13 escolas do Concelho de Oeiras), verificou-se que os alunos que fizeram mais exercício físico tiveram um maior aproveitamento nas disciplinas de Matemática, Português, Ciências e Inglês. Noutro estudo (LINK) publicado pelo British Journal of Sports Medicine em 2013, verificou-se algo semelhante, a performance a longo prazo dos alunos melhorou quando os mesmos fizeram exercício físico diário moderado e vigoroso. Estes estudos devem dar suporte à ideia que a Educação Física tem um papel fundamental no desenvolvimento equilibrado de um ser humano. Provavelmente um ser humano mais competente do ponto de vista físico será também um ser humano mais competente do ponto de vista intelectual, social e emocional.

O médico psiquiatra John Ratey da Harvard Medical School refere que o exercício físico é a ferramenta mais poderosa que temos à nossa disposição para otimizar a função cerebral e para combater a depressão. A premissa é esta: o exercício físico (i.e. o movimento) vai causar a libertação de várias hormonas, neurotransmissores e factores de crescimento que vão melhorar o ambiente interno do cérebro. Se você está interessado em saber mais sobre isto, eu não posso deixar de recomendar o seu livro Spark: The Revolutionary New Science of Exercise and the Brain e/ou esta TED Talk de 10 minutos.

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E agora você pergunta (com a natural preocupação de uma mãe ou pai que deseja o melhor para os seus filhos) – será que o meu filho precisa de jogar futebol nas aulas de Educação Física para se converter num ser humano mais equilibrado? Será que o meu filho precisa de ser um aluno exemplar na execução de uma habilidade técnica específica de uma determinada modalidade desportiva, como por exemplo um lançamento na passada no basquetebol? A minha opinião em relação a isto é esta: o objetivo da Educação Física não é expôr os alunos a bolas de diferentes tamanhos e a diferentes modalidades desportivas na esperança que eles venham a gostar de fazer desporto. Eu não digo que isto não possa acontecer com a finalidade de introduzir alguma variedade nas aulas, mas isto não pode ser de forma alguma o objetivo central das aulas de Educação Física, há coisas mais importantes para fazer.

A Educação Física não é futebol, não é basquetebol, não é voleibol ou qualquer outra modalidade específica. Estas modalidades e o treino das respetivas habilidades técnicas específicas “treinam-se” nos Clubes Desportivos. Este modelo baseado no Desporto não está a resultar. Este tem sido o modelo predominante nos últimos anos e a julgar pelos níveis de obesidade em crianças (LINK) e adultos (LINK) isto não parece estar a resultar. A maior parte dos adultos de hoje que seguiram este modelo são obesos, diabéticos, sedentários e provavelmente nem reconhecem o valor da disciplina de Educação Física nas escolas (e por isto é que esta disciplina é vista  de uma forma recreativa!). As pessoas ainda pensam que o simples facto de ter os seus filhos a praticar desporto é saudável. Mas será saudável vermos pessoas que tiveram uma prática desportiva acentuada enquanto jovens converterem-se em indívíduos sedentários quando são adultos? Será saudável vermos individuos obesos a jogar futebol ou qualquer outra modalidade desportiva que exija uma competência de movimento mínima e uma capacidade física razoável para tolerar o stress que é imputado ao seu sistema músculo-esquelético? Provavelmente não.

Disclaimer: Como esta poderá ser a primeira vez que o leitor aterra neste blogue, eu não estou a sugerir de forma alguma que a culpa de vermos tantas pessoas gordas e doentes hoje em dia tenha a ver somente com a falta de exercício físico, a causa é multi-factorial. Como deve calcular a nutrição tem um papel básico a este nível (eu acredito que isto é um bom começo: 7 Mentiras sobre Nutrição que estão a tornar as pessoas mais gordas e doentes).

O objetivo das aulas de Educação Física deverá ser educar os alunos no sentido de criarem hábitos de vida saudáveis, começando por melhorar a sua Literacia Física (este conceito é bem mais vasto que dar uns saltos e uns pontapés na bola). Nós precisamos de abrir as vias de aprendizagem motora dos nossos alunos, o facto de vivermos hoje em dia num ambiente em que não é necessário ter um corpo em bom estado para sermos bem sucedidos, leva grande parte das pessoas a pensar que a prática de exercício físico não é fundamental. Hoje os jovens e adultos movem-se cada vez menos e cada vez pior. O ambiente a que nós estamos expostos fomenta o sedentarismo e a doença. Mas a verdade é que a prática de exercício físico é fundamental para sermos um ser humano equilibrado, ou seja, quando olhamos para a história do nosso corpo, constatamos que o mesmo desenvolveu-se com o movimento – nós não estamos adaptados ao sedentarismo e à obesidade.

Na minha opinião, a Educação Física precisa de emergir para um Modelo baseado na Saúde, na qualidade de Movimento e no Desenvolvimento atlético. Neste modelo os alunos aprendem as bases dos vários padrões de movimento, os princípios básicos de fisiologia do exercício, de anatomia funcional, os princípios básicos de uma nutrição saudável (podemos pedir ajuda a nutricionistas), treinam as diferentes capacidades físicas (força, potência, resistência, velocidade, agilidade, coordenação) relacionadas com a sua performance na vida e não apenas nas suas modalidades – estas coisas são mais valiosas a longo prazo que aprender um lançamento na passada ou que fazer um passe com a parte externa do pé.

Obviamente que a estrutura das aulas deveria ser adaptada em função das idades dos alunos, por isso o ideal seria começar através de jogos, de circuitos, com um maior enfoque no desenvolvimento das habilidades motoras básicas (nos diferentes padrões de locomoção, na estabilidade corporal, na manipulação/controle de objetos, na percepção espacial e cinestésica) e evoluir no ensino secundário para o aperfeiçoamento dos padrões de movimento fundamentais, para o desenvolvimento das diferentes capacidades físicas e para a integração de alguns princípios básicos de nutrição, de fisiologia e de anatomia funcional. Desta forma, os alunos que não praticam desporto, estariam motivados para aprender como é que deveriam cuidar do seu corpo para o resto das suas vidas e os alunos desportistas estariam motivados para melhorar a sua performance desportiva. Assim, todos os alunos poderiam melhorar por razões individuais e, em poucas décadas, teríamos adultos que iriam valorizar os ensinamentos das aulas de Educação Física na promoção da sua saúde e da sua performance.

É por este impacto positivo na Saúde que eu acredito que este Modelo de Educação Física tem o potencial para se tornar na disciplina mais importante na vida de uma pessoa. E se você não acredita em mim, olhe em seu redor (mesmo na sua família) e contabilize o número de pessoas que estão obesas, doentes, debilitadas, sarcopénicas, com dores nas articulações, com dores nas costas, deprimidas, e que não sabem o que fazer quando precisam de resolver os seus problemas físicos.

“Todos aqueles que meditaram sobre a arte de governar a humanidade ficaram convencidos que o destino do império depende da educação de cada pessoa.”

– Aristóteles (384 a.C.- 322 a.C.)

Para a nossa sociedade e cultura evoluírem, nós precisamos de seres humanos saudáveis, nós precisamos de pessoas com capacidade de resolver os seus problemas físicos e com uma atitude pró-ativa no que diz respeito à sua saúde. Nós não precisamos de políticos incompetentes (e fisicamente iletrados) a ditar se a Educação Física deve ou não contar para a média de um aluno, sem que percebam as consequências devastadoras que essas decisões podem ter na evolução cultural da nossa sociedade e humanidade.

Até breve!

8 thoughts on “Que Futuro para a Educação Física?

    • Boas. Concordo em larga medida com a reflexão aqui apresentada, mas o modelo do ensino da EF é estanque e não evolui há décadas. Os Professores de EF podem-se adaptar, mas não podem fugir muito do ensino curricular obrigatório que é impingido pelo Min. Educação nos programas obrigatórios de EF!!! E aí constam os lançamentos na passada e os passes de ombro, etc, etc.. e se mudarmos por livre iniciativa as modalidades e os critérios de avaliação, podemos bem ser responsabilizados por não leccionarmos o que está previsto e ter de justificar a posição a EE e Direções, como bem sabemos. Essa mudança tem portanto de ser nos programas de EF e depois sim, passar para o terreno/escola. Há uma hipótese intermédia que é a que procuro implementar, indo de encontro ao sugerido. Utilizar as modalidades obrigatórias, alguns gestos técnicos, apenas como suporte de sessões mais direccionadas á resistência, á força e agilidade, para assim conseguir proporcionar indices de condição física e hábitos de vida saudáveis aos alunos.

      P.S. – Como posso adquirir o livro sugerido?

      Hugo Pereira

  1. A obesidade e a debilidade da saúde como finalidade do desconsiderar a disciplina de Educação Física no Ensino Secundário. São uns talentos políticos que decidiram sem se basear em dados concretos em retirar o devido valor da Educação Física no Ensino Secundário, políticos obesos sem estética corporal e com uma debilidades na sua saúde, debilidades que coleccionam por não dar valor ao desporto e seus objectivos , mas possuem uma inteligência imensa, preferem ser sedentários, frustrados e obesos, a enfrentarem os seus medos e efectivamente combater as suas debilidades físicas que não contribuem para ter maior qualidade de vida, saúde e conforto emocional que lhes permitam viver uma das possíveis interpretações do lema do Desporto: “obter uma mente sã, através de um corpo são” trocadilho ao ” uma mente sã, num corpo são”.
    Estes políticos que o assim decidiram sem consultar estudos já realizados, que sobrevalorizam o fato de a nota da disciplina contar para a média final obtida pelos alunos no ensino Secundário ser fundamental para no futuro termos uma sociedade mais capaz e com uma genética mais saudável, que implicará uma maior capacidade no mercado de trabalho/produção. E não está ali um individuo detentor de um cérebro, uma inteligência mas com um perfil inseguro/frustrado, sedentário, obeso com sintomas de uma saúde débil/frágil. Ou será melhor está ali um individuo detentor de um cérebro, inteligência que respira saúde, parece que a sua inteligência está protegida numa fortaleza que é o seu corpo, implica maior auto-estima/auto-confiança.
    E agora o ponto mais fulcral desta medida. É o fato de ser uma medida discriminatória para com a maioria dos alunos que se encontram, e vão se encontrar no ensino Secundário, pois percebo que a nota obtida na disciplina de Educação Física por alguns alunos que têm excelentes notas( 18, 19, 20 valores) a todas as restantes disciplinas, como matemática, L.P. FQA com a excepção a Ed. Física ( 11, 12 , 13 valores) lhes baixe um pouco a média, mas a minha forma de analisar este problema é, que se dediquem mais, e mais tempo ao desporto, que procurem apoios e explicações na área do Desporto, penso que era isto o mais sensato que um professor director de turma, ou não deveria propor ao encarregado de educação. Sendo que quando a nota de (8, 9 ou 10 valores) é atribuída a matemática o director de turma o diz ao encarregado de educação para procurar explicações e ingressar nos apoios. Pois a descriminação está precisamente aqui já pensaram que o aluno mediano com ( 12, 13, 14, 15 valores) nas disciplinas de matemática, português, FQA, BG, que sonha e tem expectativas de ingressar num curso do ensino superior e precisa de obter uma média de 13 ou 14 valores e tem, vê na obtenção da sua nota na disciplina de Educação Física ( 18, 19 ou 20 valores ) o alcançar do seu objectivo/sonho a média suficiente para ingressar no curso pretendido, e com isso dar continuidade ao seu sonho pois possuem um maior talento natural para a disciplina de Educação Física e não tanto para a matemática ou inglês. O talento que se tem é uma dádiva que se pode potenciar, mas nem todos os seres humanos são detentores dos mesmos talentos, divergem entre si. Será que ao retirar o peso merecido da Educação Física no ensino Secundário não estamos a descriminar alunos? Pergunto eu? Será que não estamos a beneficiar outros, que por si só muitas vezes já são detentores de muitos talentos noutras áreas disciplinares. Eu sei que existem alunos completíssimos em todas as disciplinas incluindo a Educação Física, são talentosos em todas as áreas disciplinares e ainda bem que existem, e que todos deviam se aproximar deles, e em muitos dos casos sei que tentam e se esforçam mas têm limitações, e essas limitações é que nos fazem melhores seres humanos, pois reconhecemos as nossas limitações, e assim reconhecer que determinada pessoas é mais capacitada para determinada área que outra. E este é o caminho… Agora excluir a disciplina de Educação Física da atribuição de média para ingresso no ensino superior, só porque estraga a média a alguns alunos de excelência. Meus senhores então é porque, efectivamente não são alunos de excelência, pois estes, são também alunos de excelência na Educação Física, é esta a mais pura das verdades! Se querem beneficiar esses supostos alunos de excelência que não são bons alunos a Educação Física, não assassinem o sonho/expetativa da maioria dos alunos que contavam com esta nota desta disciplina para viabilizar o seu futuro académico e profissional. Não vivamos nós, numa República onde o direito do cidadão ao ensino seja discriminatório.

    Fernando Gomes

  2. Considero este texto uma boa leitura… deixo no entanto algumas considerações…e o processo cognitivo, conta para algo neste enquadramento, é considerado? e o (des)envolvimento emocional, social e afetivo? A Literacia desportiva é ainda mais abrangente do que o referido aqui…

  3. Concerteza que sim, todos os domínios são importantes e complementam-se todos, contribuindo para um crescimento ( cultural, emocional, social, afetivo) harmónico) . Não vamos agora desconsiderar a cultura desportiva ( Educação Física no ensino Secundário.)

    Atentamente.

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